Mudando o Amanhã
Silvio
Kurzlop
Capa:
Detalhe do afresco pintado por Michelangelo em 1508 no teto da Capela Sistina, Roma.
Revisão:
Fátima Maria Casselato
(Professora de Língua Portuguesa)
Otávio Schimieguel
(Professor de Língua Portuguesa Literatura)
Ilustrações:
Silvio Kurzlop
Edição do Autor
Impresso no Brasil
Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor.
Depósito legal número 228.572 Biblioteca Nacional
In
memoriam
Paulo Henrique Brito
Agradecimentos:
Alex Kurzlop (pai).
Vilmar Kurzlop (irmão e exemplo).
Representando a família em que tive a sorte de nascer.
Valdir Fagundes (ator e diretor de teatro).
Que me inspirou a fazer essa edição melhorada com os seus conselhos.
Para
Bruna, Lucas, Daniel e Gabriel.
“Razão
do meu viver”.
E
para Rosi
“Minha
vida”.
Capítulo 1
Onde eu iria parar seguindo aquele velho maluco?
─ O que eu faço
agora? ─ perguntei ao velho que estava sentado no banco da
praça, com as suas mãos desaparecendo nos bolsos da alinhada jaqueta.
Era uma fria tarde cinzenta de outono. A rua ainda molhada pela
insistente garoa fina que caíra até há pouco.
─ Você insiste
em raciocinar ─ disse-me o velho ─ tente apenas “sentir”, deixe a emoção te guiar.
Desconcertado pelos estranhos métodos
do velho, fiquei ali parado, em pé, à sua frente, olhando para uma barra de
chocolate em minhas mãos, sem saber o que fazer.
Estávamos na Praça Santos Andrade em Curitiba. À nossa esquerda as
escadarias da Universidade Federal do Paraná. No outro extremo da praça ficava
o Teatro Guaíra.
A praça estava agitada. Olhei em volta observando o movimento incessante
de pedestres desatentos, como zumbis, dançando numa sinistra coreografia, sem
se olharem e sem se tocarem, como se cada um amargasse a própria solidão, mesmo
em meio à multidão.
Percebi, no outro lado da rua, um mendigo sentado na marquise, enrolado
em um cobertor. Olhei para a barra de chocolate em minhas mãos tentando
adivinhar o que deveria fazer.
Agenor sempre arranjava estranhos desafios e eu precisava, literalmente,
adivinhar as suas intenções. Naquela tarde ele me presenteou com o meu
chocolate preferido. E depois deu uma série de instruções enigmáticas. E eu,
como sempre, não sabia o que ele esperava que eu fizesse.
Seguindo a minha intuição, atravessei a rua e entreguei o chocolate ao
mendigo.
─ Deus lhe abençoe!
O
largo sorriso de gratidão do mendigo dissipou o meu constrangimento, por não
conseguir entender direito as estranhas manobras do velho Agenor.
─ Esse é um ótimo jeito para
começar ─ falou o velho, quando sentei ao seu lado no banco da praça.
─ E agora? O que vamos fazer?
─ Esperar.
Conheci Agenor um ano antes, embrenhado em uma floresta na Serra do Mar,
acampado ao lado de uma imponente cachoeira de difícil acesso. Naquela ocasião,
eu não poderia sequer imaginar os eventos e experiências que aquele velho iria
provocar.
Depois daquele acampamento, estabelecemos uma sólida, porém estranha
amizade. Agenor havia me desafiado a colocar em prática alguns conceitos, dos
quais ele falava paciente e repetidamente, com a promessa de que, se eu seguisse
os seus conselhos, me tornaria rico.
O que no começo aparentava ser uma excêntrica brincadeira, aos poucos foi
me envolvendo, me encantando, ou para ser mais sincero, eu fui fisgado pela cobiça,
pois descobri que o velho, além de misterioso, era também muito rico.
Mas, por mais que me empenhasse em aplicar os seus ensinamentos, nada
mudava, eu continuava pobre.
Nos últimos dois meses, Agenor ficara ainda mais estranho. Desde uma
discussão que tivemos, onde como sempre eu não conseguia entender os seus
abstratos conceitos.
─ Vai demorar muito?
─ Tenha
paciência, Marcelo.
─ Paciência? Já estamos aqui há horas. Por que
tem que ser sempre assim? Sempre tão cheio de mistérios? Custa explicar o quê
estamos esperando?
Agenor
esticou as pernas, procurando uma posição mais confortável e levantou as golas
da jaqueta, que cobriam parcialmente o seu rosto.
─ Para poder te explicar qualquer
coisa, eu tenho que usar palavras. Mas o que eu tenho para te falar só vai
fazer sentido se as suas emoções forem as certas. Estamos esperando as emoções
certas.
─ E quais são as emoções certas? ─
Perguntei enquanto remexia a fita vermelha que o velho havia amarrado em meu
pulso, alguns meses atrás.
─ O que exatamente você está sentindo
agora?
─ Estou angustiado. É uma aflição
que sempre me persegue... Uma sensação de vazio. Como se me faltasse algo. É
como uma saudade não sei de onde... Não sei do quê... Não sei de quem.
Um leve toque em meu braço me desperta de minhas lamentações. Agenor, com
o rosto quase escondido nas golas levantadas de sua jaqueta, indica com o olhar
uma cena que se desenrola bem à nossa frente, do outro lado da rua.
O mendigo, para quem eu dei o chocolate, estava abaixado, juntando os
seus apetrechos que se esparramaram pelo asfalto, depois de um tombo
desajeitado, quando ele tentava atravessar a rua.
Uma caminhonete, dessas modernas, cheia de acessórios ostentando riqueza,
tenta passar, mas não consegue.
Olhando o mendigo ajoelhado guardando suas tralhas, não consegui deixar
de sentir pena. Solidário, tentei levantar para ajudar, mas Agenor com firmeza me
segura pelo braço, apontando para a caminhonete.
Só neste instante percebi que o motorista era muito jovem. Um rapaz que
não deveria sequer ter idade para dirigir e que gesticulava de forma arrogante
com a sua namorada.
Em determinado momento, o jovem motorista, com a autoridade de quem
sempre teve muito dinheiro e com a desvirtuada sensação de que o resto do mundo
existe só para lhe servir, estica a cabeça para fora da janela do seu símbolo
de status motorizado e, irritado com a espera, grita:
─ Seu monte de
estrume! Tire essa porcaria da frente que eu quero passar.
O mendigo, que continuava a recolher suas coisas, tão corajoso quanto
bêbado, respondeu com sarcasmo certeiro:
─ Vá trocar suas
fraldas seu moleque.
A garota que estava no carro não se conteve e sorriu.
O jovem motorista, que tentava há poucos instantes se mostrar mais homem
para impressionar sua acompanhante, foi atingido em cheio na ferida aberta em
seu orgulho.
Como podia ficar ele impassível a uma provocação dessas?
A sua raiva extrapolou os limites do aceitável ao ver o sorriso no rosto
de sua namorada e as gargalhadas de escárnio dos pedestres que paravam para
assistir.
Possuído pela cólera, seguindo um estímulo imponderado, o rapaz apanhou
sob o banco um chicote e descendo do carro atacou o mendigo, que se encolheu
tentando proteger o rosto com os braços.
O primeiro golpe estralou no ombro deixando uma marca próximo ao pescoço.
Eu havia me identificado com aquele pobre coitado. E aquela marca
vermelha parecia latejar em minha própria carne.
A exagerada atitude do moleque foi de tal maneira inusitada, que demorei
alguns instantes para reagir.
Levantei-me de supetão e atravessei a rua para defender o mendigo. Mas Agenor
me alcançou segurando com força o meu braço, impedindo-me de ajudar.
Uma nova chicotada fustigou o mendigo.
Agora, mais de perto, pude perceber que o chicote era feito com um pedaço
de cabo-de-aço, que assobiava ao cortar o ar, antecipando o sofrimento. O
arrepiante som do estralo do chicote nas costas do mendigo era abafado por seus
gritos desesperados:
─ Não, pelo amor
de Deus...
Curiosos, ávidos por violência, se acotovelavam à nossa volta formando um
círculo. Uma arena imaginária foi instalada no meio da rua. Cada um procurando
o melhor lugar para assistir a desordenada tentativa do indigente de se defender.
─ Ajudem! Façam
alguma coisa! Chamem a polícia ─ gritou uma velha e indignada senhora.
Porém, a platéia deste espetáculo bizarro, inconsciente e insensível pelo
próprio sofrimento diário, anestesiada pela mesmice de sua rotina mecânica, assistia
a tudo reagindo lentamente e sem emoções.
─ Aiii... Eu não fiz nada...
Pare...
Tento me desvencilhar de Agenor para socorrer o açoitado, mas o velho,
com rapidez e força, agarra meus dois braços por trás, me imobilizando.
O chicote subia e descia, zumbindo pavoroso, descarregando a raiva do
moleque, enquanto dilacerava a dignidade do mendigo.
─ Tenha
piedade... Chega...
Os fios de aço, que estavam irregulares na ponta do chicote, faziam
pequenos rasgos na camisa do pobre coitado que, além da sujeira acumulada,
ficava agora também manchada de sangue.
─ Por tudo que
é mais sagrado, pare...
Estimulado pela brutal violência, meu corpo fica trêmulo com o excesso de
adrenalina a circular nas veias, acelerada pelo coração descompassado. A
impossibilidade de intervir me causou tontura e náuseas. Era como se eu pudesse
sentir a dor e a humilhação do mendigo.
─ Por
misericórdia, pare...
O rapaz estava totalmente descontrolado, possuído por uma raiva predadora
e descomunal. A garota agarrada a sua jaqueta, tentava em vão fazê-lo parar.
Chorando ela implorava, mas não conseguia dissuadi-lo.
─ Tenha compaixão, chega...
A velha senhora encarava a multidão de covardes e continuava gritando,
apertando a sua bolsa como se fosse o pescoço daquele rapazinho endiabrado.
