quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Livro Mudando o Amanhã




Mudando o Amanhã

Silvio Kurzlop



Capa:
Detalhe do afresco pintado por Michelangelo em 1508 no teto da Capela Sistina, Roma.

Revisão:
Fátima Maria Casselato
(Professora de Língua Portuguesa)
Otávio Schimieguel
(Professor de Língua Portuguesa Literatura)

Ilustrações:
Silvio Kurzlop

Edição do Autor

Impresso no Brasil

Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor.

Depósito legal número 228.572 Biblioteca Nacional



In memoriam

Paulo Henrique Brito

 



Agradecimentos:

Alex Kurzlop (pai).
Vilmar Kurzlop (irmão e exemplo).
Representando a família em que tive a sorte de nascer.

Valdir Fagundes (ator e diretor de teatro).
Que me inspirou a fazer essa edição melhorada com os seus conselhos.

 

Para Bruna, Lucas, Daniel e Gabriel.

“Razão do meu viver”.

 

E para Rosi

“Minha vida”.

 

 Capítulo 1

Onde eu iria parar seguindo aquele velho maluco?

O que eu faço agora? perguntei ao velho que estava sentado no banco da praça, com as suas mãos desaparecendo nos bolsos da alinhada jaqueta.

Era uma fria tarde cinzenta de outono. A rua ainda molhada pela insistente garoa fina que caíra até há pouco.

Você insiste em raciocinar disse-me o velho ─ tente apenas “sentir”, deixe a emoção te guiar.

Desconcertado pelos estranhos métodos do velho, fiquei ali parado, em pé, à sua frente, olhando para uma barra de chocolate em minhas mãos, sem saber o que fazer.

Estávamos na Praça Santos Andrade em Curitiba. À nossa esquerda as escadarias da Universidade Federal do Paraná. No outro extremo da praça ficava o Teatro Guaíra.

A praça estava agitada. Olhei em volta observando o movimento incessante de pedestres desatentos, como zumbis, dançando numa sinistra coreografia, sem se olharem e sem se tocarem, como se cada um amargasse a própria solidão, mesmo em meio à multidão.

Percebi, no outro lado da rua, um mendigo sentado na marquise, enrolado em um cobertor. Olhei para a barra de chocolate em minhas mãos tentando adivinhar o que deveria fazer.

Agenor sempre arranjava estranhos desafios e eu precisava, literalmente, adivinhar as suas intenções. Naquela tarde ele me presenteou com o meu chocolate preferido. E depois deu uma série de instruções enigmáticas. E eu, como sempre, não sabia o que ele esperava que eu fizesse.

Seguindo a minha intuição, atravessei a rua e entreguei o chocolate ao mendigo.

─ Deus lhe abençoe!

O largo sorriso de gratidão do mendigo dissipou o meu constrangimento, por não conseguir entender direito as estranhas manobras do velho Agenor.

─ Esse é um ótimo jeito para começar ─ falou o velho, quando sentei ao seu lado no banco da praça.

─ E agora? O que vamos fazer?

─ Esperar.

Conheci Agenor um ano antes, embrenhado em uma floresta na Serra do Mar, acampado ao lado de uma imponente cachoeira de difícil acesso. Naquela ocasião, eu não poderia sequer imaginar os eventos e experiências que aquele velho iria provocar.

Depois daquele acampamento, estabelecemos uma sólida, porém estranha amizade. Agenor havia me desafiado a colocar em prática alguns conceitos, dos quais ele falava paciente e repetidamente, com a promessa de que, se eu seguisse os seus conselhos, me tornaria rico.

O que no começo aparentava ser uma excêntrica brincadeira, aos poucos foi me envolvendo, me encantando, ou para ser mais sincero, eu fui fisgado pela cobiça, pois descobri que o velho, além de misterioso, era também muito rico.

Mas, por mais que me empenhasse em aplicar os seus ensinamentos, nada mudava, eu continuava pobre.

Nos últimos dois meses, Agenor ficara ainda mais estranho. Desde uma discussão que tivemos, onde como sempre eu não conseguia entender os seus abstratos conceitos.

─ Vai demorar muito?

Tenha paciência, Marcelo.

Paciência? Já estamos aqui há horas. Por que tem que ser sempre assim? Sempre tão cheio de mistérios? Custa explicar o quê estamos esperando?

            Agenor esticou as pernas, procurando uma posição mais confortável e levantou as golas da jaqueta, que cobriam parcialmente o seu rosto.

            ─ Para poder te explicar qualquer coisa, eu tenho que usar palavras. Mas o que eu tenho para te falar só vai fazer sentido se as suas emoções forem as certas. Estamos esperando as emoções certas.

            ─ E quais são as emoções certas? ─ Perguntei enquanto remexia a fita vermelha que o velho havia amarrado em meu pulso, alguns meses atrás.

            ─ O que exatamente você está sentindo agora?

            ─ Estou angustiado. É uma aflição que sempre me persegue... Uma sensação de vazio. Como se me faltasse algo. É como uma saudade não sei de onde... Não sei do quê... Não sei de quem.

Um leve toque em meu braço me desperta de minhas lamentações. Agenor, com o rosto quase escondido nas golas levantadas de sua jaqueta, indica com o olhar uma cena que se desenrola bem à nossa frente, do outro lado da rua.

O mendigo, para quem eu dei o chocolate, estava abaixado, juntando os seus apetrechos que se esparramaram pelo asfalto, depois de um tombo desajeitado, quando ele tentava atravessar a rua.

Uma caminhonete, dessas modernas, cheia de acessórios ostentando riqueza, tenta passar, mas não consegue.

Olhando o mendigo ajoelhado guardando suas tralhas, não consegui deixar de sentir pena. Solidário, tentei levantar para ajudar, mas Agenor com firmeza me segura pelo braço, apontando para a caminhonete.

Só neste instante percebi que o motorista era muito jovem. Um rapaz que não deveria sequer ter idade para dirigir e que gesticulava de forma arrogante com a sua namorada.

Em determinado momento, o jovem motorista, com a autoridade de quem sempre teve muito dinheiro e com a desvirtuada sensação de que o resto do mundo existe só para lhe servir, estica a cabeça para fora da janela do seu símbolo de status motorizado e, irritado com a espera, grita:

Seu monte de estrume! Tire essa porcaria da frente que eu quero passar.

O mendigo, que continuava a recolher suas coisas, tão corajoso quanto bêbado, respondeu com sarcasmo certeiro:

Vá trocar suas fraldas seu moleque.

A garota que estava no carro não se conteve e sorriu.

O jovem motorista, que tentava há poucos instantes se mostrar mais homem para impressionar sua acompanhante, foi atingido em cheio na ferida aberta em seu orgulho.

Como podia ficar ele impassível a uma provocação dessas?

A sua raiva extrapolou os limites do aceitável ao ver o sorriso no rosto de sua namorada e as gargalhadas de escárnio dos pedestres que paravam para assistir.

Possuído pela cólera, seguindo um estímulo imponderado, o rapaz apanhou sob o banco um chicote e descendo do carro atacou o mendigo, que se encolheu tentando proteger o rosto com os braços.

O primeiro golpe estralou no ombro deixando uma marca próximo ao pescoço.

Eu havia me identificado com aquele pobre coitado. E aquela marca vermelha parecia latejar em minha própria carne.

A exagerada atitude do moleque foi de tal maneira inusitada, que demorei alguns instantes para reagir.

Levantei-me de supetão e atravessei a rua para defender o mendigo. Mas Agenor me alcançou segurando com força o meu braço, impedindo-me de ajudar.

Uma nova chicotada fustigou o mendigo.

Agora, mais de perto, pude perceber que o chicote era feito com um pedaço de cabo-de-aço, que assobiava ao cortar o ar, antecipando o sofrimento. O arrepiante som do estralo do chicote nas costas do mendigo era abafado por seus gritos desesperados:

Não, pelo amor de Deus...

Curiosos, ávidos por violência, se acotovelavam à nossa volta formando um círculo. Uma arena imaginária foi instalada no meio da rua. Cada um procurando o melhor lugar para assistir a desordenada tentativa do indigente de se defender.

Ajudem! Façam alguma coisa! Chamem a polícia gritou uma velha e indignada senhora.

Porém, a platéia deste espetáculo bizarro, inconsciente e insensível pelo próprio sofrimento diário, anestesiada pela mesmice de sua rotina mecânica, assistia a tudo reagindo lentamente e sem emoções.

─ Aiii... Eu não fiz nada... Pare...

Tento me desvencilhar de Agenor para socorrer o açoitado, mas o velho, com rapidez e força, agarra meus dois braços por trás, me imobilizando.

O chicote subia e descia, zumbindo pavoroso, descarregando a raiva do moleque, enquanto dilacerava a dignidade do mendigo.

Tenha piedade... Chega...

Os fios de aço, que estavam irregulares na ponta do chicote, faziam pequenos rasgos na camisa do pobre coitado que, além da sujeira acumulada, ficava agora também manchada de sangue.

Por tudo que é mais sagrado, pare...

Estimulado pela brutal violência, meu corpo fica trêmulo com o excesso de adrenalina a circular nas veias, acelerada pelo coração descompassado. A impossibilidade de intervir me causou tontura e náuseas. Era como se eu pudesse sentir a dor e a humilhação do mendigo.

Por misericórdia, pare...

O rapaz estava totalmente descontrolado, possuído por uma raiva predadora e descomunal. A garota agarrada a sua jaqueta, tentava em vão fazê-lo parar. Chorando ela implorava, mas não conseguia dissuadi-lo.

─ Tenha compaixão, chega...

A velha senhora encarava a multidão de covardes e continuava gritando, apertando a sua bolsa como se fosse o pescoço daquele rapazinho endiabrado.

─ Isso é um absurdo. Alguém, pelo amor de Deus, faça alguma coisa.

Insensível às súplicas da garota, aos gritos da velhinha e aos agonizantes gemidos do mendigo, o rapaz continuava a chicotear a ousadia petulante daquele atrevido.

Aiii, eu não aguento mais...

Eu travava os meus dentes, cada vez que o chicote assobiava cortando o ar, e me encolhia esperando os golpes que pareciam doer em meu próprio corpo.

Lágrimas contornavam as rugas no rosto da velhinha, que estampava em seu semblante todo o assombro e o pavor daquela cena.

─ Isso é desumano...

─ Por que você não me deixa ajudar? ─ Gritei com o velho, tentando me desvencilhar.

─ Olhe! Preste atenção! ─ Falou o velho me chacoalhando pelos braços firmemente.

Repentina e inesperadamente, o mendigo urra de forma animalesca e levanta-se num salto, cerrando os punhos, afrontando o seu algoz.

Assustado com o estrondoso e aterrador trovão irrompido da boca de sua presa, o rapaz, com os olhos arregalados e com gestos hesitantes, desfere ainda o derradeiro golpe que explode no rosto da vítima, onde aparece instantaneamente um vergão avermelhado.

O rapaz, como se somente naquele instante tivesse acordado e percebido o exagero de sua atitude, dá um passo para trás um tanto desconcertado.

A velha senhora pára de gritar. Um enorme suspense mantém esbugalhados os olhos da pequena multidão. O berro do mendigo parecia ter silenciado o mundo.

Atônito, o rapaz percebe a expressão de fera no olhar do mendigo, que lhe encara tornando a gritar furiosamente como se já não sentisse mais a dor.

Gritando enlouquecido, com os olhos injetados de um ódio selvagem, com as veias a lhe saltar do pescoço e com os dentes à mostra, o mendigo estufa o peito e, com a coragem que tirou nem ele sabe de onde, aproveita-se do torpor letárgico do moleque para arrebatar-lhe o chicote.

E eis que as posições se invertem. Caça vira caçador. A vítima supera o carrasco.

Foi tentando se defender e agindo de forma puramente instintiva que o mendigo conseguiu tomar o chicote das mãos de seu agressor.

O jovem presunçoso não esperava que aquele farrapo humano tivesse o atrevimento de reagir.  

O mendigo, finalmente ereto, percebeu que era mais alto e mais forte do que aquele fedelho. Foi muito fácil arrancar o pedaço de cabo-de-aço das mãos do moleque e com a mesma fúria retribuir os golpes. 

Sentindo a dor das chibatadas, toda a arrogância do rapaz cai no asfalto junto com o seu corpo enroscado fugindo da dor.

Isso! Assim mesmo! Bem feito! recomeça a gritar a velhinha, vibrando e esmurrando a própria bolsa.

A garota se afasta alguns passos, mantendo os olhos fixos naquela inusitada cena. Parando de chorar, ela contempla o castigo de seu namorado sem interferir, talvez por achá-lo merecido.

Depois de uma breve seqüência de chicotadas frenéticas, o mendigo cessa a punição, joga o chicote sobre o rapaz e, com a ajuda da velhinha, agarra às pressas os seus pertences e desaparece, misturando-se aos pedestres que aos poucos dispersam, finalizado o espetáculo, voltando à sua monotonia autômata.

A garota ajuda o seu namorado a se levantar, consolando-o como a um menino, e o conduz de volta a caminhonete.

Eu ali parado, com Agenor a me segurar os braços, ainda aturdido com o que acabara de presenciar.

A arena imaginária se desfez. A praça retomara sua cadenciada rotina, mas o eco daquele trovão ainda ressoava em minha mente.

Assim que consegui regressar ao meu habitual raciocínio, explodi em perguntas:

Era isso que você queria que eu visse? Como é que você sabia que isso aconteceria? Qual a relação do que aconteceu aqui com o que você quer me ensinar?

Cale-se! Pare de raciocinar retruca Agenor sacudindo-me pelos braços.  Não pense, procure “sentir”.

Sentir o quê? perguntei já ficando desesperado com aquele mistério todo.

Visivelmente decepcionado, o velho caminha em direção ao seu carro estacionado logo à frente. Ouço o barulho do alarme sendo destravado.

Não estou entendendo nada. Eu preciso de uma pista, me ajude gritei ainda parado no meio da rua.

Se você prometer ficar calado, pode vir junto respondeu Agenor, já entrando no carro.

Como Agenor pôde prever aquilo tudo? O que ele pretendia me ensinar? Onde eu iria parar seguindo aquele velho maluco?

Minha curiosidade não me deixou outra opção: Resignado, entro no carro como um peixe mordendo a isca.

 

 

 

Capítulo 2

O amanhã ainda não tem forma.

Após dirigir por alguns minutos sem dizer uma palavra, Agenor estaciona o carro próximo ao mirante de uma represa transformada em parque nos arredores da belíssima cidade de Curitiba.

Depois de um dia inteiro nublado e com garoas esparsas, finalmente vejo o sol, escondido acanhado por trás de densas nuvens, quase debruçado no horizonte. Alguns raios esquivos refletiam, tingindo o céu com tonalidades de vermelho.

O mirante do Passaúna é uma estrutura metálica erguida na encosta de um morro, com uma escadaria que conduz a uma plataforma elevada.

Apoiados na mureta de proteção do mirante, Agenor e eu ficamos calados contemplando a paisagem: Um enorme lago artificial formado num vale por uma represa, com caminhos tortuosos cheios de pontes contornando toda a extensão das margens.

─ Como você sabia que tudo aquilo iria acontecer lá na praça? ─ Perguntei tentando começar uma conversa.

 ─ Não fale nada ainda. Concentre-se apenas em seus sentimentos ─ ordenou Agenor.

Debruçado na grade de proteção do mirante, o velho admirava o pôr do sol no horizonte, enquanto eu remexia na fita vermelha amarrada em meu pulso.

Uma fresta de sol no horizonte, com o céu quase todo nublado, despertou a imagem de uma luz no final de um imenso túnel.

O silêncio imposto pelo velho acalmou aos poucos o frenesi causado pelo incidente com o mendigo e conseguiu trazer de volta aquela melancolia do começo da tarde.

Tentando seguir as instruções de Agenor, avaliei quais poderiam ser as raízes dessa tristeza. Um pensamento puxando outro, num entrelaçado de sentimentos confusos e acabei por relembrar episódios amargos ocorridos ao longo de minha difícil vida.

Recordei do último natal, quando meu filhinho pediu inocentemente ao Papai Noel da loja de brinquedos, uma bicicleta que ele namorava na vitrine. Infelizmente eu não pude comprá-la, porque era necessário estabelecer prioridades e, definitivamente, comida era mais importante.

Sofri duplamente ao experimentar o que meu pai sentiu quando eu, ainda criança, pedia coisas que não se encaixavam no parco orçamento familiar.

Meu pai... Quanta saudade!

Uma recordação puxando outra e voltei àquele momento crucial. Sentia-me novamente um garoto de doze anos, olhando minha mãe ajoelhada rezando ao lado do meu pai doente.

Ainda consigo ouvir os gritos suplicantes de minha irmãzinha, enquanto meu pai desistia da vida, afundado naquela maldita cama que o aprisionara durante tantos anos.

Com o coração pequeno, esmagado pelas lembranças expostas como feridas pelo abominável sentimento de autopiedade, as lágrimas do garoto que eu fui um dia começaram a rolar pelo meu rosto, agora adulto, distraído a contemplar o lago.

Estava tão profundamente envolvido nesse masoquismo mental, que não percebi Agenor sorrindo, olhando-me com ares de triunfo.

Não, pelo amor de Deus, chega! gritou o velho imitando com perfeição teatral o mendigo daquela tarde, se encolhendo e tentando se proteger com as mãos, como se alguém o estivesse açoitando.

Eu, que ainda remoía em minhas lembranças o sofrimento e as humilhações que suportei na vida, infligidas pela pobreza, encarei o velho buscando explicações.

Agenor estava muito agitado. Olhava curioso procurando alguma coisa em meus olhos. E eu, cada vez mais confuso.

Tenha piedade, eu não aguento mais insiste Agenor gesticulando como o mendigo a se encolher, com a voz em falsete e um largo sorriso escancarado no rosto.

─ É que a vida tem sido injusta comigo ─ tentei explicar minhas lágrimas.

Agenor se endireita, ajeita a sua roupa e torna a levantar as golas da jaqueta.

Você está pedindo esmolas para a vida! Por isso se identificou tanto com o mendigo... Você é que é um mendigo... Quem só sabe pedir esmolas, tem que aprender a se contentar com as migalhas falou Agenor solenemente.

Subitamente comecei a entender o que o velho tentava me mostrar esse tempo todo.

Era mais do que entender, parecia que meu corpo todo assimilava, de uma só vez, tudo que Agenor tentara me ensinar nos últimos meses. Compreendi que fora passivo a vida inteira. Como uma marionete, sempre manipulado pelas circunstâncias. Jogado de um lado para outro pelos ventos da miséria e do medo da pobreza.

Você se entrega a um autoflagelo. Você usa a falta e dinheiro como um chicote. Você é o seu próprio carrasco. Você gosta de sofrer disse o velho.

Que absurdo, eu nunca procurei o sofrimento.

Quem não procura melhorar de forma consciente, é arrastado inconscientemente, levado pelos infortúnios da vida falou Agenor de forma séria e pausada.

─ Mas eu sempre trabalhei duro tentando melhorar de vida...

Besteira! Você trabalha porque a sociedade assim estabeleceu, porque se sente obrigado.

Isso não é verdade. Eu gosto do que faço e estou realmente me esforçando para realizar os meus sonhos.

Engane a si mesmo. Você também disse que admira quem fala outros idiomas, mas nunca se esforçou verdadeiramente para aprender outra língua. Falou-me do quanto acha bonito poder tocar bem um instrumento musical, do seu sonho de tocar violão, mas nunca se aplicou de forma séria e decidida neste sentido.

Mas não estamos falando de ir para a escola aprender música ou língua estrangeira...

A conversa é sobre força de vontade continuou o velho, sem me deixar falar. São necessárias ambição e determinação para chegar a algum lugar. Saber aonde quer ir, tendo um sonho definido, acreditando nele, defendendo-o com unhas e dentes...

Conforme o velho discursava, meu ânimo se alterava. Senti um calor emanando do centro do meu corpo. Era como se eu estivesse aumentando de tamanho.

Dê força para o seu sonho, alimente-o com garra e persistência, ele vai crescendo, criando vida própria. Chegará a um ponto em que a sua obstinação o tornará tão forte que derrubará qualquer obstáculo que atravesse seu caminho. E o que era só uma idéia no começo se tornará realidade pela sua força de vontade.

Depende de você dominar ou ser subjugado pelo dinheiro falou Agenor esperando minha reação.

Fui tomado por uma agradável sensação de poder.       

Claro que prefiro dominar o dinheiro.

Não Marcelo. Pare de raciocinar. Tente “sentir” protestou Agenor.  E com um gesto mostrando o estômago completou: Começa aqui. É como se nascesse em suas entranhas e fosse crescendo até explodir na sua garganta.

Lembrei da inusitada cena que presenciei na praça naquela mesma tarde. A expressão do mendigo quando reagiu instintivamente tomando o chicote das mãos do seu agressor. Agora eu finalmente entendia: A cada humilhação causada por dificuldades financeiras no passado, reagi com lamentações: “Por favor, pare. Tenha piedade. Pelo amor de Deus, eu não agüento mais”.

Todo ser humano possui, inclusive aquele mendigo, uma força interior latente, pronta para se manifestar. Você vai usar essa força agora? Ou pretende continuar a se encolher e passar a vida sofrendo?

Envergonhado, sequei minhas lágrimas com as mangas da camisa.

Chegou o momento de dar um basta à mazela e à mendicância, agarrando o chicote do conformismo, do indesejado hábito inconsciente de se justificar reclamando, e conquistar o dinheiro, como símbolo da alforria. Arrebentar com determinação os grilhões da pobreza assumida, exigindo a real liberdade: O direito a uma qualidade de vida digna e decente.

Agenor falou de forma enfática, fazendo um gesto unindo os pulsos e depois separando, para simbolizar a quebra de algemas, quando se referiu a arrebentar os grilhões da pobreza.

Agarrado à mureta de proteção, apertando o ferro como se tivesse força para amassá-lo, com todos os músculos retesados e com os dentes travados, tal qual criança a segurar o choro, eu senti brotar um grito.