─ Isso é um absurdo. Alguém, pelo
amor de Deus, faça alguma coisa.
Insensível às súplicas da garota, aos gritos da velhinha e aos agonizantes
gemidos do mendigo, o rapaz continuava a chicotear a ousadia petulante daquele
atrevido.
─ Aiii, eu não
aguento mais...
Eu travava os meus dentes, cada vez que o chicote assobiava cortando o ar,
e me encolhia esperando os golpes que pareciam doer em meu próprio corpo.
Lágrimas contornavam as rugas no rosto da velhinha, que estampava em seu
semblante todo o assombro e o pavor daquela cena.
─ Isso é desumano...
─ Por que você não me deixa
ajudar? ─ Gritei com o velho, tentando me desvencilhar.
─ Olhe! Preste atenção! ─ Falou o
velho me chacoalhando pelos braços firmemente.
Repentina e inesperadamente, o mendigo urra de forma animalesca e levanta-se
num salto, cerrando os punhos, afrontando o seu algoz.
Assustado com o estrondoso e aterrador trovão irrompido da boca de sua
presa, o rapaz, com os olhos arregalados e com gestos hesitantes, desfere ainda
o derradeiro golpe que explode no rosto da vítima, onde aparece
instantaneamente um vergão avermelhado.
O rapaz, como se somente naquele instante tivesse acordado e percebido o
exagero de sua atitude, dá um passo para trás um tanto desconcertado.
A velha senhora pára de gritar. Um enorme suspense mantém esbugalhados os
olhos da pequena multidão. O berro do mendigo parecia ter silenciado o mundo.
Atônito, o rapaz percebe a expressão de fera no olhar do mendigo, que lhe
encara tornando a gritar furiosamente como se já não sentisse mais a dor.
Gritando enlouquecido, com os olhos injetados de um ódio selvagem, com as
veias a lhe saltar do pescoço e com os dentes à mostra, o mendigo estufa o
peito e, com a coragem que tirou nem ele sabe de onde, aproveita-se do torpor
letárgico do moleque para arrebatar-lhe o chicote.
E eis que as posições se invertem. Caça vira caçador. A vítima supera o
carrasco.
Foi tentando se defender e agindo de forma puramente instintiva que o
mendigo conseguiu tomar o chicote das mãos de seu agressor.
O jovem presunçoso não esperava que aquele farrapo humano tivesse o
atrevimento de reagir.
O mendigo, finalmente ereto, percebeu que era mais alto e mais forte do
que aquele fedelho. Foi muito fácil arrancar o pedaço de cabo-de-aço das mãos
do moleque e com a mesma fúria retribuir os golpes.
Sentindo a dor das chibatadas, toda a arrogância do rapaz cai no asfalto
junto com o seu corpo enroscado fugindo da dor.
─ Isso! Assim
mesmo! Bem feito! ─ recomeça a gritar a velhinha, vibrando e esmurrando a própria bolsa.
A garota se afasta alguns passos, mantendo os olhos fixos naquela
inusitada cena. Parando de chorar, ela contempla o castigo de seu namorado sem interferir,
talvez por achá-lo merecido.
Depois de uma breve seqüência de chicotadas frenéticas, o mendigo cessa a
punição, joga o chicote sobre o rapaz e, com a ajuda da velhinha, agarra às
pressas os seus pertences e desaparece, misturando-se aos pedestres que aos
poucos dispersam, finalizado o espetáculo, voltando à sua monotonia autômata.
A garota ajuda o seu namorado a se levantar, consolando-o como a um
menino, e o conduz de volta a caminhonete.
Eu ali parado, com Agenor a me segurar os braços, ainda aturdido com o
que acabara de presenciar.
A arena imaginária se desfez. A praça retomara sua cadenciada rotina, mas
o eco daquele trovão ainda ressoava em minha mente.
Assim que consegui regressar ao meu habitual raciocínio, explodi em
perguntas:
─ Era isso que
você queria que eu visse? Como é que você sabia que isso aconteceria? Qual a
relação do que aconteceu aqui com o que você quer me ensinar?
─ Cale-se! Pare
de raciocinar ─ retruca Agenor sacudindo-me pelos braços. ─ Não pense, procure “sentir”.
─ Sentir o quê? ─ perguntei já
ficando desesperado com aquele mistério todo.
Visivelmente decepcionado, o velho caminha em direção ao seu carro
estacionado logo à frente. Ouço o barulho do alarme sendo destravado.
─ Não estou
entendendo nada. Eu preciso de uma pista, me ajude ─ gritei ainda
parado no meio da rua.
─ Se você
prometer ficar calado, pode vir junto ─ respondeu Agenor, já entrando no carro.
Como Agenor pôde prever aquilo tudo? O que ele pretendia me ensinar? Onde
eu iria parar seguindo aquele velho maluco?
Minha curiosidade não me deixou outra opção: Resignado, entro no carro
como um peixe mordendo a isca.
Capítulo 2
O amanhã ainda não tem forma.
Após dirigir por alguns minutos sem dizer uma palavra, Agenor estaciona o
carro próximo ao mirante de uma represa transformada em parque nos arredores da
belíssima cidade de Curitiba.
Depois de um dia inteiro nublado e com garoas esparsas, finalmente vejo o
sol, escondido acanhado por trás de densas nuvens, quase debruçado no horizonte.
Alguns raios esquivos refletiam, tingindo o céu com tonalidades de vermelho.
O mirante do Passaúna é uma estrutura metálica erguida na encosta de um
morro, com uma escadaria que conduz a uma plataforma elevada.
Apoiados na mureta de proteção do mirante, Agenor e eu ficamos calados
contemplando a paisagem: Um enorme lago artificial formado num vale por uma
represa, com caminhos tortuosos cheios de pontes contornando toda a extensão
das margens.
─ Como você sabia que tudo aquilo
iria acontecer lá na praça? ─ Perguntei tentando começar uma conversa.
─ Não fale nada ainda. Concentre-se apenas
em seus sentimentos ─ ordenou
Agenor.
Debruçado na grade de proteção do mirante, o velho admirava o pôr do sol
no horizonte, enquanto eu remexia na fita vermelha amarrada em meu pulso.
Uma fresta de sol no horizonte, com o céu quase todo nublado, despertou a
imagem de uma luz no final de um imenso túnel.
O silêncio imposto pelo velho acalmou aos poucos o frenesi causado pelo
incidente com o mendigo e conseguiu trazer de volta aquela melancolia do começo
da tarde.
Tentando seguir as instruções de Agenor, avaliei quais poderiam ser as
raízes dessa tristeza. Um pensamento puxando outro, num entrelaçado de sentimentos
confusos e acabei por relembrar episódios amargos ocorridos ao longo de minha
difícil vida.
Recordei do último natal, quando meu filhinho pediu inocentemente ao
Papai Noel da loja de brinquedos, uma bicicleta que ele namorava na vitrine.
Infelizmente eu não pude comprá-la, porque era necessário estabelecer
prioridades e, definitivamente, comida era mais importante.
Sofri duplamente ao experimentar o que meu pai sentiu quando eu, ainda
criança, pedia coisas que não se encaixavam no parco orçamento familiar.
Meu pai... Quanta saudade!
Uma recordação puxando outra e voltei àquele momento crucial. Sentia-me
novamente um garoto de doze anos, olhando minha mãe ajoelhada rezando ao lado
do meu pai doente.
Ainda consigo ouvir os gritos suplicantes de minha irmãzinha, enquanto
meu pai desistia da vida, afundado naquela maldita cama que o aprisionara
durante tantos anos.
Com o coração pequeno, esmagado pelas lembranças expostas como feridas
pelo abominável sentimento de autopiedade, as lágrimas do garoto que eu fui um
dia começaram a rolar pelo meu rosto, agora adulto, distraído a contemplar o
lago.
Estava tão profundamente envolvido nesse masoquismo mental, que não
percebi Agenor sorrindo, olhando-me com ares de triunfo.
─ Não, pelo amor
de Deus, chega! ─ gritou o velho imitando com perfeição teatral o mendigo daquela tarde, se
encolhendo e tentando se proteger com as mãos, como se alguém o estivesse
açoitando.
Eu, que ainda remoía em minhas lembranças o sofrimento e as humilhações
que suportei na vida, infligidas pela pobreza, encarei o velho buscando
explicações.
Agenor estava muito agitado. Olhava curioso procurando alguma coisa em
meus olhos. E eu, cada vez mais confuso.
─ Tenha piedade,
eu não aguento mais ─ insiste Agenor gesticulando como o mendigo a se encolher, com a voz em
falsete e um largo sorriso escancarado no rosto.
─ É que a vida tem sido injusta
comigo ─ tentei explicar minhas lágrimas.
Agenor se endireita, ajeita a sua
roupa e torna a levantar as golas da jaqueta.
─ Você está
pedindo esmolas para a vida! Por isso se identificou tanto com o mendigo...
Você é que é um mendigo... Quem só sabe pedir esmolas, tem que aprender a se
contentar com as migalhas ─ falou Agenor solenemente.
Subitamente comecei a entender o que o velho tentava me mostrar esse
tempo todo.
Era mais do que entender, parecia que meu corpo todo assimilava, de uma
só vez, tudo que Agenor tentara me ensinar nos últimos meses. Compreendi que
fora passivo a vida inteira. Como uma marionete, sempre manipulado pelas
circunstâncias. Jogado de um lado para outro pelos ventos da miséria e do medo
da pobreza.
─ Você se
entrega a um autoflagelo. Você usa a falta e dinheiro como um chicote. Você é o
seu próprio carrasco. Você gosta de sofrer ─ disse o velho.
─ Que absurdo,
eu nunca procurei o sofrimento.
─ Quem não
procura melhorar de forma consciente, é arrastado inconscientemente, levado
pelos infortúnios da vida ─ falou Agenor de forma séria e pausada.
─ Mas eu sempre trabalhei duro tentando melhorar de vida...