O seu ontem já passou, não tem mais jeito. O seu hoje é a colheita do que você plantou, é muito difícil mudar instantaneamente. Mas o seu amanhã ainda não tem forma, só depende de você concluiu o velho.

Tudo que o velho Agenor me ensinara em todos aqueles meses, de repente fazia sentido. A verdadeira mudança não ocorre no cérebro. Podemos pensar, traçar planos, sonhar, mas para transformar tudo isso em realidade é necessária uma mudança mais profunda, uma mudança de atitude.

─ Vamos! Não pense. Procure sentir.

O velho Agenor, com o olhar brilhante, fazia sinais com as mãos, me incitando a externar os meus sentimentos.

Um enorme desejo de gritar se formou no meu íntimo, explodindo em seguida garganta afora. Um berro sobrenatural que arrepiou todos os pêlos do meu corpo e ecoou no lago à nossa frente, que refletia os últimos raios avermelhados de um sol agonizando no meio das nuvens.

Gritei como uma fera que arreganha os dentes, com a boca esgarçada, com as veias do pescoço saltadas, sentindo meu corpo vibrando a emoção de saber que eu também tinha direito a toda fartura do universo. Era um grito assustador, exorcizando um passado de fracassos e lamentações.

Agora eu entendia a força que se apoderou do mendigo quando reagiu naquela tarde. Parecia mágica. Eu me sentia com poder para fazer o que bem entendesse com o meu destino daquele momento em diante.

Colocando um braço sobre o meu ombro, Agenor sussurra em meu ouvido, como quem conta um segredo:

Guarde esse momento com carinho, lembre-se sempre dessa sensação, ela pode te levar aonde você quiser.

Talvez eu nunca consiga traduzir em palavras todo o impacto que as estranhas lições de Agenor causaram em minha vida. Mas posso tentar narrar como tudo aconteceu, desde o começo...

 

 

 

Capítulo 3

Na cachoeira só existe um bom lugar para acampar... e esse é o prêmio para quem vence a “corrida”.

          Conheci o velho Agenor no verão passado, na mesma época em que perdi o meu emprego.

          Fiquei tão conturbado e a pressão chegou a tal extremo, que tive de apelar para a minha válvula de escape preferida: aproveitar o fim de semana para pegar o trem que liga Curitiba à Paranaguá, descer no meio do caminho, e acampar em plena floresta, no coração da Serra do Mar.

O barulho cadenciado do trem e a preguiça matinal estabelecem uma tranqüilidade harmoniosa na primeira hora da viagem, quebrada pelo alvoroço dos passageiros assim que passamos a terceira estação.

Era fácil identificar entre os passageiros, os que faziam a viagem pela primeira vez. Ficavam eufóricos de encantamento com a deslumbrante paisagem ao redor daqueles trilhos que se esgueiram por entre morros, ora passando por pontes metálicas centenárias, ora sumindo pelos inúmeros túneis do caminho.

Estava na hora de iniciar o ritual: guardar todos os apetrechos na mochila, deixando o cantil bem à mão. Verificar se estava tudo bem preso. Era vital para o sucesso da caminhada que as mãos ficassem livres.

Ainda faltavam duas estações para chegar, mas como sempre eu me levantei e percorri todos os vagões até chegar ao que ficava ligado a locomotiva.

Caminhar no trem em movimento é prazeroso, balançando ao matraquear ritmado dos trilhos. Os estalos crescem aos poucos, vindos do vagão da frente, ressoando mais alto sob os meus pés e se perdendo nos vagões traseiros, enquanto uma nova série recomeça lá na frente. Mas andar assim requer um pouco de habilidade, para evitar bater com a pesada mochila nas cabeças dos outros passageiros.

Quando passei pelo penúltimo vagão encontrei o Índio, um conhecido de outras viagens, que recebera este apelido pela fama de ser um profundo conhecedor daquela região da floresta. Na realidade, ele é que me ensinara o caminho para a cachoeira que íamos. Além de sua namorada, três rapazes o acompanhavam, com ansiedade e euforia estampadas em suas fisionomias, deixando transparecer tratar-se de novatos naqueles caminhos.

E aí Marcelo? Se escondendo no último vagão? ─ perguntou Índio enquanto nos cumprimentávamos, batendo as palmas das mãos e depois dando um toque com os punhos cerrados.

─ Como sempre. O último vagão é sem dúvida o melhor lugar ─ respondi.

Cumprimentei os amigos de Índio com o mesmo tapinha, seguido do toque de mãos fechadas. E dei um beijo no rosto da sua namorada.

─ Melhor lugar? ─ perguntou a namorada de Índio.

─ O Marcelo prefere viajar lá atrás para ficar longe da fumaça e do barulho da locomotiva ─ explicou Índio.

─ E do lado esquerdo ─ completei.

─ É óbvio. Onde tem a melhor vista ─ falou Índio olhando para a paisagem lá fora.

─ Estão indo para o salto? ─ Perguntei.

─ Vou apresentar esses novatos aqui para aquela maravilha ─ respondeu Índio apontando para os amigos.

─ Pelo caminho certo? Ou vai ser um batizado?

Índio dá uma sonora gargalhada e depois explica a situação para a namorada e os amigos.

─ Fui eu quem levei o Marcelo para a sua primeira subida ao salto.

─ E me fez caminhar por horas em direções erradas, pelas trilhas abertas pelos palmiteiros. Chegamos ao salto quando já estava quase escurecendo ─ expliquei.

─ Era o “batismo”. Quem quer conhecer o Salto dos Macacos tem que pagar o preço.

─ Eiii! Nem se atreva ─ fala a namorada de Índio com o dedo em riste, após lhe dar um empurrão.

Índio solta uma nova gargalhada e abraça a sua namorada.

─ Nos vemos lá em cima ─ falei me despedindo e seguindo em direção ao primeiro vagão.

─ É. Perdemos a plataforma ─ resmungou Índio.

─ Aquele melhor lugar para acampar que você falou? ─ Perguntou um dos amigos de Índio.

Índio balançou a cabeça desanimado.

─ E se apressarmos o passo? ─ Perguntou a namorada.

─ O Marcelo é “macaco velho”. Já está indo para o primeiro vagão.

A namorada faz um gesto não entendo a resposta de Índio.

─ Do primeiro vagão, Marcelo desce direto no começo da estradinha que dá acesso ao salto. Não teremos chances. Já perdemos a corrida ─ concluiu Índio.

 

 

 

 

 

Capítulo 4

Escorreguei na pedra lisa e mergulhei na água fria.

            A primeira parte do percurso a pé foi fácil vencer, meia hora de caminhada morro abaixo por uma pequena e precária estrada e pronto, lá estava eu na margem do primeiro rio que teria de atravessar.

Essa era a parte mais difícil. O rio não era muito largo: no máximo vinte metros. Nem muito fundo: escolhendo o local certo para atravessar, nem molharia a mochila. O problema era a correnteza.

Águas transparentes passando ligeiro por entre pedras de todos os tamanhos, formando véus brancos majestosos, quase encobertos pelas enormes árvores que se debruçavam sobre o rio, a partir das margens fechadas por densa vegetação.

De pé sobre uma enorme pedra, avaliei por instantes o desafio à minha frente. Nunca havia atravessado este rio sozinho. Em grupo é fácil, é só fazer uma corrente humana dando as mãos, alguém sempre vai estar apoiado em alguma pedra, facilitando a passagem.

Resolvi arriscar. Escolhi o que parecia ser o melhor local e fui à luta. Na metade da travessia deparei com um obstáculo que parecia intransponível. Um espaço de mais ou menos três metros me separavam da parte mais rasa do rio. Mesmo assim, imprudente, tomei impulso e tentei atravessar direto. E fui mesmo direto... ao fundo.

Brigando com a correnteza, escorreguei na pedra lisa e mergulhei na água fria. Desequilibrado pelo peso da mochila, eu fui arrastado rio abaixo só parando após dolorosa joelhada em uma pedra, uns quinze metros depois. Saí do rio vergonhosamente encharcado e mancando.

  

Capítulo 5

Caminhei apressado, contornando uma grande pedra e, estupefato, não pude acreditar no que vi.

            Do rio maior até a cachoeira foram quase duas horas de caminhada, num estafante sobe e desce por trilhas que ziguezagueavam mato adentro. Havia trechos onde era necessária uma escalada, me agarrando a árvores e cipós para vencer morros íngremes.

O barulho da água avisava antecipadamente quando um dos sete pequenos rios do caminho se aproximava, eram os momentos de descanso e de se refrescar. A floresta, por vezes tão úmida e fechada, com tantas árvores altas, que só era possível saber que havia um sol lá em cima, pelo calor sufocante. Os ruídos da mata, ora musicais, ora assustadores, tratavam de lembrar que eu não estava sozinho. O passo apertado pela teimosia de chegar à frente manteve a roupa molhada pelo suor durante todo o percurso.

Essa cachoeira é realmente especial. Todo o sofrimento do fatigante trajeto é esquecido já nos primeiros instantes da chegada. Ao tirar das costas a mochila com os quase quinze quilos de itens necessários para acampar por um final de semana, eu sinto uma agradável tontura. Fico ali parado na entrada desse lugar imponente, boquiaberto como da primeira vez que ali estive.

À minha frente um rio de água límpida rasgando a rocha. À direita o Salto dos Macacos, uma cachoeira de cinquenta metros de altura, caindo sobre uma rampa de pedra que termina num fosso, local preferido pelos visitantes para se escorregarem sentados pedra abaixo mergulhando na água fria e transparente. Deste ponto até o Salto do Redondo, que fica cinquenta metros à esquerda, existem, além de pequenos saltos, quatro piscinas naturais. Tudo isso cravado no que parecia ser uma única e gigantesca rocha, com árvores altas e mata fechada nas duas margens.

Tudo tão grande e majestoso, que me sinto pequeno ali parado esvaziando o cantil sobre meu rosto inclinado para trás, tentando lavar o suor e o cansaço, quando ouço o barulho de metal caindo.

O local não era silencioso; ao contrário, a batalha incessante das águas com as pedras produz uma estrondosa e contínua sinfonia. Mas o barulho de metal batendo na rocha se destaca por contraste.

Caminhei apressado contornando uma grande pedra e, estupefato, não pude acreditar no que vi. Um velho com quase três vezes a minha idade armando uma barraca na “minha” plataforma.

Mas como?  Eu fizera tudo certo. Imprimi um ritmo de caminhada tão forte que no último trecho, a subida do morro, eu avistei o grupo do Índio subindo atrás e, pela distância, calculei uma vantagem de no mínimo quinze minutos.

Só tem um trem passando naquela estação, e eu estava nele. Desci antes que parasse totalmente e caminhei por quase três horas, desmanchando em suor. Era impossível para aquele velho chegar na minha frente.

Não contive a curiosidade, me aproximei e assim que consegui “quebrar o gelo” com as apresentações, apertos de mãos e comentários sobre o tempo, eu fui logo ao que me perturbava perguntando:

Que trilha você pegou para chegar aqui tão rápido?

Atravessei o rio maior lá embaixo onde tem aquela pedra grande respondeu ele com naturalidade.

Achei que iria chegar primeiro falei justificando minha curiosidade.

Percebi que não tinha ninguém aqui em cima, logo que atravessei o rio.

Além de atleta você também é adivinho?

Não. Só observador explicou ele. Notei que havia muitas teias de aranha pelo caminho, foi fácil concluir que eu estava na frente.

─ Puxa! Como eu não me toquei disso antes? Hoje não foi necessário benzer o caminho ─ falei dando um tapinha em minha própria testa.

─ Benzer o caminho? ─ Perguntou o velho com uma expressão exagerada de curiosidade.

─ Sim! Sempre que subimos alguém vem na frente agitando uma varinha para tirar as teias de aranha do caminho.

O velho continuou a olhar sem entender.

─ Benzendo... ─ expliquei gesticulando como se agitasse uma varinha à minha frente.

O velho finalmente balançou a cabeça e sorriu.

Os gritos e assobios de comemoração do grupo que acabava de chegar, interromperam nossa conversa. Um incontido entusiasmo arremessou os três rapazes com roupa e tudo na água fresca, enquanto Índio e a sua namorada se aproximaram nos cumprimentando.

Apresentei ao velho o meu colega de acampamento que acabava de chegar e, gentilmente, tirava a mochila de sua acompanhante.

─ Então o Índio te liberou do batismo? ─ Perguntei para a namorada.

─ Batismo? ─ Perguntou o velho, fazendo novamente aquela expressão exagerada de curiosidade.

Índio sorri e abraça a namorada dando-lhe um beijo na testa.

─ É que o Índio costuma atormentar os novatos, ou batizar como ele diz, fazendo eles darem várias voltas no caminho antes de chegarem aqui ─ expliquei.

Temos um novo campeão brincou Índio apertando a mão de Agenor.

O velho ficou observando sem nada entender.

Você ficou com a plataforma expliquei apontando para a barraca, ainda sem me conformar com a derrota.

Peguei o lugar de alguém? perguntou Agenor com um malicioso sorriso de quem compreendera minha frustração.

O troféu é de quem chega primeiro respondeu Índio. Depois, virando-se para mim, complementa: Marcelo, para nós resta cortar alguns galhos para forrar aquela clareira encharcada, que é o lugar dos perdedores.

Havia um tom de vitória na voz de Índio. Desta vez eu era mesmo o perdedor. Ele pelo menos iria ter com quem passar a noite.

 

 

 Capítulo 6

Alguns pássaros voavam em torno dele, tão próximos que se esticasse o braço poderia tocá-los.

            O tempo naquela floresta atlântica era muito instável e, apesar do sol brilhar pela manhã, choveu durante a tarde toda.

Preso na barraca, sozinho e sem ter o que fazer, eu não consegui relaxar. Com os problemas que pensei ter deixado em Curitiba insistindo em me perseguir numa tortura mental angustiante.

Era atormentado persistentemente pela imagem do chefe de pessoal com aquela polidez toda, falando de crise e contenção de despesas, de critérios adotados e que eu, infelizmente, era o mais novo na empresa. Não adiantaria suplicar, falar das necessidades ou da minha competência, a decisão já estava tomada: fui despedido.

A angústia tornava rarefeito o ar úmido e com cheiro de nylon da barraca. O barulho da chuva deformava meus pensamentos com imagens mescladas de pesadelos recorrentes. Como eu iria comprar comida para os meus filhos? É difícil para um desempregado manter a dignidade. O tamborilar dos pingos da chuva no nylon da barraca pareciam amplificados.

Lembrei do meu pai morrendo. Sentia-me novamente com doze anos de idade.  Meu pai em seu leito de morte. Era o barulho da chuva? Ou seriam gemidos, rezas e lamentações? Uma cruz de prata manchada de sangue na palma de minha mão. Minha irmãzinha chorando. Os pingos da chuva pareciam intermináveis, como as rezas de minha mãe. O pesadelo se repetia. Fugi para a floresta do mesmo jeito que arremessei a pequena cruz contra a parede. Queria parar de pensar, fugir da responsabilidade, livrar-me dos problemas.

De nada adiantou fugir para a floresta, a sensação de derrota veio na bagagem tornando meu fardo ainda mais pesado.

A chuva parou quando a noite já estava chegando. Combinamos por iniciativa de Índio, fazermos uma fogueira. Com a intenção de encontrar madeira seca, nos espalhamos pelos arredores antes que a escuridão chegasse.

Encontrei Agenor sentado encostado a um paredão de pedras. Alguns pássaros voavam em torno dele, tão próximos que se esticasse o braço poderia tocá-los. Esse estranho velho estava envolto em uma atmosfera de mistério. Cada vez que eu o olhava, uma inquietação me tomava.

  

 

Capítulo 7

De que adianta decorar todo o livro de regras, se você não vive de acordo com elas?    

            Sentados em círculo, os três rapazes a garota e eu, observávamos Índio tentando sem sucesso, atear fogo àqueles gravetos meio úmidos, recolhidos em mutirão.

Seu Agenor, o senhor não teria um pouco de álcool para nos emprestar? perguntou Índio ao velho que se aproximava emergindo da escuridão da noite que caíra rapidamente.

Não tenho, mas posso acender o fogo se a moça emprestar o repelente respondeu Agenor apontando para a namorada de Índio, que aplicava um spray contra mosquitos nas pernas.

O velho acendeu um fósforo e colocou sobre uma das pedras que circundavam os gravetos. Percebendo a expectativa e a curiosidade de todos, Agenor movimentava-se com gestos lentos e calculados. Direcionou a lata de repelente contra o palito de fósforo aceso e apertou o gatilho.

O lança-chamas improvisado rasgou a escuridão da noite sem estrelas, com uma labareda intermitente, iluminando o espanto e a alegria nos rostos daquela pequena platéia. Com um gesto simples, mas engenhoso, o velho deixou de ser um intruso, conquistando um lugar em volta da recém acesa fogueira.

A conversa manteve-se animada por horas. Calado eu observava, sem conseguir prestar atenção, disperso em pensamentos sombrios do futuro de incertezas financeiras que me aguardava.

Não é verdade, Marcelo, que você não acredita em Deus? perguntou Índio à “queima-roupa”.

Demorei a entender, eu não sabia sobre o que falavam. O silêncio e a expectativa do grupo a me encarar como se eu fosse um herege, forçaram-me a responder.

Deus foi inventado para amenizar o terror que o homem tem da morte respondi contrariado.

 Eu não gostava de discutir esse assunto, e o Índio sabia disso, mas fazia questão de me provocar sempre que tinha uma oportunidade.

Quer dizer então que você não freqüenta nenhuma igreja? perguntou Índio com um sorriso irônico de quem já sabia o que eu iria responder.

As religiões são apenas muletas que servem de apoio aos desesperançados.

A garota escandalizada e boquiaberta parecia não acreditar no que acabara de ouvir. O Índio sorria satisfeito com o resultado de suas provocações. O velho, sempre tranqüilo, encostou-se para trás procurando visualizar a cena como um todo.

Os outros três rapazes, chocados e indignados, começaram a falar ao mesmo tempo, ofendidos com o meu comentário. Um deles se salientou, desandando a citar a Bíblia com número de versículo e tudo, deixando transparecer além da revolta, todo o seu fanatismo religioso.

Assim que a ostensiva pregação diminuiu, argumentei falando com vigorosa rispidez:

De que adianta ao crítico de futebol decorar todas as regras, avaliar a melhor opção de ataque, se meter de forma pretensiosa a organizar o time, atormentar arrogantemente a vida dos jogadores com palpites e estatísticas mirabolantes, se ele mesmo é um tremendo “perna-de-pau”, não joga nada?

Essa aparente mudança de assunto fez o silêncio imperar novamente. Era possível até ouvir a madeira estalando enquanto ardia no fogo. Fiquei alguns instantes olhando as fisionomias distorcidas pela iluminação da fogueira.

Vamos esclarecer disse eu. De que adianta você decorar todo o livro de regras e citar a Bíblia de memória, com o número e o parágrafo da lei, se você não vive de acordo com elas? Sempre discutindo com o seu semelhante, só tratando como “irmão” àquele que compactua com seu credo. Reza em um momento e no seguinte está olhando e desejando a mulher do vizinho.

Desta vez falei mais compassado, frisando bem cada palavra, e disse a última frase encarando o jovem fanático, que flagrei esta manhã olhando furtivamente a namorada do Índio tomando banho de sol.

Agora era o velho que sorria e Índio estava sério. Esperavam que os três jovens revidassem para continuar a discussão. Mas o orador da turma estava mudo. O que eu acabara de falar embaralhara seus pensamentos.

A chuva recomeçou apagando a fogueira, esfriando os ânimos e colocando um ponto final naquela discussão constrangedora.

 

 

Capítulo 8

Cruzei aquela linha riscada no chão, e agarrei a mão daquela intrigante oportunidade que a vida me oferecia.

            Acordei na manhã seguinte com o barulho dos meus vizinhos arrumando suas coisas, levantando acampamento.

Por que ir embora tão cedo? perguntei ao Índio. O trem só passa às cinco da tarde.

Choveu a noite toda, o rio deve estar cheio, vai dar trabalho atravessar respondeu Índio sem parar de desmontar a barraca.

Resolvi ir até a plataforma perguntar a Agenor à que horas ele pretendia partir.

Vou descer à tarde respondeu ele, tomando café tranqüilamente sentado em frente a sua barraca.

Expliquei ao velho a preocupação do Índio.

Fique calmo. Sente-se e tome um café. Eu também retorno hoje para Curitiba e você vai comigo.

Mesmo incomodado com o autoritarismo do velho, resolvi aceitar o café.

Índio, ao se despedir, insistiu para que fôssemos juntos, argumentou que tinha uma corda que facilitaria a travessia do rio.

Não se preocupe falou Agenor. Não vai chover mais, e até à tarde o nível do rio deverá baixar um pouco, ficaremos bem, façam boa viagem.

 

            Conversamos por horas, sentados ali naquela plataforma, até que Agenor tocou novamente naquele polêmico assunto.

Você não é ateu!

Eu é que sei das coisas em que acredito falei me defendendo.

É necessário muito mais convicção para defender este ponto de vista radical.

Ontem, quando calei os amigos do Índio naquela discussão, você também não contra argumentou falei tentando ser mais incisivo.

O que você mostrou ontem foi a sua amargura. Você não é ateu.

Agora já era demais, levantei contrariado.

Detesto discutir esse assunto, ainda mais quando tentam me impor opiniões.

O velho levantou calmamente, esticou braços e pernas, os ossos estalaram como se estivessem se encaixando.

Não me importo com a sua crença.  Mas posso resolver a sua revolta.

Não sou revoltado, só estou numa fase ruim com problemas financeiros.

Posso lhe dar todas as informações necessárias para você ganhar dinheiro.

Olhei desconfiado para Agenor. O que estaria ele tentando me propor?

Você sabe tocar algum instrumento musical? perguntou ele.

Não. Sempre quis aprender a tocar violão, mas nunca tive tempo de me dedicar respondi estranhando a mudança de assunto.

E você fala alguma outra língua além do português?

Não.

Agora além de curioso, eu ficava também preocupado com o rumo da conversa. Se fosse algum emprego que ele tentava me arrumar, pensei, eu acabara de perder por falta de qualificação. Quase não domino o português, como iria falar um idioma estrangeiro?

Ganhar dinheiro é tão fácil quanto aprender a tocar violão ou falar fluentemente outra língua.

Fiquei calado sem entender direito o que ele acabara de dizer.

É necessário, em primeiro lugar, que você esteja realmente disposto a se dedicar continuou a falar Agenor. Depois é só você entender como funcionam as leis que regem o assunto, que técnicas foram desenvolvidas e mais utilizadas para atingir os mesmos objetivos que você almeja. E, por fim, é só persistir com determinação, praticando por tempo suficiente para: Dominando as palavras e seus segredos, se tornar um poliglota. Ou, conhecendo as partituras e seus acordes, virar músico. Ou ainda, aprender a controlar seus pensamentos e sentimentos que focalizados e direcionados, vão lhe trazer sucesso e riquezas.

Eu olhava para Agenor tentando perceber se existia alguma proposta real no que ele me falava. Um silêncio incômodo se instalou. Ele aguardando alguma pergunta ou comentário meu, e eu esperando alguma coisa mais concreta para poder me pronunciar. Agenor quebrou o impasse. Falando devagar e com ênfase exagerada perguntou:

Marcelo, você quer que eu lhe ensine a ganhar dinheiro?

Apesar do tom sério do velho, nada respondi achando tratar-se de alguma brincadeira.

Vou ser mais claro. Estou disposto a lhe ensinar algumas técnicas que irão deixá-lo preparado para realizar seus sonhos enquanto falava ele procurava alguma coisa no chão. Com seus métodos você chegou até aqui. Você é livre para decidir. Se continuar adotando as atitudes que sempre tomou, continuará obtendo os mesmos resultados. É, no mínimo, burrice esperar algo diferente.

Encontrando o que procurava, ele se abaixa e risca bem na minha frente, com uma pedra argilosa, uma linha reta de uns dois metros.

Se você quiser, eu posso lhe ensinar métodos diferentes e novos procedimentos.

Quero respondi desconfiado.

Do lado de cá, com disposição e a atitude correta, sua vida poderá mudar. Você só precisa aprender a confiar e dar o primeiro passo disse o velho.

Agenor deu dois passos para trás, jogou fora a pedra, esfregou uma mão na outra limpando o pó do giz improvisado e esticou a mão direita oferecendo-a em cumprimento.

Olhei para a linha sob meus pés e para a mão daquele estranho. Ali estava a proposta concreta que eu esperava. Mas era tão estranha e misteriosa que titubeei por um instante. Senti um frio no estômago. Mas o desespero da minha situação, e o sorriso tranqüilo daquele velho senhor me fizeram dar um passo à frente, cruzando aquela linha riscada no chão, e agarrar a mão daquela intrigante oportunidade que a vida me oferecia.

Parabéns me cumprimentou o velho, e olhando para o relógio completou: A partir deste domingo, duas e meia da tarde, sua vida começa a mudar.

O quê? Duas e meia? Nós vamos perder o trem gritei alarmado e saí correndo para desmontar a barraca.

 

 

 

Capítulo 9

Se continuar adotando as atitudes que sempre tomou, continuará obtendo os mesmos resultados.

            Chegamos ao rio principal depois de uma caminhada rápida e desgastante.

Que horas são? perguntei a Agenor.

Quatro e meia respondeu ele, que havia tirado a mochila e estava dentro do rio, com água pelos joelhos, lavando tranquilamente o rosto com as mãos em concha.

Era espantoso que alguém com aquela idade tivesse condicionamento físico para resistir a uma caminhada tão forçada.

Se não perdermos tempo com a travessia, conseguiremos chegar à estação a tempo de pegar o trem disse eu, tentando apressá-lo.

Chega de correria. Tire a mochila e relaxe.

Está louco! Se perdermos este trem, o outro é só amanhã à tarde.

Ele saiu do rio parando bem à minha frente me encarando. A água a escorrer pelo seu rosto com expressão séria e olhar firme. Fiquei paralisado, não conseguia raciocinar direito, meus pensamentos ficaram confusos.

Você fez a sua escolha disse o velho, deu o primeiro passo. Agora é preciso que mude a sua atitude e aprenda a confiar.

Eu não tenho comida para ficar mais um dia.

Lá vem você com medo de passar fome. O compromisso que você assumiu lá em cima não foi comigo, foi com você mesmo. Aprenda a confiar na sua intuição.

Que intuição? Eu nem acredito nisso. Sempre sigo o meu raciocínio, e ele me diz que se não conseguir pegar aquele trem hoje, eu terei de acampar aqui novamente e passar fome até amanhã.        

Você poderia estar comodamente sentado na estação com seus amigos, comendo um saboroso sanduíche e tomando um refrigerante bem gelado falou Agenor, dando uma pausa para torturar-me com a idéia. Mas a sua intuição o fez deixar que eles partissem, e optar por ficar com um velho que mal conhece. Foi por isso que lhe fiz aquela proposta lá em cima na cachoeira. Mas você é livre para escolher.

Dizendo isso, o velho se afastou caminhando pela margem do rio até uma pedra maior, onde sentou calmamente.

Fiquei ali parado por instantes. Depois caminhei devagar por dentro da água até o ponto em que havia caído no dia anterior. Parei novamente sem saber o que fazer. O nível do rio estava mais alto e se tentasse atravessar sozinho, certamente a correnteza me derrubaria. Olhei para Agenor que estava tranquilamente sentado em uma pedra assistindo meu conflito.

Vou precisar de ajuda falei, tentando superar o meu constrangimento.

Agenor pareceu ponderar a situação durante alguns perturbadores segundos silenciosos.

Finalmente, falando devagar, o velho começou a me orientar.

Primeiro respire fundo, relaxe e olhe para o movimento da água. Coloque sua mão na correnteza e sinta sua força. Desça devagar para a parte mais funda, segure-se nessa pedra maior, ao seu lado.

Sem ter nenhuma outra opção, segui sem pensar as orientações detalhadas de Agenor. A correnteza estava muito mais forte do que no dia em que caí, mas por alguma estranha razão eu estava tranquilo e confiante.

Abaixe-se um pouco, sinta a água bater em seu corpo falou o velho se levantando em sua pedra. Imagine o rio como um ser vivo e respeite a sua força.

Meu corpo estremecia com o impacto do turbilhão da água apressada. O estrondoso barulho passava a nítida impressão que o rio estava realmente vivo.

Calma, não se afobe aconselhava-me Agenor, agora aos gritos. Use a força do rio para atravessar. Procure manter-se em pé. Solte-se dessa pedra e sem se debater deixe a água te levar para o outro lado.

Não me pareceu muito lógico entrar naquele estrepitoso turbilhão, mas sem pensar muito, soltei da pedra.

Fui arrastado pela vibrante violência das águas, mas surpreendentemente calmo consegui boiar sentindo os meus pés tocarem nas pedras do fundo do rio.

O velho tinha razão: eu, no dia anterior “briguei” com o rio. E quanto mais força eu fazia para firmar meus pés no fundo, mais fácil ficava para a correnteza me derrubar.

Agora, seguindo os conselhos de Agenor, eu me entreguei à força do rio, que me conduziu. Era como se eu estivesse dançando com as águas. Quando menos esperava fiquei de frente com uma grande pedra, foi só me agarrar a ela, subir e pronto, estava do outro lado.

Gritei eufórico, sem conter minha alegria, por tão facilmente vencer o rio que me derrubara no dia anterior. Em pé sobre essa pedra, com a água escorrendo da minha roupa encharcada, fiquei por um longo instante olhando para aquele velho sobre a outra pedra, a uns quinze metros.

A sensação de alegria pelo sucesso da travessia logo se dissipou.

Durante minha vida toda, tive sempre que brigar sozinho. Aprendi a confiar somente na minha capacidade de raciocínio e discernimento, talvez por isso tenha crescido assim meio amargo e rabugento. Agora que a vida colocou um completo estranho a me oferecer ajuda, eu lhe dei as costas.

Fiquei irritado comigo mesmo. Resmunguei, chutei várias vezes a pedra em que subi.

Aos poucos me acalmei. Respirei fundo, olhei para o outro lado e vi um trecho raso do rio. Era só terminar de atravessá-lo, subir alguns minutos pela estrada e estaria na estação a tempo de pegar o trem, que me levaria de volta à minha difícil, porém conhecida realidade.

Olhei novamente para o velho, parado de pé sobre a pedra do outro lado do rio. Lembrei do que ele falou na cachoeira: “Se continuar adotando as atitudes que sempre tomou, continuará obtendo os mesmos resultados”.

Agindo por impulso, entrei novamente na correnteza e fiz o caminho contrário. Dançando mais uma vez com a água, voltei para a outra margem do rio.

Aproximando-me de Agenor, subo na pedra tirando a mochila.

Desculpe-me digo simplesmente.

Após me olhar por alguns instantes, ele me abraça forte.

Um sentimento que eu não conhecia me invadiu o peito. Como se eu vivera até ali fingindo não precisar de ninguém. A sensação de desamparo daqueles anos todos que passei enfrentando sozinho os problemas, me caiu sobre os ombros.

A angústia apertou um nó em minha garganta, fazendo brotar lágrimas destiladas daquela sensação de pequenez e abandono. Fugindo deste doloroso sentimento apertei mais aquele abraço, tentando prolongar o aconchego tranqüilo que Agenor me propiciou.

Inebriado desfrutei de uma impressão de paz, segurança e serenidade, que minha família e amigos por mais que se esforçassem, nunca conseguiram me passar.

Ficamos sentados naquela pedra por quase uma hora. Ouvindo ao longe o trem chegar e partir, pensei: talvez, pela primeira vez desde a minha infância, conseguia ficar absolutamente calmo e sereno, mesmo sem ter a menor idéia do que poderia acontecer comigo nas próximas horas.

 

  

Capítulo 10

Então foi essa a mágica que você usou para chegar até a cachoeira na minha frente?

            Atravessamos finalmente o rio, com a facilidade de quem conhece as suas regras. Eu já havia caminhado alguns metros estrada acima, quando percebi que Agenor não me acompanhava.

O que você vai fazer lá em cima se não tem mais trem hoje? perguntou o velho a rir.

Meu raciocínio estava lento, entorpecido pela força emotiva dos últimos acontecimentos. A pergunta de Agenor detonou uma seqüência de pensamentos e perguntas, trazendo rapidamente à tona minha insegura realidade. Como eu sairia daquele lugar? Se não conseguisse voltar hoje, onde acamparia? Como arranjaria comida para mais um dia?

Venha comigo convidou-me Agenor descendo a pequena estrada.

Mesmo que ele não me convidasse eu o teria seguido, não tinha outra escolha. Após alguns minutos de caminhada, avisto destoante da paisagem, um belo e luxuoso carro estacionado na sombra de uma enorme árvore. Ao aproximarmos, ouço o barulho característico do alarme sendo desligado. Percebendo na mão de Agenor o molho de chaves com o controle remoto, descubro o ardil, me sentindo traído.

Então foi essa a mágica que você usou para chegar até a cachoeira na minha frente? perguntei aborrecido.

Quem não acreditava em Deus, agora está crendo até em magia? perguntou Agenor debochando.

Embaraçado pelo hábil jogo de palavras, fiquei sem resposta.

Tudo que as pessoas não conseguem explicar, chamam de mágica, mas sempre existe uma regra, um truque por trás de todas as coisas aparentemente inexplicáveis. A verdadeira magia consiste em descobrir quais são esses truques e leis que movem o mundo falou Agenor guardando nossas mochilas em seu carro.

Mesmo sabendo que em uma hora estaria são, salvo e sem fome em Curitiba, entrei no carro decepcionado. O que parecia misterioso e encantado era na realidade apenas um truque.

Como explica os pássaros voando tão próximos a você lá na cachoeira? perguntei, lembrando o estranho episódio que não consegui entender.

Se você não estivesse tão concentrado olhando o seu próprio umbigo, teria percebido que naquele paredão existem vários ninhos. Qualquer um que consiga ficar sentado lá sem assustar os pássaros, poderá ter a mesma experiência.

Seu jeito de falar calmo, porém indelicado, calou-me durante boa parte da viagem. A pequena estrada nos levou até uma rodovia, passamos por uma ponte metálica, subindo a Serra do Mar pela encantadora Estrada da Graciosa.

 


 

Capítulo 11

Pare! Chega de fugir.

Não tem a poesia do trem, mas é muito mais rápido quebrou o silêncio Agenor, referindo-se ao carro.

Por que você não disse antes que era assim que voltaríamos para Curitiba?

Você não perguntou respondeu o velho rindo. E o mistério era necessário para lhe ensinar a usar e a confiar na sua intuição.

Falando nisso, quando é que você vai começar a me ensinar como ganhar dinheiro? perguntei distraído.

Agenor freou bruscamente o carro, o barulho desesperado dos pneus ecoou na estrada deserta. Não estivesse eu com o cinto de segurança, teria batido a cabeça no para-brisa.

A expressão do velho me assustou. Achei que me mandaria descer do carro e ir embora a pé.

O que eu fiz de errado? perguntei tentando ganhar tempo.

Agenor nada respondeu. Olhava-me como se pudesse enxergar através de meu corpo. Com uma expressão sisuda mordia seu lábio inferior, remoendo seus pensamentos.

Quando eu já nem lembrava mais o que havia perguntado, ele responde:

Tudo! Você fez tudo errado. Veio para a cachoeira fugindo dos problemas, correu o tempo todo tentando evitar a derrota, não apreciou em nenhum momento a viagem remoendo sua desgraça, se desesperou tentando escapar da fome...

Ele falava devagar com voz suave, mas me senti acuado com a força da verdade em suas palavras.

Você é muito arisco. Sempre com os seus monstros a lhe perseguir. Você está em tão debandada correria que provavelmente não ouviu sequer uma palavra do que eu disse concluiu Agenor.

Chocado com o poder de síntese do velho, fiquei ali parado sem conseguir esboçar nenhuma reação, diante do esquelético resumo da minha rotineira e difícil existência.

Eu nunca havia imaginado desta forma, mas a descrição se encaixava perfeitamente: O grande monstro da fome a me perseguir. E eu com a responsabilidade de não deixar faltar nada para minha família, cada vez mais desesperado, correndo atrás de soluções mirabolantes, conseguindo crédito de um lado para pagar contas de outro, num frenesi alucinado, sem tempo de pensar, de ver a vida passar e de descansar. Com a pressão agravada e aumentada por ser despedido do emprego, fujo para a Serra, acuado e arisco, sentindo o inevitável bote certeiro do, por mim inventado, monstro predador.

Pare! Chega de fugir grita Agenor me assustando.

O susto estancou aquele jorro de pensamentos desenfreados. Apesar da tristeza que me inundou, minha mente estava serena.

Ou você vive para buscar a felicidade, ou passa a vida fugindo da dor. De uma vez por todas, faça a sua escolha. Não existe nenhuma outra opção falou Agenor.

O barulho insistente de uma buzina lembrava que estávamos parados no meio da estrada. Agenor retomou a viagem em silêncio.

A exposição quase visceral de meus sentimentos mais profundos me forçou a ponderar sobre minha habitual atitude frente aos problemas.

Alguma coisa deveria estar errada. Sempre dedicado, tornara-me um bom fotógrafo. Mas, apesar de profissional respeitado, por mais que eu trabalhasse duro, o esmero e a aplicação não eram reconhecidos financeiramente. A competência propagada em fartos elogios não saciava a fome de meus filhos.

Enquanto Agenor dirigia atento, preocupado com aquelas curvas forradas com paralelepípedos, eu, absorto em pensamentos, admirava a paisagem sob a luz difusa do final de tarde, filtrada por uma densa neblina.

Uma hora mais tarde, depois de descer do carro de Agenor à beira da rodovia, eu caminhava novamente pelas ruas do bairro onde morava. Tudo parecia absolutamente igual, mas “eu” já não era mais o mesmo. A amargura de ontem tornava-se passado. Crescia em meu peito uma vontade esperançosa de mudar o meu amanhã.

 


 

Capítulo 12

É disso que você precisa.

          Apesar de Agenor ter prometido me ajudar, a única informação que ele me deixou depois do acampamento foi um número de telefone. E só depois de dezenas de infrutíferas tentativas, é que eu consegui finalmente marcar um novo encontro com aquele velho misterioso.

          Sentado em um dos bancos, percebo enquanto aguardo, que a Praça Santos Andrade fica ainda mais verde e bonita com o esplendor ensolarado daquela manhã.

Elegante e pontual, Agenor aproxima-se num alinhado casaco, combinando com o frio que anunciava um rigoroso inverno. Cumprimentou-me com um firme aperto de mão, olhando fixo em meus olhos, inspirando confiança com um sorriso amigável.

A sua pouca estatura era compensada por uma forte presença, com gestos firmes e decididos, sem ser espalhafatoso e não perdendo a cordial e costumeira serenidade.

A ansiedade gerada na expectativa e ampliada na demora misturou meus pensamentos e embaralhou as perguntas formuladas mentalmente naqueles três longos meses que se passaram desde o primeiro encontro na cachoeira.

Estabanado e carente de sutileza, eu pedi emprestado uma soma em dinheiro para montar um estúdio fotográfico, planejado cuidadosa e detalhadamente enquanto sobrevivia do minguado salário desemprego.

Sem se importar com os detalhes técnicos da explanação que eu fazia, do empreendedor e rentável negócio de vídeo e fotos, Agenor risca com um giz que pegou em seu bolso, um estranho desenho no chão da praça.

 

 

É disso que você precisa fala o velho admirando seu esquisito desenho.

Por mais que olhasse, eu não conseguia vislumbrar qualquer lógica naquele amontoado de rabiscos. Deveria ser importante, afinal de contas Agenor premeditou, trazendo em seu bolso um giz exclusivamente para aquele fim.

Vamos caminhar um pouco falou enfim o velho, percebendo meu embaraço em não decifrar o seu confuso e enigmático esboço.

 

            Caminhava a seu lado cabisbaixo e irritado com minha inabilidade: Além de ter feito aquele desastroso pedido de empréstimo, não consegui entender o que ele tentou mostrar com seu misterioso e indecifrável desenho.

Observava aborrecido o mundo em que vivia. Presenciei um garoto invadir uma loja, roubar algumas mercadorias e sair correndo.

Desviamos da mendiga, que todo dia pedia esmolas naquela galeria, entoando sempre a mesma ladainha.

Atravessamos uma manifestação, com grevistas munidos de faixas e cartazes traduzindo sua revolta, gritando indignadas frases repetidas em alto-falantes barulhentos. Lembrei de quantas vezes participei de movimentos como este, desgastei-me sem obter a justiça que exigia.

Justiça? Que estranha palavra, neste mundo de valores distorcidos.

Tem alguém aí? perguntou ironicamente Agenor, dando leves cascudos em minha cabeça, como se estivesse batendo em uma porta. Sorri encabulado, despertando de meu sonambulismo.

A visão que você tem do mundo é filtrada pelo que experimentou até aqui começa a falar o velho sem parar de andar. A leitura que faz das coisas que acontecem à sua volta, é fortemente baseada no que você sente. Se o sentimento predominante em seu coração for amargura, o mundo em que vive será amargo. Sua atenção estará focalizada, procurando coisas que confirmem a ideia que você tem da realidade.

Tive vontade de pedir ao velho que repetisse o que acabara de falar. Soava simples, mas parecia tão profundo e sensato que precisava de mais tempo para refletir.

Olhe para cima sem parar de andar ordenou Agenor, segurando meu braço.

Acostumado a andar sempre olhando para frente, estranhei esse novo ponto de vista. Admirado, constatei que não conhecia de fato a beleza da Rua Quinze a partir dos três metros de altura. As belíssimas fachadas históricas com janelas em arcos de madeiras entalhadas e sacadas com ferros artisticamente retorcidos.

Só agora percebo que a bela melodia ouvida ao fundo, enquanto andávamos, era extraída magistralmente de um violino, por um músico solitário na sacada do segundo andar. Os prédios emolduravam um céu profundamente azul, complementando o quadro, como uma pintura sobre tela cuidadosamente elaborada.

Caminhando assim, amparado e guiado por Agenor, distraído a contemplar aquele mundo que não conhecia, meus pensamentos diminuíram de intensidade. Eu estava agradavelmente tranquilo quando o velho largou meu braço e comecei a andar normalmente.

Na volta, entrando na mesma galeria, senti uma estranha tontura. Apesar de continuar caminhando normalmente, tive a sensação de estar pisando em nuvens, e o mundo todo passou a andar mais devagar.

 Compreendi que os pensamentos negativos que me atormentavam há pouco seriam passageiros. Tudo que estava acontecendo era só um momento na eternidade. Todos os meus problemas tornaram-se ridículos de tão pequenos. Como se de alguma forma soubesse e entendesse que havia uma razão de ser para cada coisa que acontecia, e que eu deveria agradecer por poder observar tentando aprender.

Percebi, por trás da face suja e dos cabelos despenteados da mendiga, um sorriso meigo. Com um brilho nos olhos ela abençoava os caridosos que a ajudavam, que por sua vez aliviavam suas consciências com algumas moedas. Desta vez não fiquei irritado, também não tive pena dela, simplesmente a aceitei como alguém que tinha o direito de estar ali, e tentar também a sua maneira aprender alguma coisa.

Escondido debaixo da escada, o menino delinquente repartia a comida, fruto do roubo, com duas meninas, que certamente viam nele a imagem de um herói protetor. Que futuro o aguardaria? Que tipo de lição conseguiria ele aprender de tão duras aulas?

Notei um largo sorriso no rosto de Agenor que caminhava a meu lado. Quando entrei na galeria passei momentaneamente a ver o mundo de forma muito diferente. Senti meu corpo expandir, como se eu fosse pura energia, e fizesse parte de tudo que ali estava. Ao me aproximar da saída, vendo os raios de sol lá fora, voltei a sentir meus pés no chão, retornando para a realidade.

Realidade?