─ Besteira! Você
trabalha porque a sociedade assim estabeleceu, porque se sente obrigado.
─ Isso não é
verdade. Eu gosto do que faço e estou realmente me esforçando para realizar os
meus sonhos.
─ Engane a si
mesmo. Você também disse que admira quem fala outros idiomas, mas nunca se
esforçou verdadeiramente para aprender outra língua. Falou-me do quanto acha
bonito poder tocar bem um instrumento musical, do seu sonho de tocar violão,
mas nunca se aplicou de forma séria e decidida neste sentido.
─ Mas não
estamos falando de ir para a escola aprender música ou língua estrangeira...
─ A conversa é
sobre força de vontade ─ continuou o velho, sem me deixar falar. ─ São
necessárias ambição e determinação para chegar a algum lugar. Saber aonde quer
ir, tendo um sonho definido, acreditando nele, defendendo-o com unhas e
dentes...
Conforme o velho discursava, meu ânimo se alterava. Senti um calor
emanando do centro do meu corpo. Era como se eu estivesse aumentando de
tamanho.
─ Dê força para
o seu sonho, alimente-o com garra e persistência, ele vai crescendo, criando
vida própria. Chegará a um ponto em que a sua obstinação o tornará tão forte
que derrubará qualquer obstáculo que atravesse seu caminho. E o que era só uma
idéia no começo se tornará realidade pela sua força de vontade.
─ Depende de
você dominar ou ser subjugado pelo dinheiro ─ falou Agenor esperando minha reação.
Fui tomado por uma agradável sensação de poder.
─ Claro que
prefiro dominar o dinheiro.
─ Não Marcelo.
Pare de raciocinar. Tente “sentir” ─ protestou Agenor. E com um gesto mostrando o estômago
completou: ─ Começa aqui. É como se nascesse em suas entranhas e fosse crescendo até
explodir na sua garganta.
Lembrei da inusitada cena que presenciei na praça naquela mesma tarde. A
expressão do mendigo quando reagiu instintivamente tomando o chicote das mãos
do seu agressor. Agora eu finalmente entendia: A cada humilhação causada por dificuldades
financeiras no passado, reagi com lamentações: “Por favor, pare. Tenha piedade.
Pelo amor de Deus, eu não agüento mais”.
─ Todo ser
humano possui, inclusive aquele mendigo, uma força interior latente, pronta
para se manifestar. Você vai usar essa força agora? Ou pretende continuar a se
encolher e passar a vida sofrendo?
Envergonhado, sequei minhas lágrimas com as mangas da camisa.
─ Chegou o
momento de dar um basta à mazela e à mendicância, agarrando o chicote do
conformismo, do indesejado hábito inconsciente de se justificar reclamando, e
conquistar o dinheiro, como símbolo da alforria. Arrebentar com determinação os
grilhões da pobreza assumida, exigindo a real liberdade: O direito a uma
qualidade de vida digna e decente.
Agenor falou de forma enfática, fazendo um gesto unindo os pulsos e
depois separando, para simbolizar a quebra de algemas, quando se referiu a
arrebentar os grilhões da pobreza.
Agarrado à mureta de proteção, apertando o ferro como se tivesse força
para amassá-lo, com todos os músculos retesados e com os dentes travados, tal
qual criança a segurar o choro, eu senti brotar um grito.
─ O seu ontem já
passou, não tem mais jeito. O seu hoje é a colheita do que você plantou, é
muito difícil mudar instantaneamente. Mas o seu amanhã ainda não tem forma, só
depende de você ─ concluiu o velho.
Tudo que o velho Agenor me ensinara em todos aqueles meses, de repente
fazia sentido. A verdadeira mudança não ocorre no cérebro. Podemos pensar,
traçar planos, sonhar, mas para transformar tudo isso em realidade é necessária
uma mudança mais profunda, uma mudança de atitude.
─ Vamos! Não pense. Procure sentir.
O velho Agenor, com o olhar brilhante, fazia sinais com as mãos, me
incitando a externar os meus sentimentos.
Um enorme desejo de gritar se formou no meu íntimo, explodindo em seguida
garganta afora. Um berro sobrenatural que arrepiou todos os pêlos do meu corpo
e ecoou no lago à nossa frente, que refletia os últimos raios avermelhados de
um sol agonizando no meio das nuvens.
Gritei como uma fera que arreganha os dentes, com a boca esgarçada, com
as veias do pescoço saltadas, sentindo meu corpo vibrando a emoção de saber que
eu também tinha direito a toda fartura do universo. Era um grito assustador,
exorcizando um passado de fracassos e lamentações.
Agora eu entendia a força que se apoderou do mendigo quando reagiu
naquela tarde. Parecia mágica. Eu me sentia com poder para fazer o que bem
entendesse com o meu destino daquele momento em diante.
Colocando um braço sobre o meu ombro, Agenor sussurra em meu ouvido, como
quem conta um segredo:
─ Guarde esse
momento com carinho, lembre-se sempre dessa sensação, ela pode te levar aonde
você quiser.
Talvez eu nunca consiga traduzir em palavras todo o impacto que as
estranhas lições de Agenor causaram em minha vida. Mas posso tentar narrar como
tudo aconteceu, desde o começo...
Capítulo 3
Na cachoeira só existe um bom
lugar para acampar... e esse é o prêmio para quem vence a “corrida”.
Conheci
o velho Agenor no verão passado, na mesma época em que perdi o meu emprego.
Fiquei
tão conturbado e a pressão chegou a tal extremo, que tive de apelar para a
minha válvula de escape preferida: aproveitar o fim de semana para pegar o trem
que liga Curitiba à Paranaguá, descer no meio do caminho, e acampar em plena
floresta, no coração da Serra do Mar.
O barulho cadenciado do trem e a preguiça matinal estabelecem uma
tranqüilidade harmoniosa na primeira hora da viagem, quebrada pelo alvoroço dos
passageiros assim que passamos a terceira estação.
Era fácil identificar entre os passageiros, os que faziam a viagem pela
primeira vez. Ficavam eufóricos de encantamento com a deslumbrante paisagem ao
redor daqueles trilhos que se esgueiram por entre morros, ora passando por
pontes metálicas centenárias, ora sumindo pelos inúmeros túneis do caminho.
Estava na hora de iniciar o ritual: guardar todos os apetrechos na
mochila, deixando o cantil bem à mão. Verificar se estava tudo bem preso. Era vital
para o sucesso da caminhada que as mãos ficassem livres.
Ainda faltavam duas estações para chegar, mas como sempre eu me levantei
e percorri todos os vagões até chegar ao que ficava ligado a locomotiva.
Caminhar no trem em movimento é prazeroso, balançando ao matraquear
ritmado dos trilhos. Os estalos crescem aos poucos, vindos do vagão da frente, ressoando
mais alto sob os meus pés e se perdendo nos vagões traseiros, enquanto uma nova
série recomeça lá na frente. Mas andar assim requer um pouco de habilidade,
para evitar bater com a pesada mochila nas cabeças dos outros passageiros.
Quando passei pelo penúltimo vagão encontrei o Índio, um conhecido de
outras viagens, que recebera este apelido pela fama de ser um profundo
conhecedor daquela região da floresta. Na realidade, ele é que me ensinara o
caminho para a cachoeira que íamos. Além de sua namorada, três rapazes o acompanhavam,
com ansiedade e euforia estampadas em suas fisionomias, deixando transparecer
tratar-se de novatos naqueles caminhos.
─ E aí Marcelo?
Se escondendo no último vagão? ─ perguntou Índio enquanto nos cumprimentávamos, batendo as palmas das
mãos e depois dando um toque com os punhos cerrados.
─ Como sempre. O último vagão é
sem dúvida o melhor lugar ─ respondi.
Cumprimentei os amigos de Índio
com o mesmo tapinha, seguido do toque de mãos fechadas. E dei um beijo no rosto
da sua namorada.
─ Melhor lugar? ─ perguntou a
namorada de Índio.
─ O Marcelo prefere viajar lá
atrás para ficar longe da fumaça e do barulho da locomotiva ─ explicou Índio.
─ E do lado esquerdo ─ completei.
─ É óbvio. Onde tem a melhor
vista ─ falou Índio olhando para a paisagem lá fora.
─ Estão indo para o salto? ─
Perguntei.
─ Vou apresentar esses novatos
aqui para aquela maravilha ─ respondeu Índio apontando para os amigos.
─ Pelo caminho certo? Ou vai ser
um batizado?
Índio dá uma sonora gargalhada e
depois explica a situação para a namorada e os amigos.
─ Fui eu quem levei o Marcelo
para a sua primeira subida ao salto.
─ E me fez caminhar por horas em direções
erradas, pelas trilhas abertas pelos palmiteiros. Chegamos ao salto quando já
estava quase escurecendo ─ expliquei.
─ Era o “batismo”. Quem quer conhecer
o Salto dos Macacos tem que pagar o preço.
─ Eiii! Nem se atreva ─ fala a
namorada de Índio com o dedo em riste, após lhe dar um empurrão.
Índio solta uma nova gargalhada e
abraça a sua namorada.
─ Nos vemos lá em cima ─ falei me
despedindo e seguindo em direção ao primeiro vagão.
─ É. Perdemos a plataforma ─ resmungou
Índio.
─ Aquele melhor lugar para acampar
que você falou? ─ Perguntou um dos amigos de Índio.
Índio balançou a cabeça
desanimado.
─ E se apressarmos o passo? ─ Perguntou
a namorada.
─ O Marcelo é “macaco velho”. Já
está indo para o primeiro vagão.
A namorada faz um gesto não
entendo a resposta de Índio.
─ Do primeiro vagão, Marcelo
desce direto no começo da estradinha que dá acesso ao salto. Não teremos
chances. Já perdemos a corrida ─ concluiu Índio.
Capítulo 4
Escorreguei na pedra lisa e mergulhei na água fria.