Aquela sensação de ser parte de tudo, entender tudo, aceitar tudo, passou. Mas jamais vai se apagar da minha mente. Tento lembrar daquela situação como sendo a realidade. A força do sentimento de comunhão com o universo fez o resto da minha vida parecer um sonho num sono profundo.

Retornando ao local onde Agenor rabiscou o chão, perplexo percebi instantaneamente a palavra “sonho” a saltar do meio do desenho. O que parecia impossível decifrar a princípio, tornara-se agora claro e transparente, não importando o lado que eu olhasse.

 

 

O que você quer? perguntou Agenor.

Não entendi direito o que ele queria. Fiquei com medo de falar novamente do empréstimo. Preferi ficar calado.

Não basta querer viajar, você tem que escolher para onde quer ir. Definir uma meta, traçar um caminho, ter um objetivo na vida falou firme Agenor.

Eu quero viver mais tranquilo respondi finalmente, só agora entendendo a pergunta.

O cérebro não aceita uma ordem genérica. Seja mais específico. Escolha algo tangível, uma casa ou apartamento, um carro, uma viagem, qualquer coisa que sirva como prêmio ou incentivo para você continuar lutando.

Calado e pensativo tentei visualizar algo, mas eram tantas as coisas que sempre quis que eu não soube o que falar.

Feche os olhos e imagine um homem de quem pudesse se orgulhar continuou falando Agenor. Alguém com todas as virtudes que conseguir lembrar: Justo e respeitável, bom pai e marido perfeito. Agora abra os olhos e olhe para você mesmo. Perceba honestamente seus defeitos e carências. Trace um caminho do que você é hoje, até aquele homem digno em que pode se transformar. Tome uma atitude. Decida de uma vez por todas, tornar-se alguém de quem você possa sentir orgulho. Este sim é um desafio digno de uma vida.

Talvez a tranquilidade que sempre busquei, estivesse bem mais próxima do que imaginava. Precisava aprender a olhar o mundo de forma diferente. Ter a coragem de enfrentar e tentar transformar as minhas limitações. Assumir a responsabilidade das coisas que acontecem comigo. Mudar a atitude sempre negativa ao enfrentar os desafios que a vida me oferece. E como resultado de meu próprio esforço, conseguirei aos poucos transformar a minha realidade.

A experiência que eu vivenciei naquela galeria, conseguiu mostrar a precariedade da minha consciência travada, e quanto eu ainda precisava aprender. Mas quem seria aquele velho? E por que ele resolveu me ajudar?

 


 

Capítulo 13

Como é que eu vou começar um empreendimento que me deixará rico, apenas com uma máquina fotográfica? 

          A partir daquela manhã na praça, ficou mais fácil encontrar Agenor. A experiência que tive na galeria despertou o interesse dele, que deixou de ser tão ocupado, encontrando algumas horas livres quase toda semana para conversarmos.

Refiz meus planos do estúdio fotográfico. Levantei custos, avaliei o mercado, contabilizei margem de lucro, relacionei os equipamentos necessários para começar, coloquei tudo datilografado em um vistoso e pormenorizado projeto.

Com a munição apropriada resolvi voltar a atacar.

Preferia tê-lo encontrado no escritório ou na casa dele, ou na pior das hipóteses numa lanchonete, onde tivesse pelo menos uma mesa, para lhe mostrar meu elaborado projeto. Mas ele insistiu para que nossa conversa fosse no Parque Barigüi, que estava lotado. Parecia que todos os moradores da região resolveram vir ao parque ao mesmo tempo. Apesar do frio, aquele domingo amanhecera belo, com um céu azul e o sol extremamente brilhante, deixando ainda mais verde a grama farta.

Enquanto as crianças brincavam barulhentas nos balanços e gangorras, os jovens namoravam exibindo seus cachorros. Outros andavam de bicicleta, enquanto alguns preferiam jogar bola. Tinha também uma roda de capoeira com berimbau, atabaque e pandeiro. Corpos elásticos dançando em evoluções rápidas, apesar de suaves.  Piruetas e movimentos sincronizados celebravam a paz numa luta sem agressor, onde são vitoriosos os que não se tocam.

Sentados na grama, tentava mostrar a Agenor os detalhes do meu plano cuidadosamente datilografado. O vento parecia não concordar com meu intento. Tanto tempo de ensaio para acabar encenando aquele patético espetáculo.

O velho nem prestou atenção. Enquanto eu discursava, algumas folhas foram levadas pelo vento; as que sobraram, meio amassadas e misturadas já não importavam mais, pois eu falava sozinho, enquanto Agenor distraído olhava algumas crianças andando de bicicleta.

Parece que a disposição abnegada de Agenor em me ajudar, desaparecia rapidamente sempre que eu lhe pedia dinheiro emprestado. Não conseguia entender sua atitude arredia. Se ele era rico, um pequeno empréstimo não lhe custaria nada e facilitaria muito meu começo.

Você só precisa de uma máquina fotográfica e a disposição para lutar disse finalmente o velho me entregando alguns livros que ensinavam como se obter sucesso financeiro.

Como é que eu vou começar um empreendimento que me deixará rico, apenas com uma máquina fotográfica?

O que importa é a disposição em realizar o seu desejo, e não o que você tem nas mãos.  A idéia inicial é só uma semente. A sua vontade e determinação o farão cavar o solo com as mãos, se for necessário, plantando o seu sonho com entusiasmo e regando-o com persistência. Quando os frutos começarem a brotar e você colher o sucesso em forma de dinheiro, poderá ampliar seus negócios com todos os equipamentos e acessórios que idealizou.

─ Se fosse assim tão simples: ler alguns livros e enriquecer, todo mundo já estaria rico ─ resmunguei enquanto folheava os livros.

─ É possível aprender qualquer coisa através dos livros, mas você precisa realmente querer para atingir os seus objetivos. A força de vontade é o segredo.

Desanimado, concluí finalmente que não arrancaria de Agenor nenhum centavo, a título de empréstimo para começar meu estúdio fotográfico. Estava sozinho como sempre, teria que ser por minha conta.

O senhor pode cuidar da minha bicicleta, tio? perguntou-me um menino que se aproximou, largando sua bicicleta bem à nossa frente. 

Magro e aparentando não ter mais de doze anos, o garoto começou a mexer em outra pequena bicicleta, de uma menina de cinco ou seis anos que o acompanhava.

Após retirar as rodinhas de apoio, usadas por quem ainda não consegue se equilibrar em duas rodas, o menino passou a ensinar a garota, que deveria ser sua irmã, a andar de bicicleta.

Esgotado nosso assunto, Agenor e eu, calados, contemplávamos o esforço do menino ajudando a irmã na tentativa de dominar a força da gravidade, que insistia em puxá-la para os lados.

Agarrado ao banco da bicicleta, correndo numa incômoda posição, o garoto equilibrava a menina fazendo malabarismos. Falava o tempo todo dando instruções. Quando achou o momento oportuno, arriscou e largou acreditando na habilidade da irmã, que consegue andar sozinha alguns metros, até a bicicleta pender para o lado direito, caindo e derrubando a garota a rolar na grama macia, que absorve o impacto da queda deixando ferir apenas o seu orgulho.

Com um fundo musical muito original, propiciado pelos capoeiristas às nossas costas, observávamos o empenho e a dedicação carinhosa do garoto, que gesticulando muito convenceu a assustada irmã, a fazer outra tentativa.

Parece tão difícil aprender a andar de bicicleta, mas uma vez que se consegue, não esquecemos nunca mais comentei.

A regra é simples, é só virar o guidão na direção em que a bicicleta vai cair falou Agenor gesticulando.

Que raciocínio simples e objetivo. Se alguém tivesse me falado isso quando eu estava aprendendo, não teria caído tantas vezes. Sem pensar muito levantei chamando o garoto, para lhe ensinar o “truque” que acabara de descobrir.

O que você pensa que está fazendo?  brigou Agenor puxando-me bruscamente pelo braço. Você vai estragar tudo. O que está acontecendo aqui ficará marcado para sempre na vida dessas crianças. É importante que o garoto consiga ensinar a irmã sozinho, isso aumentará sua autoestima estabelecendo um vínculo ainda mais forte entre os dois.

O garoto, que ouvira meu chamado, ficou por instantes a nos observar. Não obtendo resposta voltou ao seu desafio, correndo desengonçado atrás da pequena bicicleta, segurando a falta de equilíbrio da irmã.

Novamente ele experimenta, e largando o banco deixa a irmã pedalando sozinha, até seu pequeno corpo pender insistente para o lado. Desta vez, mais experiente, a menina salta abandonando a indomada bicicleta que cai barulhenta.

Desolada, a garota senta-se na grama olhando a roda da bicicleta ainda a girar.

O irmão, com os ombros caídos e olhar triste, volta caminhando devagar, até onde Agenor e eu estamos sentados e, apanhando as rodinhas, demonstra que desistiu da luta.

Você está indo muito bem falou Agenor ao garoto. Agora só falta você dizer à sua irmã para virar o guidão para o lado que ela for cair.

O menino olhava atento ao velho, imaginando por instantes, o efeito do que ele acabara de falar. Fixou o olhar em seguida na irmã sentada ao lado de sua bicicleta, finalmente olhou para as rodinhas em suas mãos.

Naqueles breves segundos o garoto teve que tomar uma pequena decisão, que certamente influenciaria sua postura perante os desafios que a vida lhe faria no futuro.

Largando as rodinhas na grama, o menino corre, reanimado com a nova possibilidade de ver a irmã pedalando sozinha.

Agenor, que há poucos instantes me proibira de interferir, me olha encolhendo os ombros e apertando os lábios, tentando se justificar pela intervenção que acabara de fazer.

Após explicar para a irmã com gestos exagerados o que aprendera, o garoto retoma seu lugar agarrado ao banco. Falando muito ele correu atrás da bicicleta por alguns minutos, até largar novamente a menina, que saiu cambaleante tentando aplicar a nova lição.

Quando se descobre a regra, fica muito mais fácil. A menina pedalava com o medo a lhe arregalar os olhos, sem acreditar que havia conseguido enfim vencer a implacável força da gravidade.

Eufórico o menino gritava, ainda orientando sua irmã, contorcendo seu corpo magro como se pudesse, mesmo à distância, ajudar a equilibrar a bicicleta.

Ao perceber que a irmã não cairia mais, exultante e com a voz aguda de quem ainda não passara pela puberdade, o garoto grita, e dando um soco no ar gira num pé só.

A alegria da vitória das crianças era contagiante. Emocionado presenciei a iluminada e tocante cena. A menina largando a subjugada bicicleta e correndo para o irmão, que estava ajoelhado na grama com os braços abertos, prontos para aconchegá-la no abraço dos vencedores.

Com a liberdade conquistada pela menina, mais a emoção de ver a união dos dois sendo reforçada naquele abraço, somada ao sentimento de vitória do garoto, foi como se o mundo girasse mais devagar, enquanto durou aquele afago carinhoso.

Depois de lançar um olhar de cumplicidade e gratidão para Agenor, o garoto apanhou as rodinhas à nossa frente e as jogou no cesto de lixo do parque, como quem se livra de um par de algemas, que tirava a liberdade da irmã. Esta radical e convicta atitude evidenciou com clareza, que daquele menino cresceria um grande homem.

Quanto você acha que vale o que o menino está sentindo agora? perguntou Agenor, enquanto os dois irmãos se afastavam pedalando.

Olhei para o velho sem responder, tentando antecipar onde ele queria chegar. Percebendo meu silêncio ele continuou a falar:

Quando você persiste lutando até conseguir vencer, a recompensa é a sensação de poder, que lhe fará ousar desafios maiores, obtendo mais força, que o motivará a sonhar ainda mais alto... Agenor fazia gestos com a mão, estimulando-me a imaginar a continuidade do seu raciocínio. Este sentimento de autoconfiança acaba sempre desencadeando uma sequência de eventos positivos.

Estava ainda absorvendo o que o velho acabara de dizer, quando ele tornou a perguntar levantando-se:

Você seria capaz de tirar este sentimento daquele garoto?

Nada respondi. Agora compreendia os seus motivos para não me emprestar dinheiro.

A dificuldade da batalha enaltecerá sua vitória, você ficará mais forte e autoconfiante falou Agenor esticando a mão, ajudando-me a levantar. O que estou lhe oferecendo vale muito mais que dinheiro. Pode mudar sua vida, se estiver disposto a enfrentar a luta.

Enquanto caminhávamos devagar e em silêncio pelo parque, fiquei imaginando aonde Agenor poderia ter aprendido a manipular desse jeito as situações à sua volta.

Naqueles poucos minutos em que ficamos sentados ali na grama, ele conseguiu “tocar” no destino daquele menino com uma única frase. E ainda aproveitou para deixar até transparente de tão claro as suas razões para não me emprestar dinheiro.

Eu ainda não sabia “quem” era Agenor, mas podia sentir que era alguém incrivelmente especial.

 


Capítulo 14

Por que Agenor invadira aquele prédio? E se alguém nos pegasse ali?

          Seguindo as orientações de Agenor, e tentando aplicar o conhecimento adquirido nos livros, trabalhei durante semanas contando apenas com o equipamento disponível: Uma pesada máquina fotográfica russa, que apesar de não dispor de recursos automáticos, era eficiente e com uma boa qualidade de fotos.

Plantei cuidadosamente as sementes, distribuindo propaganda fotocopiada. Visitei os cartórios e igrejas da vizinhança, na expectativa de encontrar casamentos e batizados agendados, tentando arranjar possíveis futuros clientes.

Reguei persistente, barganhando, oferecendo vantagens, baixando o preço, até que aos poucos os resultados começaram a florescer. Mas os problemas, contratempos e obstáculos, como ervas daninhas, cresciam mais que os lucros.

Agenor indagara sobre meus progressos, enquanto jantávamos num restaurante vegetariano próximo ao centro da cidade.

Descambei a reclamar da falta de equipamentos adequados e da concorrência desesperada, que achatavam a margem de lucro. O esforço e a correria não eram compensados pelo retorno financeiro. Acusei o rapaz do cartório de receber propinas ao indicar clientes ao meu concorrente. Reclamei do protecionismo do padre, que sempre indicava uma fotógrafa amiga sua, para fazer as fotos dos casamentos e batizados da igreja.

Agenor saboreava tranquilamente a sobremesa, indiferente às lamentações indignadas que me desanimaram a ponto de perder o apetite.

Que mediocridade! murmurou o velho balançando a cabeça desaprovando minha atitude.

Medíocre? Eu? relutei. O desânimo me deixara frágil, e o seu comentário me magoara.

É medíocre quem se acostumou a ver somente crises em lugar de oportunidades replicou Agenor. Você se economiza e não quer se comprometer. Não acredita na sua capacidade de vencer obstáculos. Medíocre é quem ocupa o tempo falando mal dos outros, é quem só vê os erros, as desgraças e as doenças. Você tem medo do sucesso. É também um sinal claro de mediocridade colocar nos outros a culpa pelo seu fracasso.

Não precisa me atacar desse jeito.

É medíocre também quem não aceita crítica arrematou o velho, desferindo o golpe de misericórdia em quem já estava vencido. Ressentido e magoado, calei.

Você pode ficar aí encolhido, ofendido e desalentado. Ou se levantar otimista e decidido a se comprometer realmente com seus planos. Consciente de que o seu sucesso depende só de você, e não da bondade dos outros. Acredite. Esteja disposto a melhorar, aprender e crescer. Tenha entusiasmo pelo que faz.

O discurso inflamado do velho, apesar de coerente, não conseguiu me elevar do marasmo em que mergulhei. Permaneci cabisbaixo e calado. A noite pareceu tornar-se ainda mais fria e escura que antes.

 

            Enquanto andávamos, na saída do restaurante, notei uma brusca mudança no comportamento de Agenor. Preocupado e atento, ele olhava em volta o tempo todo. O carro estava estacionado quase em frente ao prédio, mas o velho pegou um caminho diferente dando a volta na quadra.

Agenor às vezes me assustava. Não sabia quase nada a seu respeito. Não compreendia suas razões para querer me ajudar.

Ao contornarmos uma esquina, o velho agarrando meu braço me forçou a correr com ele até uma construção inacabada, cercada por grandes tábuas. Segurando com as duas mãos uma das tábuas e usando o pé como apoio, ele conseguiu abrir um espaço por onde entramos.

A rápida corrida fez meu coração disparar e a respiração ficar ofegante. Antes que eu pudesse tomar fôlego para perguntar alguma coisa, Agenor com um sinal enérgico me mandara calar.

Estávamos num prédio em construção. O forte cheiro de cimento, misturado ao ar frio e úmido daquela noite, e as ferramentas espalhadas pela obra indicavam que aquele edifício não estava abandonado, deveria ter alguém tomando conta.

A luz do luar, apesar de fraca, permitiu que eu percebesse tratar-se de uma estrutura com dois blocos interligados. Um enorme esqueleto de concreto com cinco andares, com vigas, colunas, lajes e escadas, mas ainda desprovido de paredes.

Agenor, depois de caminhar cuidadosamente embrenhando-se através da semiescuridão, subiu pelas escadas sinalizando para que eu o seguisse.

Fiquei paralisado vendo o velho sumir para o andar superior. Agora percebi que não fora a corrida que disparou meu coração, foi o medo. A respiração tornou-se ainda mais difícil. Por que Agenor invadira aquele prédio? E se alguém nos pegasse ali? Empurrado pela curiosidade o segui.

O medo aguça os sentidos. Os sons dos meus passos ecoavam pelas sombras, despertando vultos assustadores em minha imaginação. Eu podia ouvir cada grão de areia esmagado pelos meus sapatos. O coração batia feito um bumbo dentro da minha cabeça.

Encontrei o velho a me esperar no terceiro andar.

Como você chegou até aí? perguntei a Agenor que estava no outro bloco, construído a uns oito metros do edifício em que eu estava. As duas estruturas eram interligadas por vigas de concreto com um palmo de largura.

Venha, é fácil falou Agenor apontando para a viga.

Agarrado a uma das colunas, olhei atentamente para todos os lados, tentando descobrir como o velho conseguira atravessar. Não pude crer que ele tivesse passado para o outro lado se equilibrando naquela viga. Estávamos a mais de dez metros do chão.

Vamos, se eu consegui você também consegue insistiu Agenor.

Sem largar a coluna, coloquei um pé na viga, mas fiquei tonto só de olhar para baixo. Insisti procurando a melhor forma. Avaliei com cuidado, mas a imagem de uma queda não me saía da cabeça. A vertigem colou firmemente minha mão na coluna. Finalmente desisti, dei um passo atrás e desafiei Agenor:

Eu não o vi atravessar. Você pode ter chegado até aí por outro caminho, e agora está tentando me enganar.

Agenor ficou parado e pensativo por alguns instantes.

Não consegui ver daquela distância com a iluminação precária, mas tive a certeza de que o velho mordia seu lábio inferior, como sempre fazia antes de dar uma bronca.

De repente, Agenor agarrou a coluna a seu lado e com gestos exagerados me imitou, fingindo tentar atravessar sem conseguir, como se a coluna o estivesse segurando. Mesmo nervoso não contive o riso de suas palhaçadas.

Com um sorriso largo, Agenor finalmente enfiou as mãos nos bolsos e atravessou a viga, com o vento a balançar seu casaco. Caminhou com a tranquilidade de quem passeia na calçada.

Meu riso, que evoluíra à gargalhada, graças ao seu desempenho naquela mímica perfeita, desapareceu instantaneamente. Boquiaberto e incrédulo, vi Agenor atravessar aquela viga tão facilmente que fiquei envergonhado.

Sente-se aqui, vamos esperar falou ele, sentando-se no chão, encostado à coluna.

Esperar o quê?

O seu medo passar respondeu ele sorrindo.

 

 

Capítulo 15

Meu pai colocou em minha mão uma pequena cruz de prata.

            Ficamos calados por alguns minutos sentados naquela construção inacabada, sentindo o vento gelado da madrugada. Tentei imaginar o que estaria ele tentando me ensinar. Seus métodos eram sempre muito estranhos.

Marcelo, aproveite o tempo que temos para falar de seu pai falou Agenor.

Ele já havia me perguntado sobre meu pai em outra ocasião, e eu mudara de assunto. Mesmo não achando conveniente mexer naquela ferida, mantida aberta por tristes e persistentes lembranças, resolvi falar:

Meu pai desperdiçou sua vida rezando para um Deus que nunca lhe ajudou.

É por isso que você se diz ateu?

Prefiro acreditar nas coisas que eu possa ver e entender.

A realidade assume, por vezes, proporções tão duras e amargas, que nos agarramos a devaneios e fantasias para torná-la mais coerente e suportável falou o velho.

Não é devaneio crer somente no que pode ser comprovado.

─ A terra sempre foi redonda, mesmo quando não podíamos comprovar.

─ Mas foi a sua “religião” que queimou os primeiros homens que descobriram que a terra era redonda.

─ Quem disse que eu sou religioso?

            Não consegui responder. Na verdade, eu mal sabia “quem” era Agenor. Talvez tenha imaginado que ele era uma pessoa religiosa pela sua disposição em me ajudar.

            Agenor ficou um longo momento olhando para o vazio escuro daquela madrugada fria. Seu semblante transparecia uma profunda angústia que nada combinava com o seu comportamento sempre equilibrado, apesar de misterioso.

Falávamos sobre seu pai falou finalmente Agenor, tentando recomeçar a conversa.

Falar de meu pai sempre me entristece. Eu ainda era um menino quando tudo aconteceu. Já se passaram tantos anos e eu não consigo esquecer.

Não adianta tentar esquecer, é necessário aceitar. Compreender é o único remédio capaz de aliviar a dor da perda que traumatiza. Só com a mente serena será possível desfrutar da saudade prazerosa dos momentos de felicidade, que você viveu junto com seu pai falou Agenor.

Talvez o velho tivesse razão. Eu precisava realmente fechar aquele buraco em meu peito. O silêncio da noite me inspirou a falar:

Sinto falta de meu pai. Era um homem simples. Não tinha posses, nem tampouco cultura. Mas era justo e honesto. Assumia a responsabilidade pelo que acontecia à sua volta. O respeito a Deus antes de qualquer coisa, sempre norteou sua vida.

Mas eis que Deus o desamparou quando ele mais precisava. Com os filhos ainda pequenos, ele caiu enfermo e nunca mais levantou. Uma estranha e implacável doença atacou seus pulmões, prendendo-o a uma cama pelo resto de seus dias. Viu minha mãe gastar o pouco que tinha em busca da cura que nunca existiu. A ajuda dos médicos acabou junto com o dinheiro. Travou sua batalha final em casa, ao lado da família, que ele não podia mais prover o sustento, onde aguardou resignado, a morte certa e infalível vir lhe buscar. 

A angústia da espera teve seu ápice numa noite em que fui acordado por minha irmãzinha aos prantos.

Marcelo. Papai está muito mal e mandou te chamar disse ela soluçando.

Vi mamãe ajoelhada ao lado da cama de meu pai moribundo, segurando a máscara de oxigênio, que junto com os tubos e o cilindro, fora a cruz que carregara nos últimos meses. Ele, num esforço como se a mão lhe pesasse cem quilos, acariciava o rosto dela, secando-lhe as lágrimas.

Juntei-me a eles sentando na cama. Ao percebermos que papai iria tentar falar algo, fizemos silêncio. Minha mãe afastou a máscara que segurava junto ao rosto dele.

Filho, agora é com você. Cuide de sua mãe e irmã.

As palavras vieram separadas pelo visível sofrimento ao respirar. A frase, formada assim aos poucos, lançou uma enorme responsabilidade sobre meus ombros. Peso demais para um menino de doze anos.

Deus o ajudará disse papai, abrindo minha mão e colocando nela uma pequena cruz de prata que sempre o acompanhou.

Não pai... foi só o que consegui dizer. Um choro convulsivo atropelou o resto da frase.

Não chore filho, isso só faz aumentar meu padecimento falou meu sofrido pai com muito esforço.

Apertei com todas as minhas forças, aquela cruz na palma da mão, tentando segurar o choro.

Pelo amor de Deus, chega diz meu pai empurrando a máscara de oxigênio, que mamãe tentava recolocar em seu rosto.

Vendo meu pai decidido a desistir da vida, com seus olhos, apesar de tristes e cansados, revelando toda sua lucidez e firmeza, não tive coragem de lhe pedir que lutasse mais um pouco.

Aquela realidade escancarada em tão extremada atitude comprimiu meu coração.

Mamãe, que já estava ajoelhada segurando a mão dele próxima a seus lábios, começou a rezar murmurando.

Por mais que apertasse a pequena cruz na palma de minha mão, um gemido intermitente conseguia escapar por entre meus dentes travados. Juntava-se ao choro de minha irmã, à reza de mamãe e à sofrida respiração ofegante de meu pai, formando uma triste sinfonia.

Não sei quanto tempo durou aquele tormento. Custaram-me marcas e cicatrizes equivalentes a séculos torturantes. Depois de se debater contorcendo todo seu corpo já magro, numa agonia desesperadora, meu pai deu seu último suspiro.

Enquanto um frio arrepiante percorreu minha espinha, marcando na alma a gravidade do momento, pude ver a vida abandonando seu corpo, esvaindo-se junto com o pouco ar, que num último e desesperado esforço ele conseguira inalar.

Mamãe, debruçada sobre seu peito, chorava inconsolável. Minha pequena irmã gritava desesperada, colocando a máscara de oxigênio no rosto inerte de papai.

Acorda pai. Não vai dormir agora. Não nos deixe. Vamos, você consegue. Você vai melhorar dizia ela em meio a um choro que dilacerava o coração de quem assistia.

O gemido que me escapava involuntário, aumentou até virar um berro alucinante. Minha mão tremia com a força que fazia, descontando na cruz toda minha amargura.

Num gesto de desespero arremessei, em meio ao meu grito, a pequena cruz contra a parede. Numa violenta explosão de revolta, reneguei o Deus de meu pai, que o arrancara da família sem anestesia, dessa forma tão sofrida.

Não chore, mana. Vou cuidar de você falei abraçando minha irmãzinha, enquanto mamãe juntava do chão a cruz de prata, torta e manchada com meu sangue, oriundo da ferida aberta na palma de minha mão.

 

            Enquanto narrava minhas recordações a Agenor, as palavras se transformavam em névoa branca, provocada pelo vento frio da madrugada, que circulava no meio das colunas daquela construção vazia e inacabada.

A angústia me envolvera. Não consegui continuar falando. Minha voz embargou. O choro daquela noite ainda doía em meu peito. A triste lembrança da tragédia criou um redemoinho à minha volta. Fiquei tonto.

Vamos. Está muito frio aqui. Precisamos nos esquentar falou Agenor, levantando-se num salto e puxando-me pela mão.

O velho começou a fazer uma estranha ginástica, pulando e batendo as mãos nas pernas e depois acima da cabeça, com movimentos coordenados.

Mesmo com o velho insistindo para que eu o acompanhasse, fiquei imobilizado.

Agenor estava patético. Aquela ginástica para afugentar o frio era totalmente desproposital, fora de hora e sem sentido.

Em quinze anos jamais contei essa história a ninguém. Hoje finalmente resolvi abrir meu coração, e é assim que você reage? É só isso que tem para me dizer? perguntei ao velho desabafando minha mágoa e decepção.

O semblante de Agenor se transformou rapidamente. Com movimentos lentos ele se aproximou tanto que o seu nariz quase tocou o meu.

Essa ferida ainda está aberta disse ele batendo em meu peito. A sua realidade se tornou insuportável. Por isso você se apega a fantasias e prefere colocar a culpa em Deus.

Claro! De que adiantou meu pai ser tão devoto a Deus durante toda sua vida? Que morte mais estúpida ele ganhou. O que mais me entristece é a certeza de que ele precipitou o próprio fim, pois sabia que não tínhamos mais dinheiro para lhe comprar os cilindros de oxigênio que o mantinham atado à vida por aquelas mangueiras. Que Deus é esse? perguntei irritado. Meu tom de voz se alterou sem que eu percebesse. A revolta esboçada naquele discurso devolveu minhas forças.

Isso! Assim mesmo! Perfeito comemorou o velho me dando tapinhas nos braços.

Só então percebi a manobra de Agenor. Quando se levantou para fazer aquela estranha e ridícula ginástica, o que ele queria na verdade era me arrancar daquele redemoinho de recordações e tristezas, que me tontearam consumindo minhas energias.

Muito mais tarde percebi que Agenor tinha razão: Negar Deus era meu escudo.

Venha. Vamos dominar o seu medo disse ele com pressa em mudar de assunto.

 

 

 

Capítulo 16

Os nossos medos tornam a realidade cada vez mais perigosa.

       Atrás das escadas, no andar em que estávamos, existia uma viga nas mesmas dimensões daquela que eu não conseguira atravessar. Só que nessa, a laje pré-moldada já estava encaixada. A diferença entre a viga e o chão, não era maior que dez centímetros.

Agenor me fez caminhar sobre essa viga, de uma coluna a outra por dez vezes, enquanto ele contava em voz alta.

 

Pronto! Agora você pode atravessar falou ele ao retornarmos para a viga suspensa.

Claro que não! Aqui é diferente falei já me agarrando à coluna, com a vertigem a me tontear.

A única diferença está aqui falou o velho encostando seu dedo em minha testa Lá você acreditou ser capaz de atravessar e conseguiu. Tenha fé e conseguirá aqui também.

Fé é conversa de religião.

Tem razão. Algumas pessoas conseguem até milagres através da fé. Mas você não precisa de tudo isso, é só se apegar com o seu raciocínio lógico: se lá na outra viga você conseguiu passar dez vezes sem pisar na laje, significa que seu risco de cair aqui é menor que dez por cento.

Lá atrás não tem nenhum perigo. Passaria cem vezes se fosse necessário.

Ótimo! Você vai repetir em voz alta: “O risco é menor que um por cento”. Fale quantas vezes for preciso, até se convencer e atravessar ordenou Agenor.

Isso é ridículo.

Não importa. Faça! insistiu ele com voz áspera repita comigo: O risco é menor que um por cento... O risco é menor que um por cento...

Não quis deixá-lo falando sozinho e, mesmo embaraçado, pronunciei as palavras.

Formamos um estranho coro.

Aquela frase repetida assim se assemelhava a uma oração. Lembrei da facilidade com que atravessei a outra viga lá nos fundos, que não oferecia perigo por estar rente ao chão. A imagem de Agenor atravessando calmamente e com as mãos nos bolsos, ainda era forte em minha mente. Ele tinha razão, não existia diferença entre as duas vigas.

As palavras que repetíamos em voz alta, tornavam-se cada vez mais fortes em sua lógica. O desconforto foi cessando e, aos poucos, me acalmei. A coluna do outro lado já não parecia tão distante. Respirei fundo tentando aspirar coragem do ar frio da madrugada e, finalmente, resolvi arriscar.

Ao dar o primeiro passo meu coração disparou, senti um nó apertando meu estômago.

Isso! Vamos, você consegue, é fácil incentivava o velho.

Empurrado por suas palavras e apoiado no cálculo que ele me fizera repetir, atravessei finalmente aquela viga.

Sem a elegância de Agenor é claro. Muito pelo contrário, arrastava um pé de cada vez, andando meio de lado, com os braços abertos a me equilibrar.

Meu medo transformara-se em um ser quase palpável, que parecia pretender me derrubar. Murmurando incessantemente a frase de Agenor, eu tentava apagar da mente as terríveis visões de uma possível queda.

Agarrei afinal a coluna do outro lado com as mãos trêmulas e suadas, apesar do frio daquela madrugada.

Não tive tempo para comemorar minha vitória. Vi Agenor atravessando a viga, imitando meus movimentos. Arrastava os pés, balançando os braços numa caricatura circense. Só que em seus gestos exagerados, o palhaço refletido era eu.

Agenor, com sua original representação, transformara-se num espelho vivo. Pude observar naquela patética cena, meus medos, carências e fraquezas.

Os gestos do velho diziam mais que um incomensurável discurso. Sua primorosa encenação permitiu observar-me despido de meus escudos.

Levei algum tempo para absorver todo o ensinamento contido naqueles breves instantes, que ajudariam a mudar o meu destino.

 

Você precisa aprender a enfrentar sempre os seus medos comentou Agenor ao terminar a travessia.

Não exagere. Não querer atravessar correndo riscos desnecessários, não me transforma num covarde medroso.

Todos nós temos medos. Mas só é covarde aquele que não os enfrenta explicou Agenor. Temos medo da fome e da pobreza. Temos medo de amar sem sermos correspondidos. Temos medo da dor e das doenças, de não sermos respeitados, de sofrermos desilusões, de fracassarmos, da solidão e da morte.

Você faz parecer que todos os problemas do mundo nascem do medo comentei enquanto seguíamos descendo as escadas, procurando na semi-escuridão o que deveria ser a saída dos fundos daquela construção.

Não, Marcelo. Durante muitos anos eu também achei que o medo fosse a origem de todos os problemas: O medo da pobreza nos tornando avarentos, o medo de amar sem ser correspondido esfriando nossos corações, o medo do fracasso inibindo uns, enquanto o medo de não ser respeitado transforma outros tantos em prepotentes orgulhosos.

 Naquela época eu ainda não conseguia avaliar o alcance do impressionante conhecimento de Agenor. Um verdadeiro filósofo, buscando respostas para todos os dilemas humanos. Ele ensinava com explicações simples e experiências diretas, atingindo não só o meu cérebro, mas também o meu coração.

O medo é o fruto que nasce da dúvida. Uma desconfiança gera insegurança, que pode se tornar coletiva e causar até guerras. A dúvida semeia o medo, que se enraíza na mente e alimentado pela fértil imaginação gera frutos venenosos como o ciúme, a inveja e o ódio entre outros que são os responsáveis pela discórdia, que causa toda a desgraça humana.

            Parece exagero valorizar tanto uma simples dúvida.

Será que Deus existe? Você pode destruir uma vida, se conseguir semear essa dúvida na mente de uma pessoa religiosa... Como o seu pai, por exemplo falou Agenor com um estranho brilho triste em seu olhar. Se eu não fosse tão despreparado, teria percebido, naquele momento, a profundidade da sua tristeza.

Meu pai não precisou questionar a existência de Deus para ter a sua vida destruída falei com amargura.

Não faça nenhum movimento brusco sussurrou o velho interrompendo nossa caminhada, quando já estávamos próximos do portão da saída.

Segurando meu braço ele indicou com o olhar algo à nossa esquerda. Um rapaz com olhos arregalados, trajando um uniforme de segurança, que apontava uma arma com suas mãos trêmulas.

O que mais me afligiu não foi o susto que descompassou meu coração, e sim o medo estampado no rosto do jovem guarda.

Como vocês entraram aqui? O que querem? perguntou o espantado rapaz.

Não soube o que fazer ou dizer. Tive receio até de respirar mais forte, e o medo do guarda causar alguma tragédia. Ele estava visivelmente assustado e o tremor de suas mãos poderia disparar a arma acidentalmente.

Boa noite guarda. Talvez você possa nos ajudar falou Agenor largando meu braço e tirando a outra mão do bolso calmamente. Nós entramos pelo outro lado fugindo de três delinquentes que nos seguiam. Pretendíamos sair por aqui e chamar a polícia.

Achei que o velho estivesse mentindo, e fiquei preocupado com o final de nossa aventura, quando o desconfiado segurança chamou a polícia pelo rádio.

Alguns minutos depois, cinco policiais em duas viaturas, que espalhavam feixes de luzes colorindo a madrugada, prenderam três marginais que haviam assaltado um casal naquela mesma noite. Na fuga, colidiram com o carro roubado em um muro, a algumas quadras de onde estávamos. Perambulavam no escuro pelas imediações à procura de outras vítimas. Agenor percebera a presença deles na saída do restaurante, por isso mudou nosso caminho.

Lembrei-me de tê-los visto de relance na saída do restaurante. Uma chamativa jaqueta vermelha com capuz, que um dos marginais usava, não consegue passar despercebida, mesmo à noite. Mas, naquele momento, eu estava tão contrariado com a discussão durante o jantar, que não dei atenção a três pedestres bêbados.

As drogas e as bebidas alcoólicas são ingratas. No princípio encorajam derrubando os escudos psicológicos, mas depois cobram um alto preço: a lucidez.

A mesma embriaguez que no começo da noite transformara os três impiedosos mal amados com uma coragem bestial, agora lhes traía reduzindo seus reflexos e facilitando o trabalho dos policiais.

Movimentos bruscos, cassetetes, armas em punho, gritos, mãos na cabeça, algemas e outras tantas truculências, tudo avermelhado pelas luzes das viaturas.

Quando visto pela televisão, a energia do trabalho da polícia é criticada como uso excessivo da força, mas visto assim ao vivo, parece mais o medo comum e normal em qualquer homem, comandando os gestos exagerados dos policiais que tentam demarcar território e se defender como qualquer outro animal.

 Alvoroçado e prestativo, o jovem vigilante estava com o peito estufado pelo orgulho de ter cumprido o seu dever.

Calado e cabisbaixo eu não me atrevi a fazer nenhum comentário. Não saberia dizer o que me causava mais vergonha, se não ter percebido antes absolutamente nada do que aconteceu, ou ter acreditado que Agenor pudesse mentir.

Os nossos medos tornam a realidade cada vez mais perigosa falou Agenor, quando a confusão acabou.

 

 

 

Capítulo 17

Quem é você afinal?

          Após muitos encontros em praças e parques de Curitiba, uma forte e inesperada chuva convenceu finalmente Agenor a convidar-me para conhecer o seu apartamento.

          Enquanto o porteiro anuncia minha chegada a Agenor pelo interfone, eu, deslocado naquele saguão luxuoso, tento limpar o barro dos meus sapatos que ofendiam o imaculado mármore, comum nos prédios daquele bairro nobre.

Agenor me recebe com sua costumeira simpatia. Percebi assombrado que o imenso apartamento parecia ainda maior pela escassez de móveis. Um enorme crucifixo ocupava com destaque o meio da parede da enorme sala. A discrepante decoração me deixou sem palavras. A pouca mobília simples e rústica transfigurava a sala.

Uma enorme estante guardava diversos livros. A maioria era sobre filosofia, psicologia, misticismo e religião. 

Singular o seu apartamento. Sinto-me entrando num mosteiro.

O apartamento não é meu diz o velho mas minha família insiste em que eu more aqui. Mantenho essa decoração simples para não esquecer o que realmente é importante.

Ensaiei algumas perguntas com o intento de revelar seus indecifráveis mistérios: Você mora sozinho? Você é ou foi casado? Você tem filhos? Mas o silêncio sorridente do velho não sucumbiu às minhas diligências.

Minha família é rica, mas eu prefiro viver com austeridade fala por fim Agenor. E como se com esse comentário respondesse minhas perguntas, muda de assunto sem saciar a minha curiosidade.

 Estirados num monte de almofadas, conversamos até o final da tarde, ouvindo a chuva fustigar os vidros das enormes janelas. Os relâmpagos, vez por outra, iluminavam a ampla sala.

Discutimos a evolução dos meus negócios a partir de alguns gráficos que desenhei seguindo os seus conselhos. Agenor comentou que minha visão do mundo estava mudando, ao ver as últimas fotos que tirei. Mas passamos a maior parte do tempo rindo, enquanto contava ao velho as trapalhadas do rapaz que eu contratara para me ajudar com a iluminação em minhas fotografias.

 

            Quando o barulho da chuva diminuiu, Agenor ligou um aparelho de som portátil, de onde se ouvia uma música instrumental suave.

Quem é você? perguntou-me o velho.

Em outras épocas eu lhe teria dito meu nome simplesmente, mas conhecendo Agenor há quase um ano, preferi ficar em silêncio. Falando de forma suave, ele pediu para que eu deitasse naquelas almofadas e fechasse meus olhos.

Durante todos aqueles meses em que Agenor tentava me ensinar a ganhar dinheiro, a maior parte de nossas conversas eram sobre pensamento positivo, organização, motivação e outros conceitos que eu lia em vários livros que ele me emprestava.

Mas o que realmente me impressionava em Agenor eram suas estranhas lições, compreendidas não só com o raciocínio intelectual, mas sim absorvidas pelo meu corpo todo. Com seu jeito misterioso e seus métodos próprios, o velho conseguia, aos poucos, me transformar em outra pessoa.

Agenor pediu para concentrar minha atenção em sua voz e seguir o seu comando. A inusitada situação me deixou acanhado. Deitado naquela enorme sala com pouca luz, eu vacilei alguns instantes, mas minha curiosidade acabou me convencendo.

Esqueça o resto de seu corpo e se concentre apenas em seus pés orientava-me o velho. Imagine suas formas... Sinta seus dedos... Visualize cada detalhe. Relaxe-os o máximo possível, como se você os desligasse do resto de seu corpo... Pergunte a si mesmo: Você é seu pé?... Agora imagine suas pernas...

A voz suave, quase sussurrada de Agenor me conduziu a um profundo relaxamento. Mas minha mente ficava cada vez mais agitada. Era impossível me imaginar sendo meu pé ou perna. Conseguia seguir suas instruções e visualizar meu estômago trabalhando alheio a minha vontade, ou o meu coração como uma bomba perfeita enviando vida para todas as extremidades do meu corpo, mas meus pensamentos disparavam atordoados, cada vez que o velho me perguntava: Você é o seu pulmão? Você é o seu braço?

Agenor deve ter levado pelo menos meia hora falando de todas as partes do meu corpo. Quando ele chegou à cabeça, pedindo-me para relaxar os músculos de minha face, meu corpo todo já estava inerte.

Quem é você? perguntou novamente o velho.

Minha mente procurava inquieta a resposta àquela cruciante questão. Pensar da maneira como Agenor sugeriu me deixou num embaraçoso impasse: Todo meu corpo parecia uma série de acessórios, e com certeza apodreceriam quando eu morresse. Mas se “eu” não era o meu corpo, o que seria então?

A excitação que crescia à medida que eu não encontrava a resposta, me deixou tonto.

Imagine uma luz envolvendo todo o seu corpo falou Agenor.

Consegui imaginar e até sentir com clareza o que o velho sugeriu. Eu, em forma de luz viajando como passageiro no meu próprio corpo.

Ampliando a incoerência daquela situação, me sinto balançar e girar para todos os lados, mesmo sabendo que meu corpo estava imóvel no chão daquele apartamento. Tal suposto movimento me causou náuseas.

Quem é você? insistiu Agenor.

Apesar da tontura que me provocava ânsia, eu não queria mexer um músculo sequer, com receio de quebrar aquele encantamento.

 Experimentava a fantástica sensação de estar fora do meu corpo físico quando ouvi assustado, Agenor perguntando aos gritos e me sacudindo pelos ombros:

Quem é você, afinal?

Sobressaltado, abri meus olhos, mas não compreendi instantaneamente o que vi: a menos de um palmo de distância um rosto aparentemente estranho, me olhando assustado. A imagem estava embaçada, talvez por eu ter ficado tanto tempo com os olhos fechados.

Meu coração descompassado me avisava de algum perigo iminente. Quem estaria ali tão próximo a meu rosto?

Aos poucos a silhueta desfigurada tomou forma. Admirado constatei, atrasado, que o estranho assustador era simplesmente meu rosto amedrontado, refletido no espelho que Agenor segurava à minha frente.

O velho desmoronava aos poucos minha dúbia realidade, e ainda tinha o requinte de mostrar meu assombro refletido.

Afrontado pelo meu próprio olhar, atordoado e com os reflexos lentos, demorei a perceber que Agenor ria zombando vitorioso.

Marcelo, eu te apresento este completo desconhecido falou o velho ainda a rir, me apontando o espelho.

Tentei falar, mas não consegui coordenar meus pensamentos.

É melhor não falar nada disse Agenor percebendo o meu dilema. Se tentar converter em palavras a experiência que acabou de viver, toda a força emotiva que você conquistou se esvairá.

Agenor se retirou por alguns minutos. Meu olhar tentou acompanhá-lo, mas o magnetismo da cruz no meio da sala me entorpeceu.