A primeira parte do percurso a pé
foi fácil vencer, meia hora de caminhada morro abaixo por uma pequena e
precária estrada e pronto, lá estava eu na margem do primeiro rio que teria de
atravessar.
Essa era a parte mais difícil. O rio não era muito largo: no máximo vinte
metros. Nem muito fundo: escolhendo o local certo para atravessar, nem molharia
a mochila. O problema era a correnteza.
Águas transparentes passando ligeiro por entre pedras de todos os
tamanhos, formando véus brancos majestosos, quase encobertos pelas enormes
árvores que se debruçavam sobre o rio, a partir das margens fechadas por densa
vegetação.
De pé sobre uma enorme pedra, avaliei por instantes o desafio à minha
frente. Nunca havia atravessado este rio sozinho. Em grupo é fácil, é só fazer
uma corrente humana dando as mãos, alguém sempre vai estar apoiado em alguma
pedra, facilitando a passagem.
Resolvi arriscar. Escolhi o que parecia ser o melhor local e fui à luta.
Na metade da travessia deparei com um obstáculo que parecia intransponível. Um
espaço de mais ou menos três metros me separavam da parte mais rasa do rio.
Mesmo assim, imprudente, tomei impulso e tentei atravessar direto. E fui mesmo
direto... ao fundo.
Brigando com a correnteza, escorreguei na pedra lisa e mergulhei na água
fria. Desequilibrado pelo peso da mochila, eu fui arrastado rio abaixo só
parando após dolorosa joelhada em uma pedra, uns quinze metros depois. Saí do
rio vergonhosamente encharcado e mancando.
Capítulo 5
Caminhei apressado, contornando uma grande pedra e,
estupefato, não pude acreditar no que vi.
Do rio maior até a cachoeira foram
quase duas horas de caminhada, num estafante sobe e desce por trilhas que
ziguezagueavam mato adentro. Havia trechos onde era necessária uma escalada, me
agarrando a árvores e cipós para vencer morros íngremes.
O barulho da água avisava antecipadamente quando um dos sete pequenos
rios do caminho se aproximava, eram os momentos de descanso e de se refrescar.
A floresta, por vezes tão úmida e fechada, com tantas árvores altas, que só era
possível saber que havia um sol lá em cima, pelo calor sufocante. Os ruídos da
mata, ora musicais, ora assustadores, tratavam de lembrar que eu não estava
sozinho. O passo apertado pela teimosia de chegar à frente manteve a roupa
molhada pelo suor durante todo o percurso.
Essa cachoeira é realmente especial. Todo o sofrimento do fatigante
trajeto é esquecido já nos primeiros instantes da chegada. Ao tirar das costas
a mochila com os quase quinze quilos de itens necessários para acampar por um
final de semana, eu sinto uma agradável tontura. Fico ali parado na entrada
desse lugar imponente, boquiaberto como da primeira vez que ali estive.
À minha frente um rio de água límpida rasgando a rocha. À direita o Salto
dos Macacos, uma cachoeira de cinquenta metros de altura, caindo sobre uma
rampa de pedra que termina num fosso, local preferido pelos visitantes para se
escorregarem sentados pedra abaixo mergulhando na água fria e transparente. Deste
ponto até o Salto do Redondo, que fica cinquenta metros à esquerda, existem,
além de pequenos saltos, quatro piscinas naturais. Tudo isso cravado no que
parecia ser uma única e gigantesca rocha, com árvores altas e mata fechada nas
duas margens.
Tudo tão grande e majestoso, que me sinto pequeno ali parado esvaziando o
cantil sobre meu rosto inclinado para trás, tentando lavar o suor e o cansaço,
quando ouço o barulho de metal caindo.
O local não era silencioso; ao contrário, a batalha incessante das águas
com as pedras produz uma estrondosa e contínua sinfonia. Mas o barulho de metal
batendo na rocha se destaca por contraste.
Caminhei apressado contornando uma grande pedra e, estupefato, não pude
acreditar no que vi. Um velho com quase três vezes a minha idade armando uma
barraca na “minha” plataforma.
Mas como? Eu fizera tudo certo.
Imprimi um ritmo de caminhada tão forte que no último trecho, a subida do
morro, eu avistei o grupo do Índio subindo atrás e, pela distância, calculei
uma vantagem de no mínimo quinze minutos.
Só tem um trem passando naquela estação, e eu estava nele. Desci antes
que parasse totalmente e caminhei por quase três horas, desmanchando
Não contive a curiosidade, me aproximei e assim que consegui “quebrar o
gelo” com as apresentações, apertos de mãos e comentários sobre o tempo, eu fui
logo ao que me perturbava perguntando:
─ Que trilha
você pegou para chegar aqui tão rápido?
─ Atravessei o
rio maior lá embaixo onde tem aquela pedra grande ─ respondeu ele
com naturalidade.
─ Achei que iria
chegar primeiro ─ falei justificando minha curiosidade.
─ Percebi que
não tinha ninguém aqui em cima, logo que atravessei o rio.
─ Além de atleta
você também é adivinho?
─ Não. Só
observador ─ explicou ele. ─ Notei que havia muitas teias de aranha pelo caminho, foi fácil concluir
que eu estava na frente.
─ Puxa! Como eu não me toquei disso
antes? Hoje não foi necessário benzer o caminho ─ falei dando um tapinha em
minha própria testa.
─ Benzer o caminho? ─ Perguntou o
velho com uma expressão exagerada de curiosidade.
─ Sim! Sempre que subimos alguém
vem na frente agitando uma varinha para tirar as teias de aranha do caminho.
O velho continuou a olhar sem
entender.
─ Benzendo... ─ expliquei
gesticulando como se agitasse uma varinha à minha frente.
O velho finalmente balançou a
cabeça e sorriu.
Os gritos e assobios de comemoração do grupo que acabava de chegar,
interromperam nossa conversa. Um incontido entusiasmo arremessou os três
rapazes com roupa e tudo na água fresca, enquanto Índio e a sua namorada se
aproximaram nos cumprimentando.
Apresentei ao velho o meu colega de acampamento que acabava de chegar e,
gentilmente, tirava a mochila de sua acompanhante.
─ Então o Índio te liberou do
batismo? ─ Perguntei para a namorada.
─ Batismo? ─ Perguntou o velho,
fazendo novamente aquela expressão exagerada de curiosidade.
Índio sorri e abraça a namorada
dando-lhe um beijo na testa.
─ É que o Índio costuma atormentar
os novatos, ou batizar como ele diz, fazendo eles darem várias voltas no
caminho antes de chegarem aqui ─ expliquei.
─ Temos um novo
campeão ─ brincou Índio apertando a mão de Agenor.
O velho ficou observando sem nada entender.
─ Você ficou com
a plataforma ─ expliquei apontando para a barraca, ainda sem me conformar com a derrota.
─ Peguei o lugar
de alguém? ─ perguntou Agenor com um malicioso sorriso de quem compreendera minha
frustração.
─ O troféu é de
quem chega primeiro ─ respondeu Índio. Depois, virando-se para mim, complementa: ─ Marcelo, para
nós resta cortar alguns galhos para forrar aquela clareira encharcada, que é o
lugar dos perdedores.
Havia um tom de vitória na voz de Índio. Desta vez eu era mesmo o
perdedor. Ele pelo menos iria ter com quem passar a noite.
Capítulo 6
Alguns pássaros voavam em torno dele, tão próximos que se esticasse
o braço poderia tocá-los.
O tempo naquela floresta atlântica
era muito instável e, apesar do sol brilhar pela manhã, choveu durante a
tarde toda.
Preso na barraca, sozinho e sem ter o que fazer, eu não consegui relaxar.
Com os problemas que pensei ter deixado em Curitiba insistindo em me perseguir
numa tortura mental angustiante.
Era atormentado persistentemente pela imagem do chefe de pessoal com
aquela polidez toda, falando de crise e contenção de despesas, de critérios
adotados e que eu, infelizmente, era o mais novo na empresa. Não adiantaria
suplicar, falar das necessidades ou da minha competência, a decisão já estava
tomada: fui despedido.
A angústia tornava rarefeito o ar úmido e com cheiro de nylon da barraca.
O barulho da chuva deformava meus pensamentos com imagens mescladas de
pesadelos recorrentes. Como eu iria comprar comida para os meus filhos? É
difícil para um desempregado manter a dignidade. O tamborilar dos pingos da
chuva no nylon da barraca pareciam amplificados.
Lembrei do meu pai morrendo. Sentia-me novamente com doze anos de
idade. Meu pai em seu leito de morte.
Era o barulho da chuva? Ou seriam gemidos, rezas e lamentações? Uma cruz de
prata manchada de sangue na palma de minha mão. Minha irmãzinha chorando. Os
pingos da chuva pareciam intermináveis, como as rezas de minha mãe. O pesadelo
se repetia. Fugi para a floresta do mesmo jeito que arremessei a pequena cruz
contra a parede. Queria parar de pensar, fugir da responsabilidade, livrar-me dos
problemas.
De nada adiantou fugir para a floresta, a sensação de derrota veio na
bagagem tornando meu fardo ainda mais pesado.
A chuva parou quando a noite já estava chegando. Combinamos por iniciativa
de Índio, fazermos uma fogueira. Com a intenção de encontrar madeira seca, nos
espalhamos pelos arredores antes que a escuridão chegasse.
Encontrei Agenor sentado encostado a um paredão de pedras. Alguns
pássaros voavam em torno dele, tão próximos que se esticasse o braço poderia
tocá-los. Esse estranho velho estava envolto em uma atmosfera de mistério. Cada
vez que eu o olhava, uma inquietação me tomava.
Capítulo 7
De que adianta decorar todo o livro de regras, se você não
vive de acordo com elas?
Sentados em círculo, os três rapazes
a garota e eu, observávamos Índio tentando sem sucesso, atear fogo àqueles
gravetos meio úmidos, recolhidos em mutirão.
─ Seu Agenor, o
senhor não teria um pouco de álcool para nos emprestar? ─ perguntou
Índio ao velho que se aproximava emergindo da escuridão da noite que caíra
rapidamente.