Sozinho olhando o crucifixo na parede daquela sala, onde a luz do final da tarde já perdia a batalha para as sombras da noite, tentei controlar um tremor convulsivo que estremecia meu corpo todo. Não entendia o que tinha acontecido. Talvez o velho tivesse me hipnotizado.

Todas as coisas em que eu sempre acreditei, foram questionadas de forma contundente pelo astuto Agenor. O pavor de ver meu mundo racional desabar, se emaranhava com a exultação de constatar que a realidade poderia ser muito mais ampla do que jamais pude imaginar. A sensação de estar fora do meu corpo físico, mesmo breve, me deixou desconcertado. Não conseguia desviar o olhar daquela enorme cruz.

Meu esforço em tentar entender o episódio só servia para aumentar a tremedeira. Vencido, desisti de pensar sobre o ocorrido. A calma voltou aos poucos e o tremor cessou.

 

            Depois de saborearmos um chá com biscoitos que Agenor preparou, voltamos a conversar.

Ele me proibiu de falar sobre o acontecimento daquela tarde. Explicou que mesmo os poetas não conseguem traduzir totalmente os sentimentos em palavras, tanto que só é capaz de compreender inteiramente um poema, quem já tenha vivido as emoções sobre as quais os versos falam. E que se eu tentasse converter em palavras o que aconteceu comigo, com o tempo acreditaria mais na minha pobre descrição vazia, do que na experiência real.

Com a mente quieta, ouvia as explicações do velho em silêncio. Ele amarrou em meu pulso direito uma fita vermelha, e disse que eu deveria lembrar daquela sensação “quem sou eu”, cada vez que olhasse para a pulseira. Falou que eu vivia adormecido e reagia sempre de forma mecânica a estímulos externos, e que aquela fita no meu pulso seria meu despertador.

Agenor falou que os cachorros e outros animais podem ser adestrados, justamente por “reagirem” a estímulos externos. E que cabe ao verdadeiro homem “agir” pela sua própria força de vontade ao invés de apenas reagir.

Você precisa decidir o que quer da vida, se comprometer e ir à luta. Não fique esperando a fome bater em sua porta concluiu Agenor.

Reanimado comecei a falar questionando e tentando entender melhor o que ele acabara de dizer, mas percebendo meu restabelecimento o velho mudou bruscamente de assunto, voltando a falar sobre as peripécias do meu desastrado ajudante. Após rirmos mais um pouco com as histórias que eu havia contado, sobre meu recém contratado auxiliar, Agenor muda o tom de voz e com rispidez me censura:

Você mal conhece esse rapaz, tenha mais paciência.

Não havia maldade nos comentários que eu fiz tento me justificar.

Você tem que perdoá-lo, dar tempo para ele crescer.

Fiquei irritado com as descabidas censuras de Agenor. Argumentei que me considerava paciente com todas as pessoas à minha volta, e que acreditava no potencial do rapaz, a quem eu daria o tempo necessário e ensinaria o que fosse possível para torná-lo um bom fotógrafo. Desabafei enfim a minha mágoa pela errônea interpretação que Agenor dera aos comentários inocentes que eu fizera naquela tarde.

Você seria capaz de perdoá-lo pelas falhas que ele comete? perguntou o velho.

Claro! Ele não tem a intenção de errar.

Você daria mais uma chance ao seu auxiliar?

Ele é um bom rapaz, justo, honesto e com vontade de aprender. Eu lhe darei quantas chances forem necessárias, até o seu potencial florescer.

E quantas vezes você seria capaz de perdoar, e quantas novas chances você daria a “este” seu desconhecido? perguntou Agenor, colocando na minha frente o espelho que ele usara algumas horas antes.

Agenor conseguiu novamente. Eu, desarmado e sem ação, com a boca aberta, mas sem palavras, fico imóvel a encarar meu próprio rosto refletido naquele espelho.

Por quantas vezes você foi impaciente e intransigente consigo mesmo durante toda sua vida? perguntou-me o velho.

Talvez a amargura tenha afetado minha vida muito mais do que eu imaginava. Aprendi com meu pai a assumir a responsabilidade. Minha arrogância sempre rejeitou a ajuda que os outros ofereciam. A teimosia e a falta de humildade tornaram meu fardo quase insustentável.

Está na hora de você se aceitar como é. Conceder-se o tempo necessário para seu próprio crescimento. Seja mais amável, tolerante e paciente consigo mesmo, e, principalmente, acredite no ser humano que você pode vir a se tornar disse o velho.

Uma lágrima cintilava no olho refletido. Eu que achava a vida injusta, percebo agora que sempre fui meu próprio carrasco.

Você precisa aprender a se gostar, e deixar fluir o que tem de melhor em seu coração sentenciou Agenor. Só assim estará preparado para aprender a amar os outros e ajudá-los também a externar o que eles têm de melhor.

Quando Agenor tirou o espelho da minha frente, a cruz continuava lá atrás pendurada, imóvel na parede a me observar.

 

 

 

Capítulo 18

Alegrias intensas e tristezas marcantes constituem a nossa história.

          Os princípios e conceitos que constituíam o conhecimento transmitido pacientemente por Agenor, mudaram aos poucos minha atitude e a maneira de enfrentar as dificuldades. Mas, apesar de viver muito mais tranquilo, meus problemas continuavam os mesmos.

Não obstante a aparente insatisfação com meu lento progresso, o insistente Agenor, firme em seu propósito, dedicava algumas horas toda semana para me ensinar.

Nunca me ocorreu que existisse uma razão especial para conversarmos sempre em lugares diferentes, previamente escolhidos por ele, até o dia em que o velho marcou nosso encontro no maior cemitério da zona norte da cidade.

Quando cheguei ao portão do cemitério, Agenor conversava com um pequeno grupo de pessoas. Precisei esperar alguns minutos até que ele se despedisse do grupo. Todos o tratavam com respeito exagerado.

Foi só quando ele veio em minha direção que reconheci uma mulher que estava com o grupo, mas de costas para mim.

─ Mãe?

Ela virou-se sorrindo e caminhou acompanhando Agenor até onde eu estava.

─ O que a senhora está fazendo aqui?

─ Estou junto com o grupo de orações lá da igreja.

─ Eu não sabia que a senhora conhecia o Agenor.

─ Você tem muita sorte meu filho.

Minha mãe me deu um beijo no rosto e depois se despediu de Agenor forma muito respeitosa, quase com reverência, beirando a veneração.

Agenor percebe que minha mãe colocou alguma coisa em suas mãos. Ele olhou discretamente e depois guardou o objeto em seu bolso. Os dois trocam sorrisos de cumplicidade.

Aos olhos de minha mãe, Agenor era um homem comum. Mas o mistério que fazia sobre sua vida pessoal me aguçava a curiosidade, transformando-o, em minha imaginação, em uma interrogação ambulante.

─ Porquê um cemitério? Você veio visitar alguém? ─ Perguntei enquanto caminhávamos entre os túmulos, logo depois que Agenor se despediu do grupo.

─ Sim. Vim visitar você.

A sua resposta me causou um arrepio. Ele soltou uma sonora gargalhada quando viu a minha expressão de medo.

─ Calma. Só escolhi um lugar diferente para quebrar a sua mecanicidade.

─ Mecanicidade?

─ Sim! Você é muito mecânico. Repete as coisas sempre do mesmo jeito. Virou uma máquina programada. Vive no “piloto automático”. Sem consciência própria. Por isso sempre vamos a lugares diferentes.

Sentados numa lápide, na parte mais alta do cemitério, conversamos longamente.

O vento balançando as árvores, o canto dos pássaros, o cheiro das flores e aquele mar de túmulos e cruzes à nossa frente, formavam realmente uma paisagem fora da minha rotina.

Quantas vezes você conseguiu lembrar do que combinamos? perguntou Agenor apontando a fita vermelha em meu pulso.

Não tive dificuldades em lembrar várias vezes de me perguntar quem sou eu, mas tal insólita atitude me pareceu sem finalidade respondi, tentando arrancar mais informações sobre aquele estranho comportamento.

Pensativo, Agenor me encarava mordendo seu lábio inferior. Eu já me preparava para levar uma bronca, mas o velho manteve sua serenidade.

O que você viveu naquela tarde no meu apartamento, não foi controlado e não pode ser explicado pelo seu cérebro. Não adianta simplesmente perguntar, você tem que “sentir” a mesma sensação daquele dia.

Agenor explicou que só vivemos realmente os momentos carregados de emoções. Alegrias intensas e tristezas marcantes constituem a nossa história. Na maior parte do tempo adormecemos e, reagindo numa rotina mecânica, simplesmente sobrevivemos.

Tente lembrar de algo marcante em seu passado pediu-me o velho.

Lembrei de um acidente de moto, onde por muita sorte não me machuquei. Mas Agenor não se contentou com um simples relato, queria saber detalhes. Perguntou até as cores do capacete e das roupas que eu usava no momento da colisão.

Apesar de o acidente ter ocorrido há mais de três anos, consegui lembrar de todos os detalhes. O susto e o nervosismo permaneciam claros em minha mente. Ainda conseguia ver o pavor nos olhos do motorista que me atropelou.

O que você fez um dia antes do acidente? perguntou-me Agenor.

Uma lacuna escura se abriu em minha memória. Por mais que me esforçasse não conseguia lembrar nada da véspera do acidente.

E o que aconteceu um dia depois? insistiu perguntando Agenor.

Fechei os olhos tentando visualizar, mas não vislumbrei nenhum resquício sequer de lembranças do dia posterior ao atropelamento.

Você pode empreender esforços para acordar de seu sonambulismo mecânico falou solenemente Agenor abrir seu coração, viver intensamente todos os momentos, se emocionar com a vida abundante à sua volta, sentir arrepios ao receber um doce sorriso de uma criança... Ou esperar ser atropelado novamente para ter o que lembrar.

 


Capítulo 19

Seguindo a intuição, rasguei a receita da felicidade.

            Agenor sempre achava um jeito de sacudir minhas ideias. Às vezes, a conversa até parecia ter uma direção mais amena, com uma didática comum. Como no dia em que conversávamos no Jardim Botânico, disputando espaço com os turistas e suas câmeras fotográficas, e eu reclamei da dificuldade para se viver de forma tranquila.

Construa a sua vida sobre pilares falou Agenor.

Ele explicou que para viver tranquilo é necessário equilíbrio. Sugeriu considerar a vida como uma construção, sustentada por quatro pilares: amor, família, trabalho e religião. O sonho seria o quinto pilar, que além de estepe serviria também para impulsionar a pessoa.

Esclareceu que amor deveria ser a grande paixão de nossa vida, uma mulher que inspire todo nosso romantismo. Trabalho tem que ser algo feito com prazer. Família são também os amigos, não só os parentes. Religião não é só frequentar uma igreja, é necessário sentir Deus no coração. O sonho não deve ser uma fantasia intangível, e sim algo concreto que sirva de motivação para a luta diária, e assim que você consiga realizá-lo, deverá ser substituído por outro. É importante ter sempre um objetivo na vida.

O velho exemplificou sua teoria me pedindo para imaginar uma pessoa que centrasse sua existência sobre um único pilar. O apaixonado que perdesse sua companheira cometeria uma loucura. O viciado em trabalho ficaria neurótico quando desempregado. O religioso se tornaria um fanático insuportável. Quem vive somente em função da família, quando ficar sozinho se sentirá rejeitado. Contudo se você perder a grande paixão de sua vida, mas tiver seu trabalho, seus amigos e um sonho para realizar, com Deus em seu coração, provavelmente irá superar qualquer trauma.

Entusiasmado resolvi anotar o que parecia ser a receita da felicidade.

O único problema é que se você tivesse essas informações antes de ser despedido daquele seu emprego, não estaria aqui tentando se tornar uma pessoa melhor falou Agenor.

Fiquei sem ação olhando para o pedaço de papel onde eu anotara o resumo da teoria recém esplanada. O velho tinha razão, foi o desespero que me levou a aceitar seu desafio.

Agenor explicou que todo ser humano é como um diamante bruto, precisa ser lapidado. Por isso, de nada adianta se esconder num mosteiro, ou criar uma sociedade alternativa no meio da selva ou numa ilha distante. É no contato contínuo que nossos defeitos se esbarram e temos a oportunidade de melhorarmos. Você pode passar a vida inteira condenando a violência, mas só quando sua família for atingida é que saberá quanta raiva carrega em seu coração.

As pessoas à nossa volta são nossos espelhos. Ao invés de criticá-las, deveríamos procurar em nós mesmos os defeitos que elas refletem discursava o velho. Os pilares equilibram, mas também podem servir como amortecedores, reduzindo o impacto dos choques de consciência que redirecionam nossas vidas. Quedas violentas trazem também a chance de nos superarmos evoluindo.

Olhei para o pedaço de papel e depois para o velho, tentando achar uma solução para a confusão contraditória que Agenor, com seu discurso, estabeleceu em minha mente.

Essa é a melhor parte. Nós somos livres para escolher falou Agenor dando uma gargalhada.

Seguindo a intuição, sem entender direito a razão, rasguei a receita da felicidade.

 

 

Capítulo 20

O que existe de melhor no ser humano está no sentimento e não no intelecto.

       O demasiado interesse de Agenor naquela fita vermelha em meu pulso me inquietava. A insistência veemente com que ele sempre perguntava sobre esse assunto, tornava-o um mistério cada vez maior.

Encontramo-nos na Praça Santos Andrade, que estava muito movimentada naquela tarde de sábado. Conversamos longamente, inclusive sobre o sucesso da exposição de fotos na agência bancária.

Discutíamos sobre o apego à matéria, quando Agenor tentava me convencer que eu poderia viver melhor se valorizasse menos o dinheiro, o conforto material e os prazeres do mundo.

Se você nunca experimentou o amargo sabor do pânico desesperado de não poder saciar a fome de seu filho, também não está preparado para falar de apego material falei indignado.

Agenor me olhou franzindo as sobrancelhas, assustado com meu rompante exasperado.

Você já sentiu vergonha de encarar o seu filho? Perguntei tentando justificar o meu aborrecimento.

Não considerava prudente afrontar o velho, afinal de contas foi seguindo seus conselhos que eu conseguira chegar até ali. Meu progresso era lento, mas real. Quando o encontrei eu estava desempregado e sem perspectiva de futuro, e hoje possuía meu próprio estúdio fotográfico.

Minha situação financeira continuava a mesma, visto que a maior parte do dinheiro que conseguia lucrar era consumida pelas despesas com o aluguel da loja e com os salários do meu assistente e da secretária que contratei. Mas a expectativa de um futuro melhor me mantinha entusiasmado.

Sempre ficava apreensivo quando Agenor mordia seu lábio inferior. Depois de me olhar pensativo por alguns instantes, ele ordenou que eu o aguardasse e se retirou.

Aflito, permaneci sentado sozinho no banco daquela praça, durante o breve espaço de tempo em que o velho esteve ausente. Teria ele se ofendido com meus comentários?

 Em todos esses meses eu nunca o afrontei, mas não podia ficar indiferente, já que para ele era muito fácil falar sobre desapego à matéria, pois sempre foi rico. Não vivenciou a agonia da miséria e o martírio da privação.

Agenor voltou momentos depois com um pacote nas mãos.

É desse que você falou que mais gosta? perguntou o velho entregando-me uma barra de chocolate com frutas cristalizadas.

Abra! falou ele percebendo meu embaraço.

A visão daquele delicioso chocolate despertou meu apetite.

Agora jogue fora ordenou o velho.

Parei com a boca aberta quando já estava pronto para abocanhar o presente. Olhei para Agenor sem nada entender. Não consegui fechar a boca, que salivava com o desejo despertado pelo meu chocolate predileto.

Vamos, jogue fora insistiu Agenor me apontando um cesto de lixo à nossa direita.

Atordoado com a inesperada e incoerente imposição do velho, eu fiquei parado e quieto.

O que existe de melhor no ser humano está no sentimento e não no intelecto explicou Agenor. Você precisa superar o apego com a matéria, para conhecer seus sentimentos mais nobres.

Eu não consigo entender a razão para esse desperdício falei.

Para você se conhecer melhor não adianta usar somente seu raciocínio. Jogue o chocolate no lixo, e observe o seu sentimento. É em situações extremas que manifestamos o que realmente somos falou Agenor.

Mesmo contrariado, levantei e caminhei até o cesto de lixo. Um enorme desconforto me impedia de jogar o chocolate fora. Agenor assistia meu impasse, sentado no banco da praça, sem falar nada. Se fosse uma outra coisa qualquer talvez conseguisse, mas desperdiçar comida era contra os meus princípios.

Finalmente desisti. Atravessando a rua entreguei o chocolate a um mendigo, que estava sentado na marquise enrolado a um cobertor.

Deus lhe abençoe!

O largo sorriso de gratidão do mendigo conseguiu dissipar o constrangimento criado pela minha derrota em não conseguir fazer o que Agenor me pediu. 

─ Esse é um ótimo jeito para começar ─ falou o velho, quando sentei ao seu lado no banco da praça.

Tudo que Agenor me ensinou, apesar de seu método peculiar, sempre era coerente e lógico. Mas nas últimas semanas sua excentricidade extrapolou os limites do aceitável. Perguntava sobre o que eu sonhava durante a noite, sempre querendo saber se eu não tivera experiências estranhas. E aquela bizarra fita vermelha, que ele amarrou em meu pulso, a me lembrar que eu deveria cumprir suas extravagantes e malucas orientações.

            Foi naquele dia que presenciamos a desesperada e inusitada luta do mendigo contra o seu agressor. Aquela incrível sequência de emoções e acontecimentos, consolidaram todas as tentativas de Agenor de mudar o meu comportamento frente aos desafios da vida.

Depois da nossa conversa e da experiência que tive no mirante, quando meu grito ecoou no lago, mudei de atitude. A confiança em minhas possibilidades transformou definitivamente minha vida.

Foi uma verdadeira catarse.

Mas surpreso ouvi Agenor dizer que foi somente uma coincidência. Que ele não sabia que aquilo iria acontecer naquela tarde, e que eu deveria continuar fazendo as estranhas coisas que ele me pediu, até o final de semana seguinte, quando iríamos voltar ao Salto dos Macacos.

 

 

Capítulo 21

O que Agenor quis dizer com “dois desafios”?

          O dia já estava para nascer, mas a sombra da noite ainda não havia se dissipado quando partimos com destino ao Salto dos Macacos, onde tudo havia começado.

          Menos de uma hora depois, Agenor estacionava o carro em um dos recantos da charmosa Estrada da Graciosa, para apreciarmos o nascer do sol.

A Graciosa é uma rodovia secular, com o seu calçamento de pedras, construída no caminho que era usado pelos índios, que liga o planalto onde está localizada a cidade de Curitiba, a novecentos metros do nível do mar, descendo vertiginosa até o litoral, numa sequência incrível de curvas e panoramas maravilhosos, com churrasqueiras, sanitários, quiosques para venda de produtos típicos e mirantes descortinando paisagens espetaculares.

Um cenário perfeito para contar ao velho as boas novas: durante a semana que passou, um empresário que visitou a exposição de fotos na agência bancária, se interessou pelo meu trabalho e me contratou para fazer as fotos das instalações de um hotel em Curitiba, que havia sido totalmente reformado.

Eu ainda estava sob o efeito daquela sensação de poder que senti, com o grito que dei no mirante do Passaúna, enquanto negociava o contrato. Por isso cobrei o preço certo, valorizando o meu trabalho.

O hotel fazia parte de uma grande rede. Os dirigentes da rede gostaram tanto das fotos que o contrato foi estendido para todo o país. Eu passaria meses viajando e fazendo muito mais dinheiro do que imaginei ser possível em toda a minha vida.

Enquanto contava meu sucesso a Agenor, aproveitava a máquina fotográfica de meus sonhos, que acabara de comprar, para fazer fotos daquele belíssimo cenário. Foi só quando enfoquei o rosto de Agenor pela minha objetiva, que percebi seus olhos marejados brilhando ao sol que raiava amarelando a paisagem.

Eu, que até então falava e fotografava sem parar, calei abaixando a câmera devagar. Fiquei surpreso com a emoção estampada nos olhos de Agenor.

Parabéns! Você venceu. Cruzou aquela linha riscada no chão. Fez a sua caminhada. E venceu o primeiro dos dois desafios falou o velho visivelmente comovido.

A empolgação pelo sucesso, e a euforia por saber que não passaria mais privações financeiras, me fizeram esquecer por instantes que o mérito pela minha vitória era de Agenor.

Devo tudo a você falei agradecendo.

Uma inquietação agitou novamente meus pensamentos. Por que ele me ajudava? O que eu teria feito para merecer tanto empenho e dedicação? O que ele quis dizer com “dois desafios”?

 

 

 

Capítulo 22

Hoje o seu despertador terá que funcionar!

            Descemos a Serra do Mar pelas intermináveis curvas da Estrada da Graciosa. Atravessamos a ponte metálica em Porto de Cima, e seguimos uma pequena estrada que margeava o rio, até o ponto em que faríamos a travessia. Agenor estacionou seu carro, como da outra vez, na sombra da mesma enorme árvore.

Eu estava preocupado. Nunca atravessei o rio com tanto frio. Já era quase final do outono, a água deveria estar gelada.

Agenor voltou a falar sobre a fita vermelha em meu pulso, enquanto apanhávamos as mochilas, depois que estacionou o carro.

Hoje seu despertador terá que funcionar falou o velho de forma misteriosa.

Resolvemos lanchar antes de atravessar o rio, e para minha surpresa o velho me proibiu de tomar qualquer tipo de líquido durante o dia.

Cada vez que você sentir sede, olhe para a fita em seu pulso, pergunte a si mesmo “quem sou eu”, e dê um pulo como se fosse tentar sair voando instruiu Agenor.

Eu não consigo entender onde isso poderá me levar falei com a intenção de extrair alguma explicação do velho.

Você precisa quebrar sua mecanicidade, e descobrir que a realidade não é somente o que pensa falou Agenor.

Morrer de sede não fazia parte de meus planos reclamei.

Precisamos fazer isso hoje, por que nem a fita está resistindo à sua teimosia falou o velho se referindo ao precário estado da fita vermelha em meu pulso. Desbotada pelo tempo e se desfiando, parecia que iria se arrebentar a qualquer instante.

Agenor explicou que enquanto dormimos, nossa mente fica livre e repete nos sonhos o que fazemos quando estamos acordados. Como eu era muito mecânico, apegado à rotina, ele precisava primeiro me acordar durante o dia, para depois conseguir despertar minha consciência durante o sono.

Ele acreditava que se eu repetisse muitas vezes durante o dia o que me pediu, acabaria despertando no meio de meu sonho. Mas como nada aconteceu nos últimos meses, Agenor resolveu que deveríamos vir ao meu lugar preferido, e adicionar um forte desejo como um novo ingrediente à sua receita. Após um dia inteiro sem água, minha sede deveria ser grande o suficiente para me acordar.

Depois de nos abastecermos com sanduíches, que desceram com dificuldade pela minha garganta seca, atravessamos o rio, por um caminho que eu não conhecia, que ficava a quinhentos metros abaixo do local onde eu sempre atravessava. Ali o rio bifurcava se dividindo em dois, formando uma pequena ilha no meio.

A água estava realmente muita gelada, mas o desafio foi dividido em duas etapas. Atravessamos o rio sem dificuldades e molhamos somente nossas pernas.

Por que tivemos todo aquele trabalho para atravessar o rio, da última vez que estivemos aqui, se você conhecia este caminho muito mais seguro? perguntei aborrecido.

Você pagaria para andar em uma montanha russa que fosse reta? perguntou Agenor.

Respondi com um largo sorriso, entendendo o sentido de sua pergunta.

A vida sem fortes emoções não teria a menor graça. Quem iria ao cinema assistir um filme onde tudo desse certo, do começo ao fim? perguntou Agenor, também sorrindo.

 

Capítulo 23

A vida é manhosa e não vai lhe pagar o que você pede, e sim o quanto você acha que vale.

     O percurso até a cachoeira foi tranquilo apesar de cansativo. Caminhamos sem pressa apreciando o passeio. Pequenas nuvens de neblina no meio das árvores, rasgadas pelos raios de sol teimosos em furar o bloqueio da mata fechada, formando belíssimos feixes de luz a iluminar enormes teias de aranhas com gotas de orvalho brilhante, que serviam como pano de fundo para o espetáculo proporcionado por alvoroçadas e coloridas borboletas, com graciosos beija-flores, vez por outra roubando a cena em breves voos, esbanjando técnica e perfeição.

A sede cumpriu à risca os planos de Agenor, forçando-me a olhar para a fita vermelha várias vezes durante o percurso. Perguntar quem eu era me causava uma bizarra sensação. Sentia-me deslocado ali no meio do nada cercado pela floresta, longe da civilização, com um amigo em quem aprendi a confiar plenamente, mesmo sem sequer saber seu sobrenome. Mas o que mais me desconcertava era ter que dar aqueles ridículos pulinhos.

Apesar do frio, o dia estava ensolarado e com um céu profundamente azul, tornando ainda mais fantástico o espetáculo daquelas águas e sua eterna luta contra as rochas. Desta vez não houve disputa para ficar com a plataforma. Quem mais seria excêntrico o bastante para se aventurar naquela floresta com o frio que fazia?

Enquanto armávamos a barraca, eu, animado com a nova perspectiva financeira, voltei a falar sobre o rentável contrato assinado durante a semana que passou.

Tantos meses de luta e a solução surgiu de onde eu menos esperava. Meu mundo mudou depois da experiência que tive com o mendigo naquela tarde comentei.

O mundo continua o mesmo. Sua atitude é que mudou.

Agenor esclareceu que precisamos ter a postura correta frente à vida. Se você estiver desesperado, com a família passando fome e for tentar vender o seu carro a um comprador experiente, ele perceberá seu desespero, e o que vai lhe pagar não será o que você pediu, e sim o mínimo que achar que você aceitará.

A experiência daquela tarde mudou sua atitude e lhe devolveu algo que você nem lembrava que um dia chegou a possuir: postura falou o velho. A vida é manhosa, e não vai lhe pagar o que você pede, e sim o quanto você acha que vale.

Isso criou um círculo vicioso. Quanto mais desesperado eu ficava, menos a vida me dava falei compreendendo o raciocínio de Agenor.

Exatamente! Mas finalmente você venceu, e negociou assumindo a atitude correta. Tranquilo e consciente, você cobrou da vida o que realmente vale o seu trabalho. A postura certa permitiu que você recebesse o que sempre mereceu, mas nunca soube exigir concluiu Agenor.

 


Capítulo 24

Um tribunal interno se instaurou.

            A minha sede aumentou muito com o passar do dia. Olhar o tempo todo para aquela água transparente e abundante, sem poder beber nenhum gole era uma tarefa árdua.

Todos os lados para onde eu me virasse, só enxergava água. Mesmo com os olhos fechados, o barulho insistente e contínuo não me deixava esquecer a sede torturante. Nos meses em que andei com aquela fita vermelha em meu pulso, nunca lembrei tantas vezes de olhar para ela perguntando quem eu era, pulando desajeitado logo em seguida.

No meio da tarde caminhei até uma das piscinas que a água formava no meio das rochas, e ajoelhado lavava meu rosto tentando amenizar a minha sede.

A sensação daquela água fresca escorrendo em meu rosto era uma tentação irresistível. Com a cabeça voltada para trás, passava lentamente a língua em meus lábios, me torturando.

Abaixei-me novamente olhando para a água cristalina. O pensamento de roubar um pequeno gole me ocorreu.

Percebi um estranho diálogo em meu cérebro. Um tribunal interno se instaurou enquanto eu brincava com as mãos na água.

De um lado meus pensamentos me alertavam: Você não pode trair a confiança de Agenor. Se você conseguiu aguentar até agora, tente suportar mais um pouco.

Enquanto em outro ponto de meu cérebro as justificativas me incitavam: um gole apenas não irá fazer mal algum. Ficar o dia todo sem beber nada, pode ser perigoso para a saúde.

Nós sempre sabemos distinguir o certo do errado falou Agenor aparecendo de repente e me assustando. Você pode se esconder e enganar a todos, mas por mais que se justifique, em seu íntimo sempre saberá quando agiu errado. E mesmo que consiga lesar os outros, no final é sempre você o maior prejudicado.

 

 

 

Capítulo 25

O velho cultivou um assombroso mistério em torno dessa experiência.

            Quando o sol se escondeu, a escuridão da noite não conseguiu abraçar totalmente a floresta, porque a lua refletia sua luz transformando o cenário com um toque mágico.

Agenor tirou a fita de meu pulso, e a amarrou em um copo com água, que colocou sobre uma pedra a alguns metros de nossa barraca.

Depois, usando um galho de árvore como vassoura, limpou o caminho entre o copo e a barraca.

Sentado em uma pedra com as pernas e os braços cruzados tentando me proteger do frio, fiquei calado observando os movimentos calculados do velho, preparando cuidadoso todos os detalhes de algo que prometia ser muito importante.

Ansioso, aguardava o desfecho de todo o esforço em tentar seguir, mesmo sem entender, as estranhas orientações de Agenor durante todos aqueles meses.

Enigmático e cauteloso, o velho cultivou um assombroso mistério em torno dessa experiência. Sua insistência e preocupação fizeram com que a fita vermelha adquirisse uma importância exagerada.

Agenor misturou um pouco de sal ao resto de água no cantil, e depois de agitar bem, ordenou que eu tomasse.

O gosto ruim da água salgada tornou a minha exorbitante sede insuportável.

Prepare-se para dormir falou o velho depois de terminar seus preparativos.

Tentei argumentar que ainda era cedo e eu estava sem sono, mas Agenor insistiu, e explicou que eu teria que deitar como se estivesse pronto para dormir, fechar os olhos e depois de alguns minutos, tornar a levantar, caminhar até o copo com água, e quando visse a fita vermelha amarrada nele, eu deveria perguntar “quem sou eu”, e depois dar um pulo, voltar a deitar e repetir tudo novamente.

Você não deve simplesmente perguntar, tem que sentir a mesma sensação daquela tarde em meu apartamento, quando se viu no espelho enfatizou Agenor.

Quantas vezes eu terei que fazer isso?

Quantas forem necessárias. E como você disse que está sem sono, vai dar tempo de fazer pelo menos umas vinte vezes.

Como em tudo que Agenor fazia sempre havia um propósito, resolvi não questionar e seguir as suas estranhas ordens.

Nas primeiras vezes, meu nervosismo e agitação atrapalharam um pouco, mas acabei me acalmando. Tirando a sede quase insuportável, e o constrangimento do pulo, o resto do plano correu bem. Já na terceira vez que saí da barraca Agenor havia desaparecido. Não sei por quantas vezes repeti aquele trajeto, mas finalmente o cansaço venceu meu excitamento e relaxando acabei dormindo.

 

 

 

Capítulo 26

A repetição exacerbada a que Agenor me submeteu surtiu efeito.

            A forte sede não me deixou dormir por muito tempo. Levantei de madrugada e fui tomar a água que Agenor deixou sobre a pedra. Ao ver a fita vermelha amarrada no copo, por força do hábito, perguntei novamente quem eu era.

Um arrepio avassalador estremeceu todo o meu ser. Notei estupefato e com um assombro maravilhoso, que eu estava fora do meu corpo físico.

Não se tratava de um simples sonho. Era uma sensação muito mais ampla e abrangente. Eu estava totalmente consciente, sabia meu nome e o que fazia. Sentia meu corpo deitado na barraca e ao mesmo tempo em pé sobre a plataforma. Tinha pleno domínio da situação e podia decidir o que fazer. Eufórico e descontrolado, eu gritava minha felicidade ao conferir de perto e de forma incontestável, que o mundo era muito mais que a matéria que eu conhecia.

A repetição exacerbada a que Agenor me submeteu surtiu efeito. Quando finalmente tentei pular, explodi de contentamento, e ultrapassando todos os limites possíveis da alegria que eu conhecia, saí voando.

Não era um simples sonhar que se está voando, e sim sentir solidamente todas as sensações de um voo real. Eu escolhia para onde queria ir e a que velocidade desejava voar.

Mas minha euforia não me permitiu voar por muito tempo. A situação fugiu ao meu controle. Em meio aos voos rasantes por sobre a floresta enluarada, meus gritos aumentaram até perceber que na barraca eu gemia. A sensação de meu corpo físico deitado inerte aumentou, e quando menos esperava, acordei.

Imóvel por alguns instantes eu tentei voltar para aquela estranha situação. Eu queria ver meu corpo físico enquanto estava fora dele. Mas minha excitação e a alegria descontrolada haviam me despertado. Depois que a experiência terminou, eu resolvi levantar e ir até o copo sobre a pedra, para tomar água e acabar com aquela terrível sede.

Finalmente com o copo na mão, bebo a água em fartos goles. Sentindo um horrível gosto de sal, cuspo desesperado a água fora. Irritado com a brincadeira de mau gosto de Agenor, vou até a barraca para reclamar.

Ao entrar na barraca, eu vejo Agenor sentado com as pernas cruzadas olhando para alguém deitado a seu lado.

Demorei alguns segundos para perceber que eu, parado na porta da barraca, olhava para o meu próprio corpo deitado ao lado do velho.

Um grito alucinado e involuntário me arremessou de volta ao meu corpo. Acordei “novamente”. O suor que molhava meu rosto apesar do frio da madrugada, e um tremor incontrolável indicavam que agora eu estava realmente desperto.

Já sei! Você sonhou que estava acordado, e quando acordou descobriu que estava dormindo falou o velho dando uma longa gargalhada, enquanto me entregava o cantil com água fresca.

Esvaziei o cantil de uma única vez, acabando com a angustiante sede.

O que aconteceu? perguntei quase sem controlar um tremor intenso.

Você se tornou o “ator” durante alguns minutos respondeu Agenor.

Segundo a visão de Agenor, a consciência, livre do corpo físico, é como um ator sem representar, é ele mesmo. Contudo, quando a consciência está presa ao corpo se torna o personagem, com suas máscaras, fantasias e maquiagens.

Quando estamos acordados conseguimos disfarçar nossos defeitos. Dissimulados, nós não dizemos o que pensamos, nos controlamos refreando nossos impulsos e desejos. Mas separados do corpo, nos tornamos o que realmente somos.

Existem atores virtuosos e completos desempenhando papéis simplórios, e também atores medíocres e despreparados interpretando personagens poderosos falou Agenor.

De acordo com ele, existe o “ser” por trás das pessoas. Conhecemos somente a ponta visível do que realmente somos. Para exemplificar, Agenor me pediu para tentar lembrar de alguém que eu conhecesse que, mesmo humilde e tendo pouca instrução, fosse uma pessoa agradável, verdadeira e simpática, e por outro lado existem os que, com todo o conhecimento e poder que o dinheiro pode comprar, não conseguem se tornar pessoas melhores, são intratáveis, arrogantes e mesquinhas.

O ator sobreviverá a essa vida, melhor ou pior do que quando nascemos, mas o personagem com certeza irá morrer um dia falou o velho por isso use somente o tempo necessário com as coisas materiais, elas ficarão quando o personagem morrer. O que realmente importa é você se conhecer e se tornar uma pessoa melhor.

Encolhido no canto da barraca, com os braços e pernas cruzados tentando controlar o tremor em meu corpo, olhava para o vulto sem conseguir perceber a expressão no rosto do velho no escuro da madrugada. Tentei continuar a conversar, mas Agenor me proibiu de falar. Não consegui dormir. Fui sentar do lado de fora da barraca, para esperar o dia amanhecer.

 

 

Capítulo 27

A experiência desta noite foi o segundo desafio?

        Quando Agenor se levantou, me encontrou sentado perto do precipício na parte leste do local onde estávamos acampados. Ele se acomodou ao meu lado e ficamos em silêncio a contemplar a paisagem.

O trem da manhã contornava os morros à nossa frente. Mal conseguíamos ouvir o seu apito, com o barulho das águas, que depois de caírem pelo Salto dos Macacos, escorriam pela rampa de pedra, passavam por quatro piscinas naturais encravadas nas rochas, formando pequenos saltos e corredeiras. E depois de toda essa maratona, despencavam pelo precipício à nossa direita, caindo por mais de trinta metros formando o majestoso Salto do Redondo.

Jogue isso fora! ordenou Agenor se referindo à fita vermelha que eu segurava pensativo em minhas mãos. Você já se acostumou com ela, não serve mais como despertador.

Mas ela representa um marco em minha vida! argumentei.

Cuidado para não confundir a fita com o que ela representa falou o velho. Ou logo você irá colocá-la em um altar e acabará rezando por ela.

Agenor riu da minha expressão de espanto, e depois explicou que as pessoas fazem uso de imagens, estátuas e amuletos, para reforçar a sua fé, e com o tempo, depois de muito reverenciá-los, acabam esquecendo o que eles representam.

Por que eu não consegui controlar a situação ontem à noite? perguntei ainda olhando para a desbotada fita em minhas mãos.

Nós forçamos a sua entrada em um mundo para o qual você ainda não estava preparado.

Agenor explicou que a euforia me fez perder o controle, a sede confundiu minha percepção e finalmente a irritação me descontrolou, por isso, distraído, acabei me assustando quando vi meu próprio corpo.

Naquele mundo você não pode mentir nem camuflar ou mascarar suas emoções. Por isso precisa dessa vida e do corpo físico para dominar o seu ego, e depois de compreender, tentar eliminar os seus defeitos explicou Agenor.

Consternado por um sentimento de impotência me calei.

As pessoas vivem baseadas simplesmente na fé. Você teve uma oportunidade única de constatar pessoalmente, a possibilidade de a consciência existir fora do corpo. Use os poucos minutos que durou sua experiência para desviar sua vida na direção certa.

E qual é a direção certa?

Agenor olhou firme em meus olhos, e depois de um longo silêncio respondeu:

Você já sabe o caminho. Conversamos sobre isso em todos os nossos encontros. Procure conhecer seus sentimentos, descubra os seus defeitos, aprenda o máximo que puder, tente ser uma pessoa melhor.

 Agenor explicou que o homem alcançou enormes avanços intelectuais e tecnológicos, mas não evoluiu como ser humano na mesma proporção. O desenvolvimento conquistado aproximou o homem dele mesmo e o afastou de Deus. Apesar de todo o progresso, continuamos os mesmos bárbaros de sempre.

São muitas informações e às vezes me sinto perdido reclamei.

Siga a voz de sua consciência.

Isso parece meio... abstrato.

Agenor tornou a olhar em meus olhos, procurando algo.

Se isso lhe parece abstrato, o que afinal é real para você?

Minha frágil realidade foi questionada muitas vezes. Os fragmentos que sobraram não se sustentam sozinhos. Já não sei mais o que é verdade.

 A verdade acaba sendo individual. Cada um só consegue ver a sua própria verdade falou Agenor, distraindo-se a olhar o horizonte.

Joguei a fita na água que passava apressada à nossa direita, despencando precipício abaixo. Misturando-se à espuma branca, ela sumiu em meio ao barulho da cachoeira deixando uma incômoda tristeza em seu lugar.

A experiência desta noite foi o segundo desafio? perguntei, me referindo ao comentário que Agenor fizera no começo de nossa viagem.

Não! Ainda não respondeu o misterioso Agenor.

 

 

Capítulo 28

Se eu não conheço toda a verdade, devo tentar seguir quem está mais próximo dela.

         Desmontar o acampamento, desarmar a barraca e arrumar todas as coisas em seu lugar, teve um simbolismo incrível, com cada gesto sendo associado a conversa que tive com Agenor.

      ─ Como você sabia que eu iria acordar no meio do sonho? ─ Perguntei, enquanto tirávamos a lona de nylon da cobertura da barraca.

─ Eu não sabia... Tinha esperança ─ respondeu o velho ajoelhado e enrolando o tecido.

─ Você é meio bruxo. Parece que sempre prevê as coisas ─ falei desamarrando os tirantes que estavam presos em pedras, que serviam como apoio, já que era impossível cravar na rocha os ferrinhos, normalmente usados para prender a barraca.

─ Já disse que eu não tinha certeza se funcionaria ─ disse o velho que continuava ajoelhado, agora enrolando o tecido da parte de baixo da barraca.

─ Como você sabia que iria acontecer aquilo tudo com o mendigo, naquele dia lá na praça? ─ Perguntei enquanto desmontava as hastes flexíveis que serviam para sustentar a barraca.

─ Eu não sabia. Eu precisava despertar o sentimento certo em você. O evento do mendigo foi uma oportunidade. Simplesmente aproveitei.

─ Quer dizer que foi pura sorte? ─ Questionei, enquanto guardava todas as nossas coisas em sacos plásticos para não molhar durante a travessia do rio.

─ Sorte é quando você está preparado para as oportunidades que aparecem ─ Falou Agenor enquanto amarrava a embalagem onde guardou todas as partes da barraca.

─ Mas o que aconteceu comigo ontem a noite não foi por acaso. Você vem preparando isso a meses. Desde aquela tarde lá no seu apartamento. A fita vermelha, os pulinhos e toda aquela bruxaria de ontem à noite.

Agenor sorri balançando a cabeça.

─ Não foi bruxaria. A sua “vontade” ainda é muito pequena. Tudo o que fizemos esse tempo todo foi aumentar a sua força de vontade.

─ Bruxaria ou não, eu continuo não entendo ─ falei ao mesmo tempo em que prendia as fivelas da mochila.

─ Várias religiões estimulam o jejum ou outras formas de aumentar a força de vontade. O celibato da igreja católica é para aumentar a vontade dos padres e feiras. Os mestres do tantrismo usam a energia do sexo para aumentar a força de vontade.

─ Você usou a minha sede ontem à noite... ─ comentei enquanto amarrava meu colchonete na mochila.

─ Isso! O jejum demoraria muito para fazer efeito. E a energia sexual, nem pensar. É muito poderosa e complexa. A sede, no seu caso, funcionou bem.

Depois de desarmarmos a barraca e arrumarmos todas as coisas, conversamos sentados na plataforma, usando as mochilas como encosto.

─ O que move o mundo é a força de vontade. A diferença entre os que agem e os que só reagem, está na força de vontade. Mas a vontade também pode ser aumentada com sentimentos negativos como a ganância, o ódio ou a vingança... Por isso, “paz na terra aos homens de boa vontade”.

─ Já que você falou em religião e citou a bíblia, o que é Deus para você?

Agenor se virou me olhando espantado. Um sorriso iluminou seu rosto, como se ele tivesse ganhado um prêmio. Aguardava suas brincadeiras e ironias, como sempre fazia quando falávamos sobre esse assunto e eu mostrava minha descrença, mas o velho ficou radiante com minha pergunta.

 Pai respondeu ele, com naturalidade.

A simplicidade de sua resposta me frustrou. Eu esperava do velho uma explicação complexa e detalhada, mais condizente com todo o seu conhecimento. Fiquei calado contemplando a água que passava barulhenta e incansável.

O seu pai lhe deixou cair várias vezes quando você, ainda criança, estava aprendendo a andar falou enfim Agenor. Se você já soubesse falar, reclamaria perguntando: Pai, por que você não me segurou? Mas como ainda não sabia se expressar, você simplesmente chorou.

Ouvindo Agenor falar, tentando descrever como poderia ter sido o momento em que meu pai me ensinou a andar, voltei a sentir aquela saudade melancólica que tanto me perturbava.

Lembrei do que Agenor falou alguns meses antes sobre superar o trauma para poder recordar os bons momentos vividos com meu pai. Mas minha única lembrança era a agonia da espera de sua morte.

Estou certo continuou a falar Agenor de que seu pai tentou explicar a necessidade dos tombos, mas você, naquele momento, não conseguiu entender. Ele, provavelmente, deve ter lhe aconchegado em seus braços, esperando que você superasse o medo de cair, para lhe ajudar a tentar novamente. E de tanto insistir, você acabou aprendendo a andar. Posso até imaginar a emoção de seu pai, ao ver você dar os primeiros passos.