─ Não tenho, mas
posso acender o fogo se a moça emprestar o repelente ─ respondeu Agenor
apontando para a namorada de Índio, que aplicava um spray contra mosquitos nas
pernas.
O velho acendeu um fósforo e colocou sobre uma das pedras que circundavam
os gravetos. Percebendo a expectativa e a curiosidade de todos, Agenor
movimentava-se com gestos lentos e calculados. Direcionou a lata de repelente
contra o palito de fósforo aceso e apertou o gatilho.
O lança-chamas improvisado rasgou a escuridão da noite sem estrelas, com
uma labareda intermitente, iluminando o espanto e a alegria nos rostos daquela
pequena platéia. Com um gesto simples, mas engenhoso, o velho deixou de ser um
intruso, conquistando um lugar em volta da recém acesa fogueira.
A conversa manteve-se animada por horas. Calado eu observava, sem
conseguir prestar atenção, disperso em pensamentos sombrios do futuro de
incertezas financeiras que me aguardava.
─ Não é verdade,
Marcelo, que você não acredita em Deus? ─ perguntou Índio à “queima-roupa”.
Demorei a entender, eu não sabia sobre o que falavam. O silêncio e a
expectativa do grupo a me encarar como se eu fosse um herege, forçaram-me a
responder.
─ Deus foi
inventado para amenizar o terror que o homem tem da morte ─ respondi
contrariado.
Eu não gostava de discutir esse
assunto, e o Índio sabia disso, mas fazia questão de me provocar sempre que
tinha uma oportunidade.
─ Quer dizer
então que você não freqüenta nenhuma igreja? ─ perguntou Índio com um sorriso irônico de
quem já sabia o que eu iria responder.
─ As religiões
são apenas muletas que servem de apoio aos desesperançados.
A garota escandalizada e boquiaberta parecia não acreditar no que acabara
de ouvir. O Índio sorria satisfeito com o resultado de suas provocações. O
velho, sempre tranqüilo, encostou-se para trás procurando visualizar a cena
como um todo.
Os outros três rapazes, chocados e indignados, começaram a falar ao mesmo
tempo, ofendidos com o meu comentário. Um deles se salientou, desandando a
citar a Bíblia com número de versículo e tudo, deixando transparecer além da
revolta, todo o seu fanatismo religioso.
Assim que a ostensiva pregação diminuiu, argumentei falando com vigorosa
rispidez:
─ De que adianta
ao crítico de futebol decorar todas as regras, avaliar a melhor opção de
ataque, se meter de forma pretensiosa a organizar o time, atormentar
arrogantemente a vida dos jogadores com palpites e estatísticas mirabolantes,
se ele mesmo é um tremendo “perna-de-pau”, não joga nada?
Essa aparente mudança de assunto fez o silêncio imperar novamente. Era
possível até ouvir a madeira estalando enquanto ardia no fogo. Fiquei alguns
instantes olhando as fisionomias distorcidas pela iluminação da fogueira.
─ Vamos
esclarecer ─ disse eu. ─ De que adianta você decorar todo o livro de regras e citar a Bíblia de
memória, com o número e o parágrafo da lei, se você não vive de acordo com
elas? Sempre discutindo com o seu semelhante, só tratando como “irmão” àquele
que compactua com seu credo. Reza em um momento e no seguinte está olhando e
desejando a mulher do vizinho.
Desta vez falei mais compassado, frisando bem cada palavra, e disse a
última frase encarando o jovem fanático, que flagrei esta manhã olhando furtivamente
a namorada do Índio tomando banho de sol.
Agora era o velho que sorria e Índio estava sério. Esperavam que os três
jovens revidassem para continuar a discussão. Mas o orador da turma estava
mudo. O que eu acabara de falar embaralhara seus pensamentos.
A chuva recomeçou apagando a fogueira, esfriando os ânimos e colocando um
ponto final naquela discussão constrangedora.
Capítulo 8
Cruzei aquela linha riscada no chão, e agarrei a mão
daquela intrigante oportunidade que a vida me oferecia.
Acordei na manhã seguinte com o
barulho dos meus vizinhos arrumando suas coisas, levantando acampamento.
─ Por que ir
embora tão cedo? ─ perguntei ao Índio. ─ O trem só passa às cinco da tarde.
─ Choveu a noite
toda, o rio deve estar cheio, vai dar trabalho atravessar ─ respondeu
Índio sem parar de desmontar a barraca.
Resolvi ir até a plataforma perguntar a Agenor à que horas ele pretendia
partir.
─ Vou descer à
tarde ─ respondeu ele, tomando café tranqüilamente sentado em frente a sua
barraca.
Expliquei ao velho a preocupação do Índio.
─ Fique calmo. Sente-se e
tome um café. Eu também retorno hoje para Curitiba e você vai comigo.
Mesmo incomodado com o autoritarismo do velho, resolvi aceitar o café.
Índio, ao se despedir, insistiu para que fôssemos juntos, argumentou que
tinha uma corda que facilitaria a travessia do rio.
─ Não se
preocupe ─ falou Agenor. ─ Não vai chover mais, e até à tarde o nível do rio deverá baixar um pouco,
ficaremos bem, façam boa viagem.
Conversamos por horas, sentados ali
naquela plataforma, até que Agenor tocou novamente naquele polêmico assunto.
─ Você não é
ateu!
─ Eu é que sei das
coisas em que acredito ─ falei me defendendo.
─ É necessário
muito mais convicção para defender este ponto de vista radical.
─ Ontem, quando
calei os amigos do Índio naquela discussão, você também não contra argumentou ─ falei tentando
ser mais incisivo.
─ O que você
mostrou ontem foi a sua amargura. Você não é ateu.
Agora já era demais, levantei contrariado.
─ Detesto
discutir esse assunto, ainda mais quando tentam me impor opiniões.
O velho levantou calmamente, esticou braços e pernas, os ossos estalaram
como se estivessem se encaixando.
─ Não me importo
com a sua crença. Mas posso resolver a
sua revolta.
─ Não sou
revoltado, só estou numa fase ruim com problemas financeiros.
─ Posso lhe dar
todas as informações necessárias para você ganhar dinheiro.
Olhei desconfiado para Agenor. O que estaria ele tentando me propor?
─ Você sabe
tocar algum instrumento musical? ─ perguntou ele.
─ Não. Sempre
quis aprender a tocar violão, mas nunca tive tempo de me dedicar ─ respondi
estranhando a mudança de assunto.
─ E você fala
alguma outra língua além do português?
─ Não.
Agora além de curioso, eu ficava também preocupado com o rumo da
conversa. Se fosse algum emprego que ele tentava me arrumar, pensei, eu acabara
de perder por falta de qualificação. Quase não domino o português, como iria
falar um idioma estrangeiro?
─ Ganhar
dinheiro é tão fácil quanto aprender a tocar violão ou falar fluentemente outra
língua.
Fiquei calado sem entender direito o que ele acabara de dizer.
─ É necessário,
em primeiro lugar, que você esteja realmente disposto a se dedicar ─ continuou a
falar Agenor. ─ Depois é só você entender como funcionam as leis que regem o assunto, que
técnicas foram desenvolvidas e mais utilizadas para atingir os mesmos objetivos
que você almeja. E, por fim, é só persistir com determinação, praticando por
tempo suficiente para: Dominando as palavras e seus segredos, se tornar um
poliglota. Ou, conhecendo as partituras e seus acordes, virar músico. Ou ainda,
aprender a controlar seus pensamentos e sentimentos que focalizados e
direcionados, vão lhe trazer sucesso e riquezas.
Eu olhava para Agenor tentando perceber se existia alguma proposta real
no que ele me falava. Um silêncio incômodo se instalou. Ele aguardando alguma
pergunta ou comentário meu, e eu esperando alguma coisa mais concreta para
poder me pronunciar. Agenor quebrou o impasse. Falando devagar e com ênfase
exagerada perguntou:
─ Marcelo, você
quer que eu lhe ensine a ganhar dinheiro?
Apesar do tom sério do velho, nada respondi achando tratar-se de alguma
brincadeira.
─ Vou ser mais
claro. Estou disposto a lhe ensinar algumas técnicas que irão deixá-lo
preparado para realizar seus sonhos ─ enquanto falava ele procurava alguma coisa no
chão. ─ Com seus métodos você chegou até aqui. Você é livre para decidir. Se
continuar adotando as atitudes que sempre tomou, continuará obtendo os mesmos
resultados. É, no mínimo, burrice esperar algo diferente.
Encontrando o que procurava, ele se abaixa e risca bem na minha frente,
com uma pedra argilosa, uma linha reta de uns dois metros.
─ Se você quiser,
eu posso lhe ensinar métodos diferentes e novos procedimentos.
─ Quero ─ respondi
desconfiado.
─ Do lado de cá,
com disposição e a atitude correta, sua vida poderá mudar. Você só precisa
aprender a confiar e dar o primeiro passo ─ disse o velho.
Agenor deu dois passos para trás, jogou fora a pedra, esfregou uma mão na
outra limpando o pó do giz improvisado e esticou a mão direita oferecendo-a em
cumprimento.
Olhei para a linha sob meus pés e para a mão daquele estranho. Ali estava
a proposta concreta que eu esperava. Mas era tão estranha e misteriosa que
titubeei por um instante. Senti um frio no estômago. Mas o desespero da minha
situação, e o sorriso tranqüilo daquele velho senhor me fizeram dar um passo à
frente, cruzando aquela linha riscada no chão, e agarrar a mão daquela
intrigante oportunidade que a vida me oferecia.
─ Parabéns ─ me
cumprimentou o velho, e olhando para o relógio completou: ─ A partir deste
domingo, duas e meia da tarde, sua vida começa a mudar.
─ O quê? Duas e
meia? Nós vamos perder o trem ─ gritei alarmado e saí correndo para desmontar
a barraca.
Capítulo 9
Se continuar adotando as atitudes que sempre tomou,
continuará obtendo os mesmos resultados.
Chegamos ao rio principal depois de
uma caminhada rápida e desgastante.
─ Que horas são?
─ perguntei a Agenor.
─ Quatro e meia ─ respondeu ele,
que havia tirado a mochila e estava dentro do rio, com água pelos joelhos,
lavando tranquilamente o rosto com as mãos em concha.
Era espantoso que alguém com aquela idade tivesse condicionamento físico
para resistir a uma caminhada tão forçada.
─ Se não
perdermos tempo com a travessia, conseguiremos chegar à estação a tempo de
pegar o trem ─ disse eu, tentando apressá-lo.
─ Chega de
correria. Tire a mochila e relaxe.
─ Está louco! Se
perdermos este trem, o outro é só amanhã à tarde.
Ele saiu do rio parando bem à minha frente me encarando. A água a
escorrer pelo seu rosto com expressão séria e olhar firme. Fiquei paralisado,
não conseguia raciocinar direito, meus pensamentos ficaram confusos.
─ Você fez a sua
escolha ─ disse o velho, ─ deu o primeiro passo. Agora é preciso que mude a sua atitude e aprenda a
confiar.
─ Eu não tenho
comida para ficar mais um dia.
─ Lá vem você
com medo de passar fome. O compromisso que você assumiu lá em cima não
foi comigo, foi com você mesmo. Aprenda a confiar na sua intuição.
─ Que intuição?
Eu nem acredito nisso. Sempre sigo o meu raciocínio, e ele me diz que se não
conseguir pegar aquele trem hoje, eu terei de acampar aqui novamente e passar
fome até amanhã.
─ Você poderia
estar comodamente sentado na estação com seus amigos, comendo um saboroso
sanduíche e tomando um refrigerante bem gelado ─ falou Agenor, dando uma pausa para
torturar-me com a idéia. ─ Mas a sua intuição o fez deixar que eles
partissem, e optar por ficar com um velho que mal conhece. Foi por isso que lhe
fiz aquela proposta lá em cima na cachoeira. Mas você é livre para escolher.
Dizendo isso, o velho se afastou caminhando pela margem do rio até uma
pedra maior, onde sentou calmamente.
Fiquei ali parado por instantes. Depois caminhei devagar por dentro da
água até o ponto em que havia caído no dia anterior. Parei novamente sem saber
o que fazer. O nível do rio estava mais alto e se tentasse atravessar sozinho,
certamente a correnteza me derrubaria. Olhei para Agenor que estava
tranquilamente sentado em uma pedra assistindo meu conflito.
─ Vou precisar
de ajuda ─ falei, tentando superar o meu constrangimento.
Agenor pareceu ponderar a situação durante alguns perturbadores segundos
silenciosos.
Finalmente, falando devagar, o velho começou a me orientar.
─ Primeiro
respire fundo, relaxe e olhe para o movimento da água. Coloque sua mão na
correnteza e sinta sua força. Desça devagar para a parte mais funda, segure-se
nessa pedra maior, ao seu lado.
Sem ter nenhuma outra opção, segui sem pensar as orientações detalhadas de
Agenor. A correnteza estava muito mais forte do que no dia em que caí, mas por
alguma estranha razão eu estava tranquilo e confiante.
─ Abaixe-se um
pouco, sinta a água bater em seu corpo ─ falou o velho se levantando em sua pedra. ─ Imagine o rio
como um ser vivo e respeite a sua força.
Meu corpo estremecia com o impacto do turbilhão da água apressada. O
estrondoso barulho passava a nítida impressão que o rio estava realmente vivo.
─ Calma, não se
afobe ─ aconselhava-me Agenor, agora aos gritos. ─ Use a força do rio para atravessar. Procure
manter-se
Não me pareceu muito lógico entrar naquele estrepitoso turbilhão, mas sem
pensar muito, soltei da pedra.
Fui arrastado pela vibrante violência das águas, mas surpreendentemente
calmo consegui boiar sentindo os meus pés tocarem nas pedras do fundo do rio.
O velho tinha razão: eu, no dia anterior “briguei” com o rio. E quanto
mais força eu fazia para firmar meus pés no fundo, mais fácil ficava para a
correnteza me derrubar.
Agora, seguindo os conselhos de Agenor, eu me entreguei à força do rio,
que me conduziu. Era como se eu estivesse dançando com as águas. Quando menos
esperava fiquei de frente com uma grande pedra, foi só me agarrar a ela, subir
e pronto, estava do outro lado.
Gritei eufórico, sem conter minha alegria, por tão facilmente vencer o
rio que me derrubara no dia anterior. Em pé sobre essa pedra, com a água
escorrendo da minha roupa encharcada, fiquei por um longo instante olhando para
aquele velho sobre a outra pedra, a uns quinze metros.
A sensação de alegria pelo sucesso da travessia logo se dissipou.
Durante minha vida toda, tive sempre que brigar sozinho. Aprendi a
confiar somente na minha capacidade de raciocínio e discernimento, talvez por
isso tenha crescido assim meio amargo e rabugento. Agora que a vida colocou um
completo estranho a me oferecer ajuda, eu lhe dei as costas.
Fiquei irritado comigo mesmo. Resmunguei, chutei várias vezes a pedra em
que subi.
Aos poucos me acalmei. Respirei fundo, olhei para o outro lado e vi um
trecho raso do rio. Era só terminar de atravessá-lo, subir alguns minutos pela
estrada e estaria na estação a tempo de pegar o trem, que me levaria de volta à
minha difícil, porém conhecida realidade.
Olhei novamente para o velho, parado de pé sobre a pedra do outro lado do
rio. Lembrei do que ele falou na cachoeira: “Se continuar adotando as atitudes
que sempre tomou, continuará obtendo os mesmos resultados”.
Agindo por impulso, entrei novamente na correnteza e fiz o caminho
contrário. Dançando mais uma vez com a água, voltei para a outra margem do rio.
Aproximando-me de Agenor, subo na pedra tirando a mochila.
─ Desculpe-me ─ digo
simplesmente.
Após me olhar por alguns instantes, ele me abraça forte.
Um sentimento que eu não conhecia me invadiu o peito. Como se eu vivera
até ali fingindo não precisar de ninguém. A sensação de desamparo daqueles anos
todos que passei enfrentando sozinho os problemas, me caiu sobre os ombros.
A angústia apertou um nó em minha garganta, fazendo brotar lágrimas
destiladas daquela sensação de pequenez e abandono. Fugindo deste doloroso
sentimento apertei mais aquele abraço, tentando prolongar o aconchego tranqüilo
que Agenor me propiciou.
Inebriado desfrutei de uma impressão de paz, segurança e serenidade, que
minha família e amigos por mais que se esforçassem, nunca conseguiram me
passar.
Ficamos sentados naquela pedra por quase uma hora. Ouvindo ao longe o
trem chegar e partir, pensei: talvez, pela primeira vez desde a minha infância,
conseguia ficar absolutamente calmo e sereno, mesmo sem ter a menor idéia do
que poderia acontecer comigo nas próximas horas.
Capítulo 10
Então foi essa a mágica que você usou para chegar até a
cachoeira na minha frente?
Atravessamos finalmente o rio, com a
facilidade de quem conhece as suas regras. Eu já havia caminhado alguns metros
estrada acima, quando percebi que Agenor não me acompanhava.
─ O que você vai
fazer lá em cima se não tem mais trem hoje? ─ perguntou o velho a rir.
Meu raciocínio estava lento, entorpecido pela força emotiva dos últimos
acontecimentos. A pergunta de Agenor detonou uma seqüência de pensamentos e
perguntas, trazendo rapidamente à tona minha insegura realidade. Como eu sairia
daquele lugar? Se não conseguisse voltar hoje, onde acamparia? Como arranjaria
comida para mais um dia?
─ Venha comigo ─ convidou-me
Agenor descendo a pequena estrada.
Mesmo que ele não me convidasse eu o teria seguido, não tinha outra
escolha. Após alguns minutos de caminhada, avisto destoante da paisagem, um
belo e luxuoso carro estacionado na sombra de uma enorme árvore. Ao
aproximarmos, ouço o barulho característico do alarme sendo desligado. Percebendo
na mão de Agenor o molho de chaves com o controle remoto, descubro o ardil, me
sentindo traído.
─ Então foi essa
a mágica que você usou para chegar até a cachoeira na minha frente? ─ perguntei aborrecido.
─ Quem não
acreditava em Deus, agora está crendo até em magia? ─ perguntou
Agenor debochando.
Embaraçado pelo hábil jogo de palavras, fiquei sem resposta.
─ Tudo que as
pessoas não conseguem explicar, chamam de mágica, mas sempre existe uma regra,
um truque por trás de todas as coisas aparentemente inexplicáveis. A verdadeira
magia consiste em descobrir quais são esses truques e leis que movem o mundo ─ falou Agenor
guardando nossas mochilas em seu carro.
Mesmo sabendo que em uma hora estaria são, salvo e sem fome em Curitiba,
entrei no carro decepcionado. O que parecia misterioso e encantado era na
realidade apenas um truque.
─ Como explica
os pássaros voando tão próximos a você lá na cachoeira? ─ perguntei,
lembrando o estranho episódio que não consegui entender.
─ Se você não
estivesse tão concentrado olhando o seu próprio umbigo, teria percebido que
naquele paredão existem vários ninhos. Qualquer um que consiga ficar sentado lá
sem assustar os pássaros, poderá ter a mesma experiência.
Seu jeito de falar calmo, porém indelicado, calou-me durante boa parte da
viagem. A pequena estrada nos levou até uma rodovia, passamos por uma ponte
metálica, subindo a Serra do Mar pela encantadora Estrada da Graciosa.
Capítulo 11
Pare! Chega de fugir.
─ Não tem a
poesia do trem, mas é muito mais rápido ─ quebrou o silêncio Agenor, referindo-se ao carro.