Mesmo que eu tentasse não conseguiria lembrar de meu pai me ensinando a andar. Mas recordei da emoção que tive, quando meu filho deu seus primeiros passos. Um doce sorriso iluminando seu rostinho, onde dois olhinhos arregalados se destacavam. Passos incertos e cambaleantes, com os pequenos braços esticados, e demonstrando confiança, atirou-se em meu colo buscando abrigo seguro. Meu filhinho me abraçando eufórico, na alegria de conquistar mais uma etapa, e eu com a felicidade a transbordar por meus olhos marejados.

Deus dotou o homem de consciência, e em sua infinita bondade nos concedeu o livre arbítrio falou Agenor. E mesmo quando cometemos erros atrozes e hediondos, Ele não nos priva de nossa liberdade. Caímos seguidas vezes, tentando andar com nossas próprias pernas. Por não entendermos seus desígnios, muitas vezes nos revoltamos: Pai, por que me abandonastes? Mesmo sem percebermos, enquanto choramos desconsolados, Deus nos aconchega em seu colo, até recuperarmos nossas forças e tentarmos novamente.

Uma sensação angustiante de abandono e desamparo aumentou a saudade que eu sentia de meu pai.

Se tivéssemos apenas uma pequena parte da confiança que Deus sempre depositou no homem, acreditaríamos mais em nós mesmos e nas nossas possibilidades, e certamente nos tornaríamos pessoas melhores. Depois desse comentário, Agenor calou-se, e o seu silêncio reforçou ainda mais o que ele acabara de falar.

Tentei fazer outras perguntas para continuar a conversa, mas ele se recusou a responder.

Descubra a sua própria verdade disse ele.

Eu pensei que a verdade fosse única argumentei.

A verdade é uma só, mas nós somos pequenos demais para entendê-la em sua plenitude.

Agenor explicou que a verdade é como um enorme quebra-cabeça, gesticulando, com os braços para cima, movendo peças imaginárias. Cada um de nós a enxerga conforme os pedaços que conseguiu juntar. Usamos a teoria e a fé para completar as partes que faltam.

Eu sempre usei a teoria, mas foi você que me ensinou a usar a fé. Se eu não conheço toda a verdade, devo tentar seguir quem está mais próximo dela comentei.

Como assim? perguntou Agenor, baixando os braços e franzindo as sobrancelhas enquanto me encarava.

Expliquei-lhe que quando o conheci, minhas debilitadas teorias não me ajudavam muito. E que mesmo não entendendo tudo o que ele dizia, eu resolvi segui-lo, porque acreditei no seu conhecimento e experiência.

A fisionomia do velho mudou rapidamente. Alguma coisa que eu falei o deixou melancólico. Calado, ele ficou a olhar para o nada.

Minha atitude não lhe parece um bom exemplo de fé? perguntei.

Agenor me encarou, com seus olhos refletindo um inexplicável padecimento, em seguida se levantou em silêncio e entrou na floresta, subindo a encosta do morro.

Ele não deveria ter ido longe porque deixou sua mochila na plataforma. Depois de alguns angustiantes minutos de espera resolvi ir atrás dele. Subi por uma pequena, mas íngreme trilha que dava acesso à parte de cima do salto.

 

 

            A rápida corrida me deixou ofegante ao chegar. Eu nunca havia subido até lá. A água cristalina, antes de despencar por mais de cinqüenta metros formando o Salto dos Macacos, se dividia contornando uma enorme pedra que ficava no meio do rio, próximo à beirada da cachoeira.

Encontrei Agenor sobre essa pedra com os braços abertos e as mãos voltadas para o céu a rezar.

Não sei se foi a beleza e a força daquela cena, ou a vertigem causada pela altura, mas fiquei maravilhado e comovido com o que vi.

Criei coragem e atravessei o pequeno trecho escorregadio que me separava da pedra, onde o velho sentou após terminar sua oração.

Sentei a seu lado sentindo-me um simples grão de areia naquela imensidão verde à nossa frente.

Agenor esticou a sua mão para me cumprimentar. Mas, ao invés do aperto tradicional, ele deu um tapinha em minha mão e depois o toque com a mão fechada, como ele me viu fazendo com o Índio e os amigos.

O velho abriu um sorriso sereno com um brilho de gratidão. Não entendi o que estava acontecendo, mas meu peito se encheu de uma emoção morna e inexplicável.

Estávamos no topo daquele mundo. E mesmo sabendo que eu era apenas uma parte infinitamente pequena daquela belíssima paisagem, estava tranqüilo e radiante de felicidade.

Não me atrevi a quebrar com palavras o encanto mágico daquele momento.


 

 

Capítulo 29

Você está pronto para vencer o seu segundo desafio?

          Agenor ficou muito arredio nos meses seguintes. Durante todo o inverno, enquanto eu viajava a trabalho, consegui falar com ele apenas pelo telefone.

          O meu conhecimento não era suficiente para explicar o que Agenor fez comigo para provocar aquela fantástica experiência no Salto dos Macacos. Depois de procurar respostas em muitos livros, passei a acreditar que ele deve ter juntado ensinamentos de diferentes segmentos místicos e religiosos, para quebrar minha mecanicidade e desmoronar os meus conceitos sobre o que é real, me arremessando a um estado alterado de consciência.

          Todos os livros que li serviram apenas para aumentar ainda mais o mistério:

          Quem seria Agenor afinal?

          Mesmo com toda a minha insistência, foi só no começo da primavera que consegui convencer o velho a marcar um novo encontro.

Chegando ao endereço que Agenor me deu, estacionei meu carro novo, comprado com o dinheiro que já não era mais problema em minha vida.

            Desorientado, constatei que se tratava de uma igreja. Olhei em volta e não encontrei o velho, apesar de ter visto o seu carro parado bem em frente às escadarias, quando dei a volta procurando um lugar para estacionar.

            ─ Tá bem cuidado, tio ─ gritou um jovem rapaz de roupas simples, que estava há alguns metros, cuidando dos carros estacionados.

            Caminhei até o carro de Agenor pensando em como a minha vida tinha mudado. A pouco tempo atrás eu me vestia de forma parecida com o jovem que cuidava dos carros em busca de uns trocados. E hoje eu estava com os cabelos cortados, a barba feita e com roupas alinhadas e confortáveis.

Encostado no carro de Agenor, enquanto esperava, acompanhei o voo de um pombo e acabei fixando o olhar na cruz no alto da torre.

Depois de um longo e rigoroso inverno chuvoso, uma manhã ensolarada de primavera como essa, parecia uma dádiva celestial que combinava com aquela bela igreja.

Bom dia! Você é o Marcelo? ouvi de repente.

Duas freiras baixinhas e risonhas me olhavam esperando uma confirmação.

Sim! Sou eu. Estou aguardando um amigo respondi retribuindo o sorriso.

Nós lhe devemos toda a nossa gratidão! falou a menor delas, segurando minha mão entre as suas, e inclinando a cabeça para o lado, o que valorizava ainda mais o doce sorriso e o olhar brilhante daquele simpático rosto enrugado.

Desconcertado, olhei para a outra freira a seu lado tentando entender o que acontecia.

Agenor nos contou que você salvou a vida dele disse ela.

Deve haver um mal entendido, Agenor é que salvou a minha vida falei tentando esclarecer a situação.

Venha! Você está atrasado.

Fui arrastado, gentil e lentamente pela freirinha, que insistia em não soltar a minha mão. Subimos a enorme escadaria. Enquanto uma das freirinhas tentava me explicar a história de Agenor, a outra largava frases desconexas que, apesar de esclarecedoras, aumentavam ainda mais a minha curiosidade.

─ A mente brilhante de Agenor o fez progredir rapidamente.

─ Sentíamos muito a sua falta...

─ Todos ficavam maravilhados ao ouvir as suas palavras.

─ Mas ele sempre mandava notícias...

─ Nossa cidade acabou ficando pequena para a grandeza de suas idéias.

─ Tenho uma coleção de cartões postais...

─ Ele andou pelo mundo todo.

─ Cartões da América... Da África... Da Europa...

─ Um dia a sua religião já não era o suficiente.

─ Eu tenho uma foto dele ao lado do Papa...

─ Agenor abandonou tudo e saiu atrás de mais conhecimento.

─ Ganhei lindas fotos da Cordilheira dos Andes... Himalaia... Índia... Tibet...

─ Sumia durante anos, buscando aprender sempre.

─ Ele me contava em suas cartas sobre mosteiros... Peregrinações... Ordens místicas...

─ Até que um conflito com sua fé abalou Agenor.

─ Ele desistiu de tudo...

Subindo a escadaria, fiquei perplexo e meio tonto, tentando processar em meu cérebro tudo o que acabara de ouvir.

Mas felizmente você conseguiu trazer ele de volta para nós ─ falou por fim a freirinha, baixando o tom de voz enquanto entrávamos na igreja.

Uma belíssima música era cantada em coro pela igreja lotada. O sol forte da manhã turvara meus olhos. Eu vislumbrei pessoas embaçadas em pé cantando, enquanto caminhava no corredor central puxado pela mão da freira.

Quando minha visão se acostumou com a iluminação do ambiente, e comecei a enxergar com mais clareza, minhas pernas afrouxaram quase sem conseguir sustentar o meu peso.

A freirinha, notando o que acontecia, largou minha mão e, depois de me olhar por alguns instantes, seguiu em frente me deixando no meio da igreja.

Não pude acreditar no que vi. No altar, com os braços abertos e as mãos voltadas para cima, o padre vestido de branco era Agenor.

A acústica da igreja transformou a música em pura energia, que envolveu todo o meu ser. Meu peito apertado vibrava com as notas cantadas por todas aquelas pessoas. Entorpecido pela emoção, tive a sensação de flutuar.

A imagem do padre Agenor no altar, mesclou-se em minha mente com a lembrança dele rezando sobre a pedra no Salto dos Macacos.

Essa associação desencadeou a visualização de uma série de imagens em minha memória, que começou com meu pai em seu leito de morte, colocando a pequena cruz de prata em minha mão, e eu revoltado com o seu sofrimento a joguei longe.

Lembrei de Agenor sentado na plataforma de pedra, na primeira vez que o vi. Depois recordei sua mão estendida me oferecendo ajuda para cruzar a linha que ele riscou no chão, e eu tornando a atravessar o rio para abraçá-lo.

Enquanto a missa continuava, eu paralisado em pé no meio do corredor rememorava imagens: a cruz na parede do apartamento de Agenor, meu espanto refletido no espelho, a fita vermelha em meu pulso, seu passeio sobre a viga suspensa naquela madrugada, seus olhos brilhantes na emoção da minha vitória, o meu vôo fora do corpo físico e suas sábias teorias.

Lembrei também de Agenor perguntando entristecido: “Será que Deus existe? Você pode destruir uma vida, se conseguir semear essa dúvida na mente de uma pessoa religiosa”.

Compreendi, aos poucos, que Agenor quando me encontrou, também andava perdido e descrente.

Mesmo impossibilitado, pela forte emoção, de acompanhar os rituais da missa, consegui ouvir parte do sermão. O padre Agenor falou que há dois mil anos atrás era muito difícil para o homem viver sem saber no que acreditar. Mas depois de Jesus Cristo não precisaríamos mais discutir qual o caminho certo, bastaria seguirmos a luz de seus ensinamentos, aprendendo a amar.

Que a dúvida jamais invada minha mente. Que eu tenha sempre a certeza de que o Senhor é meu pastor e nada me faltará. Que o medo não encontre moradia em meu coração, porque eu tudo posso em Ti Senhor, meu Deus, que me fortalece falava o padre Agenor com a extrema convicção que conseguira reconquistar.

Permaneci o tempo todo parado no meio do corredor. Não participei da missa, mas as rezas e cânticos me deixaram em completo estado de êxtase. Eu era ainda um menino na última vez que entrara em uma igreja, e agora me sentia uma criança novamente.

Depois da benção final as pessoas ainda demoraram a sair. Felizes, queriam cumprimentar o padre Agenor pelo seu regresso. Aos poucos a igreja se esvaziou e o silêncio imperou.

Com um gesto de sua mão, que fez balançar sua batina branca, Agenor pediu que eu me aproximasse.

Apesar de me sentir muito leve, meus pés tiveram dificuldades em me levar até o altar onde ele estava.

Conforme me aproximava, a sua imagem parecia mais majestosa e resplandecente naquela roupa branca. A luz do sol que entrava por um dos vitrais da igreja, refletia exatamente onde ele estava. Seu brilho se tornou ainda mais intenso.

Quando finalmente me aproximei, mal conseguia respirar. Um choro de alegria estava entalado em minha garganta. O sorriso no rosto dele nunca esteve tão radiante.

Quando Deus o colocou no meu caminho, lá no salto, como uma ovelha desgarrada, Ele sabia que o meu instinto de pastor falaria mais alto e eu tentaria reconduzi-lo ao rebanho falou o padre Agenor com voz suave.

Os quase quatro meses de afastamento deixaram uma saudade dolorida em meu peito. Ouvir novamente a sua voz me inspirava a abraçá-lo, mas a vestimenta que ele usava impunha respeito, e desconcertado eu não soube o que fazer. 

No começo, eu pensei que estaria lhe ajudando a se encontrar, mas quando você disse que me seguia por pura fé, um clarão divino me mostrou os verdadeiros planos de Deus. “Se eu não conheço toda a verdade, devo tentar seguir quem está mais próximo dela” falou ele olhando para a cruz no altar.

Eu, que sempre fui tão grato a Agenor, por tudo que ele fez por mim, mal podia crer que algo que eu falei tivesse força para influenciar a sua vida.

Por que você não me falou que era padre?

─ Comecei como um padre. Mas um dia achei que era pouco. Busquei muito mais. Aprendi muito mais. Porém, cheguei a um ponto em que nada mais fazia sentido...

─ E eu, estabanado, dizendo justo para você que a religião era apenas uma muleta ─ comentei envergonhado.

─ Mas foi você, Marcelo, que me fez perceber que a religião, a vontade de me “religar” com Deus, é que me motivou a tentar crescer como ser humano. Você conhece outra forma para despertar as pessoas?

─ Não sei... É que parece que todas as guerras sempre tem a religião no meio... Mas quem sou eu para criticar e chamar de muleta a religião dos que se organizam tentando melhorar o mundo? Se eu mesmo não tento melhorar nem a mim mesmo...

─ Um dia conseguiremos andar com nossas próprias pernas. Uma alma pura não precisa de livros de regras e códigos de ética... Muletas... Mas, por enquanto, ainda precisamos da religião que serve como um freio para a maldade humana. Contudo, precisamos de uma religião que indique o caminho para o crescimento individual, e não as que manipulam as pessoas com fanatismo cego.

─ Nossa! Que vergonha. Como fui petulante... Esse tempo todo me achando o protagonista... Mas sou apenas um coadjuvante... Essa história é a sua história.

─ Voltei para a igreja porque como um padre eu posso ajudar muito mais. E, afinal, não importam as vestes, crenças ou rituais, e sim a maneira como se vive. Não somos nem melhores, nem piores do que os outros. Todos nós temos uma função nessa enorme engrenagem que é o universo. Apesar de todo o meu esforço, foi um mendigo que lhe ajudou a recuperar a sua autoestima.

─ Talvez eu tenha menosprezado o valor da religião...

─ Não Marcelo! Buscar Deus não é só religião, não é só decorar regras e impor rituais. Buscar Deus é tentar encontrar a perfeição. É tentar melhorar como pessoa. É descobrir qual é o nosso limite de compreensão e ir um pouco além, ampliando ao máximo a nossa consciência.

─ Então toda aquela história de “ganhar dinheiro” era apenas uma isca?

Agenor gesticulou, abrindo os braços, encolhendo os ombros e sorrindo.

─ Agora estou entendendo as suas manobras. Todos aqueles livros que você me emprestou, sobre pensamento positivo e de como conquistar o sucesso, falavam basicamente a mesma coisa: Se eu crescesse como ser humano, a tranquilidade financeira viria como uma simples consequência.

─ E agora? Você está pronto para vencer o seu segundo desafio? Perguntou o padre Agenor, pegando meu braço e colocando algo em minha mão.

Quando olhei para o que ele me deu, não consegui mais segurar o choro que por tanto tempo esteve preso em minha garganta.

─ Está na hora de você preencher aquele vazio que sente no seu peito.

Um forte arrepio percorreu todo o meu corpo. Lembrei do olhar de cumplicidade entre minha mãe e Agenor.

Finalmente voltou para as minhas mãos, a pequena cruz de prata que meu pai tentara me dar em seus últimos momentos de vida.

Você está pronto? Agenor tornou a perguntar, olhando fixo em meus olhos.

Não consegui mais me conter. E como resposta à sua pergunta eu o abracei. As sofridas lembranças de meu pai me fizeram apertar aquele abraço. As lágrimas, desta vez, eram mornas de alívio e felicidade. Senti que finalmente um longo inverno em minha vida chegava ao fim. A revolta e a amargura daqueles anos todos não faziam mais sentido. Depois de tudo que Agenor me fizera ver, eu não poderia mais viver negando Deus.

Entendi finalmente a origem da minha melancolia: A angustiante falta e a estranha saudade que corroíam o meu peito eram, na verdade, o vazio deixado pela ausência de Deus em meu coração.

Aliviado olho para a cruz no altar: “Se eu não conheço toda a verdade, devo tentar seguir quem está mais próximo dela”. Aspirando o ar profundamente, tento encher os meus pulmões com a extasiante energia que pairava na igreja, expirando em seguida, expelindo toda a amargura que ocupou durante tempo demais o meu coração.

 

 

Epílogo

A frase certa.

Um novo Marcelo desceu as escadarias da igreja naquele dia. Deu uma enorme gorjeta ao rapaz que se ofereceu para cuidar do seu carro, que aguardava em frente à igreja, encostado no carro de Agenor, ocupando o mesmo lugar em que Marcelo estava há poucos instantes.

Marcelo atravessou a rua e foi até o seu carro, que estava estacionado do outro lado da rua, nas sombras das árvores de uma pequena praça.

Abriu os vidros do carro e ligou o som. Ficou ali por alguns instantes e a letra da música “Quase Sem Querer”, que tocava em seu carro e expressava todo o seu sentimento, invadiu a paisagem com a rua agora quase deserta.

 

Tenho andado distraído,

Impaciente e indeciso

E ainda estou confuso,

Só que agora é diferente:

Sou tão tranquilo e tão contente

Quantas chances desperdicei,

Quando o que eu mais queria

Era provar pra todo o mundo

Que eu não precisava

Provar nada pra ninguém

Me fiz em mil pedaços

Pra você juntar

E queria sempre achar

Explicação pro que eu sentia

Como um anjo caído

Fiz questão de esquecer

Que mentir pra si mesmo

É sempre a pior mentira,

Mas não sou mais

Tão criança a ponto de saber tudo

Já não me preocupo

se eu não sei por que

Às vezes, o que eu vejo,

quase ninguém vê

E eu sei que você sabe,

quase sem querer

Que eu vejo o mesmo que você

Tão correto e tão bonito

O infinito é realmente

Um dos deuses mais lindos!

Sei que, às vezes, uso

Palavras repetidas,

Mas quais são as palavras

Que nunca são ditas?

Me disseram que você

Estava chorando

E foi então que eu percebi

Como lhe quero tanto

Já não me preocupo se eu não

sei por que

Às vezes, o que eu vejo,

quase ninguém vê

E eu sei que você sabe,

quase sem querer

Que eu quero o mesmo que você.

 

O jovem, encostado no carro de Agenor, cantarolou a música, mas não prestou atenção ao que a letra dizia.

O barulho característico do alarme do carro sendo desligado desperta o rapaz, que percebe a chegada do seu último cliente, o padre Agenor, agora sem a sua túnica, descendo as escadarias da igreja.

A rua quase deserta, as árvores da pracinha, a igreja com a sua escadaria, o céu azul, a cruz no alto da torre, com os pombos voando ao redor, tudo isso servia como um pano de fundo para uma outra história que estava apenas começando.

Alguém que tivesse a sensibilidade de observar, mesmo de longe, poderia sentir a emoção impregnando o ar, com a letra da música ainda ecoando na mente. Alguém atento teria percebido que Agenor ficou um tempo conversando com o jovem rapaz que cuidava dos carros.

Mesmo de longe seria possível perceber que Agenor pegou um giz do bolso, riscou uma linha na calçada, deu dois passos para trás, bateu as mãos para tirar o pó do giz e ofereceu a mão ao jovem.

E mesmo que você não pudesse ver a expressão do rapaz, tenho certeza que ficaria na torcida: Vai! Dê esse passo! Cruze a linha! Comece a sua história!

 

Somos todos sócios nessa sociedade, muitas vezes injusta, mas que está em constante construção. Todos nós desempenhamos um importante papel neste enredo, nesta trama, que existe exclusivamente para que cada um possa evoluir e ampliar a própria consciência.

Em muitos momentos você se sente um Marcelo, precisando muito de um Agenor. Mas pode ter certeza que muitas outras vezes, você é que é o Agenor de alguém.

O Agenor que você precisa, ou a mensagem que você precisa, nem sempre será alguém misterioso que irá surgir em sua vida.

Fique atento. O Agenor, ou a resposta que você precisa, as vezes você encontra na letra de uma música, em uma peça de teatro, ou na história contada em algum livro que está bem ali, só esperando que você leia.

Cada um desempenha um papel nesta engrenagem que é o universo. Não fico totalmente confortável quando sou chamado de escritor. Mas gosto muito da expressão “contador de histórias”. É que eu sou um privilegiado por ter um mestre que me contou qual a minha missão nesta vida.

A minha missão é:

Dizer a frase certa. Para a pessoa certa. No momento certo.

O meu sincero desejo é que você tenha encontrado nesta história, pelo menos uma frase, que seja a frase certa para você neste momento de sua vida.

           

 

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ATENÇÃO!

 

            Este aviso é para aqueles que têm o estranho hábito de ler a última página antes de ler o livro.

            O ritmo dramático foi cuidadosamente estabelecido para que a leitura seja fluente e agradável.

Descobrir antecipadamente o final da história comprometerá o prazer da leitura.

 

 

 

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