─ Por que você
não disse antes que era assim que voltaríamos para Curitiba?
─ Você não
perguntou ─ respondeu o velho rindo. ─ E o mistério era necessário para lhe ensinar
a usar e a confiar na sua intuição.
─ Falando nisso,
quando é que você vai começar a me ensinar como ganhar dinheiro? ─ perguntei
distraído.
Agenor freou bruscamente o carro, o barulho desesperado dos pneus ecoou
na estrada deserta. Não estivesse eu com o cinto de segurança, teria batido a
cabeça no para-brisa.
A expressão do velho me assustou. Achei que me mandaria descer do carro e
ir embora a pé.
─ O que eu fiz
de errado? ─ perguntei tentando ganhar tempo.
Agenor nada respondeu. Olhava-me como se pudesse enxergar através de meu
corpo. Com uma expressão sisuda mordia seu lábio inferior, remoendo seus
pensamentos.
Quando eu já nem lembrava mais o que havia perguntado, ele responde:
─ Tudo! Você fez
tudo errado. Veio para a cachoeira fugindo dos problemas, correu o tempo todo
tentando evitar a derrota, não apreciou em nenhum momento a viagem remoendo sua
desgraça, se desesperou tentando escapar da fome...
Ele falava devagar com voz suave, mas me senti acuado com a força da
verdade em suas palavras.
─ Você é muito arisco.
Sempre com os seus monstros a lhe perseguir. Você está em tão debandada
correria que provavelmente não ouviu sequer uma palavra do que eu disse ─ concluiu Agenor.
Chocado com o poder de síntese do velho, fiquei ali parado sem conseguir
esboçar nenhuma reação, diante do esquelético resumo da minha rotineira e
difícil existência.
Eu nunca havia imaginado desta forma, mas a descrição se encaixava
perfeitamente: O grande monstro da fome a me perseguir. E eu com a
responsabilidade de não deixar faltar nada para minha família, cada vez mais
desesperado, correndo atrás de soluções mirabolantes, conseguindo crédito de um
lado para pagar contas de outro, num frenesi alucinado, sem tempo de pensar, de
ver a vida passar e de descansar. Com a pressão agravada e aumentada por ser
despedido do emprego, fujo para a Serra, acuado e arisco, sentindo o inevitável
bote certeiro do, por mim inventado, monstro predador.
─ Pare! Chega de
fugir ─ grita Agenor me assustando.
O susto estancou aquele jorro de pensamentos desenfreados. Apesar da
tristeza que me inundou, minha mente estava serena.
─ Ou você vive
para buscar a felicidade, ou passa a vida fugindo da dor. De uma vez por todas,
faça a sua escolha. Não existe nenhuma outra opção ─ falou Agenor.
O barulho insistente de uma buzina lembrava que estávamos parados no meio
da estrada. Agenor retomou a viagem em silêncio.
A exposição quase visceral de meus sentimentos mais profundos me forçou a
ponderar sobre minha habitual atitude frente aos problemas.
Alguma coisa deveria estar errada. Sempre dedicado, tornara-me um bom
fotógrafo. Mas, apesar de profissional respeitado, por mais que eu trabalhasse
duro, o esmero e a aplicação não eram reconhecidos financeiramente. A
competência propagada em fartos elogios não saciava a fome de meus filhos.
Enquanto Agenor dirigia atento, preocupado com aquelas curvas forradas
com paralelepípedos, eu, absorto em pensamentos, admirava a paisagem sob a luz
difusa do final de tarde, filtrada por uma densa neblina.
Uma hora mais tarde, depois de descer do carro de Agenor à beira da
rodovia, eu caminhava novamente pelas ruas do bairro onde morava. Tudo parecia
absolutamente igual, mas “eu” já não era mais o mesmo. A amargura de ontem
tornava-se passado. Crescia em meu peito uma vontade esperançosa de mudar o meu
amanhã.
Capítulo 12
É disso que você precisa.
Apesar
de Agenor ter prometido me ajudar, a única informação que ele me deixou depois
do acampamento foi um número de telefone. E só depois de dezenas de
infrutíferas tentativas, é que eu consegui finalmente marcar um novo encontro
com aquele velho misterioso.
Sentado
em um dos bancos, percebo enquanto aguardo, que a Praça Santos Andrade fica
ainda mais verde e bonita com o esplendor ensolarado daquela manhã.
Elegante e pontual, Agenor aproxima-se num alinhado casaco, combinando
com o frio que anunciava um rigoroso inverno. Cumprimentou-me com um firme
aperto de mão, olhando fixo em meus olhos, inspirando confiança com um sorriso
amigável.
A sua pouca estatura era compensada por uma forte presença, com gestos
firmes e decididos, sem ser espalhafatoso e não perdendo a cordial e costumeira
serenidade.
A ansiedade gerada na expectativa e ampliada na demora misturou meus
pensamentos e embaralhou as perguntas formuladas mentalmente naqueles três
longos meses que se passaram desde o primeiro encontro na cachoeira.
Estabanado e carente de sutileza, eu pedi emprestado uma soma em dinheiro
para montar um estúdio fotográfico, planejado cuidadosa e detalhadamente
enquanto sobrevivia do minguado salário desemprego.
Sem se importar com os detalhes técnicos da explanação que eu fazia, do
empreendedor e rentável negócio de vídeo e fotos, Agenor risca com um giz que
pegou em seu bolso, um estranho desenho no chão da praça.
─ É disso que
você precisa ─ fala o velho admirando seu esquisito desenho.
Por mais que olhasse, eu não conseguia vislumbrar qualquer lógica naquele
amontoado de rabiscos. Deveria ser importante, afinal de contas Agenor
premeditou, trazendo em seu bolso um giz exclusivamente para aquele fim.
─ Vamos caminhar
um pouco ─ falou enfim o velho, percebendo meu embaraço em não decifrar o seu
confuso e enigmático esboço.
Caminhava a seu lado cabisbaixo e
irritado com minha inabilidade: Além de ter feito aquele desastroso pedido de
empréstimo, não consegui entender o que ele tentou mostrar com seu misterioso e
indecifrável desenho.
Observava aborrecido o mundo em que vivia. Presenciei um garoto invadir
uma loja, roubar algumas mercadorias e sair correndo.
Desviamos da mendiga, que todo dia pedia esmolas naquela galeria,
entoando sempre a mesma ladainha.
Atravessamos uma manifestação, com grevistas munidos de faixas e cartazes
traduzindo sua revolta, gritando indignadas frases repetidas em alto-falantes
barulhentos. Lembrei de quantas vezes participei de movimentos como este,
desgastei-me sem obter a justiça que exigia.
Justiça? Que estranha palavra, neste mundo de valores distorcidos.
─ Tem alguém aí?
─ perguntou ironicamente Agenor, dando leves cascudos em minha cabeça, como
se estivesse batendo em uma porta. Sorri encabulado, despertando de meu
sonambulismo.
─ A visão que
você tem do mundo é filtrada pelo que experimentou até aqui ─ começa a falar
o velho sem parar de andar. ─ A leitura que faz das coisas que acontecem à
sua volta, é fortemente baseada no que você sente. Se o sentimento predominante
em seu coração for amargura, o mundo em que vive será amargo. Sua atenção
estará focalizada, procurando coisas que confirmem a ideia que você tem da
realidade.
Tive vontade de pedir ao velho que repetisse o que acabara de falar.
Soava simples, mas parecia tão profundo e sensato que precisava de mais tempo
para refletir.
─ Olhe para cima
sem parar de andar ─ ordenou Agenor, segurando meu braço.
Acostumado a andar sempre olhando para frente, estranhei esse novo ponto
de vista. Admirado, constatei que não conhecia de fato a beleza da Rua Quinze a
partir dos três metros de altura. As belíssimas fachadas históricas com janelas
em arcos de madeiras entalhadas e sacadas com ferros artisticamente retorcidos.
Só agora percebo que a bela melodia ouvida ao fundo, enquanto andávamos,
era extraída magistralmente de um violino, por um músico solitário na sacada do
segundo andar. Os prédios emolduravam um céu profundamente azul, complementando
o quadro, como uma pintura sobre tela cuidadosamente elaborada.
Caminhando assim, amparado e guiado por Agenor, distraído a contemplar
aquele mundo que não conhecia, meus pensamentos diminuíram de intensidade. Eu estava
agradavelmente tranquilo quando o velho largou meu braço e comecei a andar
normalmente.
Na volta, entrando na mesma galeria, senti uma estranha tontura. Apesar
de continuar caminhando normalmente, tive a sensação de estar pisando em
nuvens, e o mundo todo passou a andar mais devagar.
Compreendi que os pensamentos
negativos que me atormentavam há pouco seriam passageiros. Tudo que estava
acontecendo era só um momento na eternidade. Todos os meus problemas
tornaram-se ridículos de tão pequenos. Como se de alguma forma soubesse e
entendesse que havia uma razão de ser para cada coisa que acontecia, e que eu
deveria agradecer por poder observar tentando aprender.
Percebi, por trás da face suja e dos cabelos despenteados da mendiga, um
sorriso meigo. Com um brilho nos olhos ela abençoava os caridosos que a
ajudavam, que por sua vez aliviavam suas consciências com algumas moedas. Desta
vez não fiquei irritado, também não tive pena dela, simplesmente a aceitei como
alguém que tinha o direito de estar ali, e tentar também a sua maneira aprender
alguma coisa.
Escondido debaixo da escada, o menino delinquente repartia a comida,
fruto do roubo, com duas meninas, que certamente viam nele a imagem de um herói
protetor. Que futuro o aguardaria? Que tipo de lição conseguiria ele aprender
de tão duras aulas?
Notei um largo sorriso no rosto de Agenor que caminhava a meu lado.
Quando entrei na galeria passei momentaneamente a ver o mundo de forma muito
diferente. Senti meu corpo expandir, como se eu fosse pura energia, e fizesse
parte de tudo que ali estava. Ao me aproximar da saída, vendo os raios de sol
lá fora, voltei a sentir meus pés no chão, retornando para a realidade.
Realidade?
Aquela sensação de ser parte de tudo, entender tudo, aceitar tudo,
passou. Mas jamais vai se apagar da minha mente. Tento lembrar daquela situação
como sendo a realidade. A força do sentimento de comunhão com o universo fez o
resto da minha vida parecer um sonho num sono profundo.
Retornando ao local onde Agenor rabiscou o chão, perplexo percebi
instantaneamente a palavra “sonho” a saltar do meio do desenho. O que parecia
impossível decifrar a princípio, tornara-se agora claro e transparente, não
importando o lado que eu olhasse.
─ O que você
quer? ─ perguntou Agenor.
Não entendi direito o que ele queria. Fiquei com medo de falar novamente
do empréstimo. Preferi ficar calado.
─ Não basta
querer viajar, você tem que escolher para onde quer ir. Definir uma meta,
traçar um caminho, ter um objetivo na vida ─ falou firme Agenor.
─ Eu quero viver
mais tranquilo ─ respondi finalmente, só agora entendendo a pergunta.
─ O cérebro não
aceita uma ordem genérica. Seja mais específico. Escolha algo tangível, uma
casa ou apartamento, um carro, uma viagem, qualquer coisa que sirva como prêmio
ou incentivo para você continuar lutando.
Calado e pensativo tentei visualizar algo, mas eram tantas as coisas que sempre
quis que eu não soube o que falar.
─ Feche os olhos
e imagine um homem de quem pudesse se orgulhar ─ continuou falando Agenor. ─ Alguém com
todas as virtudes que conseguir lembrar: Justo e respeitável, bom pai e marido
perfeito. Agora abra os olhos e olhe para você mesmo. Perceba honestamente seus
defeitos e carências. Trace um caminho do que você é hoje, até aquele homem
digno em que pode se transformar. Tome uma atitude. Decida de uma vez por
todas, tornar-se alguém de quem você possa sentir orgulho. Este sim é um
desafio digno de uma vida.
Talvez a tranquilidade que sempre busquei, estivesse bem mais próxima do
que imaginava. Precisava aprender a olhar o mundo de forma diferente. Ter a
coragem de enfrentar e tentar transformar as minhas limitações. Assumir a
responsabilidade das coisas que acontecem comigo. Mudar a atitude sempre
negativa ao enfrentar os desafios que a vida me oferece. E como resultado de
meu próprio esforço, conseguirei aos poucos transformar a minha realidade.
A experiência que eu vivenciei naquela galeria, conseguiu mostrar a
precariedade da minha consciência travada, e quanto eu ainda precisava
aprender. Mas quem seria aquele velho? E por que ele resolveu me ajudar?
Capítulo 13
Como é que eu vou começar um empreendimento que me deixará
rico, apenas com uma máquina fotográfica?
A
partir daquela manhã na praça, ficou mais fácil encontrar Agenor. A experiência
que tive na galeria despertou o interesse dele, que deixou de ser tão ocupado,
encontrando algumas horas livres quase toda semana para conversarmos.
Refiz meus planos do estúdio fotográfico. Levantei custos, avaliei o mercado,
contabilizei margem de lucro, relacionei os equipamentos necessários para
começar, coloquei tudo datilografado em um vistoso e pormenorizado projeto.
Com a munição apropriada resolvi voltar a atacar.
Preferia tê-lo encontrado no escritório ou na casa dele, ou na pior das
hipóteses numa lanchonete, onde tivesse pelo menos uma mesa, para lhe mostrar
meu elaborado projeto. Mas ele insistiu para que nossa conversa fosse no Parque
Barigüi, que estava lotado. Parecia que todos os moradores da região resolveram
vir ao parque ao mesmo tempo. Apesar do frio, aquele domingo amanhecera belo,
com um céu azul e o sol extremamente brilhante, deixando ainda mais verde a
grama farta.
Enquanto as crianças brincavam barulhentas nos balanços e gangorras, os jovens
namoravam exibindo seus cachorros. Outros andavam de bicicleta, enquanto alguns
preferiam jogar bola. Tinha também uma roda de capoeira com berimbau, atabaque
e pandeiro. Corpos elásticos dançando em evoluções rápidas, apesar de suaves. Piruetas e movimentos sincronizados
celebravam a paz numa luta sem agressor, onde são vitoriosos os que não se tocam.
Sentados na grama, tentava mostrar a Agenor os detalhes do meu plano
cuidadosamente datilografado. O vento parecia não concordar com meu intento.
Tanto tempo de ensaio para acabar encenando aquele patético espetáculo.
O velho nem prestou atenção. Enquanto eu discursava, algumas folhas foram
levadas pelo vento; as que sobraram, meio amassadas e misturadas já não
importavam mais, pois eu falava sozinho, enquanto Agenor distraído olhava
algumas crianças andando de bicicleta.
Parece que a disposição abnegada de Agenor em me ajudar, desaparecia
rapidamente sempre que eu lhe pedia dinheiro emprestado. Não conseguia entender
sua atitude arredia. Se ele era rico, um pequeno empréstimo não lhe custaria
nada e facilitaria muito meu começo.
─ Você só
precisa de uma máquina fotográfica e a disposição para lutar ─ disse
finalmente o velho me entregando alguns livros que ensinavam como se obter
sucesso financeiro.
─ Como é que eu
vou começar um empreendimento que me deixará rico, apenas com uma máquina
fotográfica?
─ O que importa
é a disposição em realizar o seu desejo, e não o que você tem nas mãos. A idéia inicial é só
uma semente. A sua vontade e determinação o farão cavar o solo com as mãos, se
for necessário, plantando o seu sonho com entusiasmo e regando-o com
persistência. Quando os frutos começarem a brotar e você colher o sucesso em forma
de dinheiro, poderá ampliar seus negócios com todos os equipamentos e acessórios
que idealizou.
─ Se fosse assim tão simples: ler
alguns livros e enriquecer, todo mundo já estaria rico ─ resmunguei enquanto
folheava os livros.
─ É possível aprender qualquer
coisa através dos livros, mas você precisa realmente querer para atingir os
seus objetivos. A força de vontade é o segredo.
Desanimado, concluí finalmente que não arrancaria de Agenor nenhum
centavo, a título de empréstimo para começar meu estúdio fotográfico. Estava
sozinho como sempre, teria que ser por minha conta.
─ O senhor pode
cuidar da minha bicicleta, tio? ─ perguntou-me um menino que se aproximou,
largando sua bicicleta bem à nossa frente.
Magro e aparentando não ter mais de doze anos, o garoto começou a mexer
em outra pequena bicicleta, de uma menina de cinco ou seis anos que o acompanhava.
Após retirar as rodinhas de apoio, usadas por quem ainda não consegue se
equilibrar em duas rodas, o menino passou a ensinar a garota, que deveria ser
sua irmã, a andar de bicicleta.
Esgotado nosso assunto, Agenor e eu, calados, contemplávamos o esforço do
menino ajudando a irmã na tentativa de dominar a força da gravidade, que
insistia em puxá-la para os lados.
Agarrado ao banco da bicicleta, correndo numa incômoda posição, o garoto
equilibrava a menina fazendo malabarismos. Falava o tempo todo dando
instruções. Quando achou o momento oportuno, arriscou e largou acreditando na
habilidade da irmã, que consegue andar sozinha alguns metros, até a bicicleta
pender para o lado direito, caindo e derrubando a garota a rolar na grama
macia, que absorve o impacto da queda deixando ferir apenas o seu orgulho.
Com um fundo musical muito original, propiciado pelos capoeiristas às
nossas costas, observávamos o empenho e a dedicação carinhosa do garoto, que
gesticulando muito convenceu a assustada irmã, a fazer outra tentativa.
─ Parece tão
difícil aprender a andar de bicicleta, mas uma vez que se consegue, não
esquecemos nunca mais ─ comentei.
─ A regra é
simples, é só virar o guidão na direção em que a bicicleta vai cair ─ falou Agenor
gesticulando.
Que raciocínio simples e objetivo. Se alguém tivesse me falado isso
quando eu estava aprendendo, não teria caído tantas vezes. Sem pensar muito
levantei chamando o garoto, para lhe ensinar o “truque” que acabara de
descobrir.
─ O que você
pensa que está fazendo? ─ brigou Agenor
puxando-me bruscamente pelo braço. ─ Você vai estragar tudo. O que está
acontecendo aqui ficará marcado para sempre na vida dessas crianças. É
importante que o garoto consiga ensinar a irmã sozinho, isso aumentará sua
autoestima estabelecendo um vínculo ainda mais forte entre os dois.
O garoto, que ouvira meu chamado, ficou por instantes a nos observar. Não
obtendo resposta voltou ao seu desafio, correndo desengonçado atrás da pequena
bicicleta, segurando a falta de equilíbrio da irmã.
Novamente ele experimenta, e largando o banco deixa a irmã pedalando
sozinha, até seu pequeno corpo pender insistente para o lado. Desta vez, mais
experiente, a menina salta abandonando a indomada bicicleta que cai barulhenta.
Desolada, a garota senta-se na grama olhando a roda da bicicleta ainda a
girar.
O irmão, com os ombros caídos e olhar triste, volta caminhando devagar,
até onde Agenor e eu estamos sentados e, apanhando as rodinhas, demonstra que
desistiu da luta.
─ Você está indo
muito bem ─ falou Agenor ao garoto. ─ Agora só falta você dizer à sua irmã para
virar o guidão para o lado que ela for cair.
O menino olhava atento ao velho, imaginando por instantes, o efeito do
que ele acabara de falar. Fixou o olhar em seguida na irmã sentada ao lado de
sua bicicleta, finalmente olhou para as rodinhas em suas mãos.
Naqueles breves segundos o garoto teve que tomar uma pequena decisão, que
certamente influenciaria sua postura perante os desafios que a vida lhe faria
no futuro.
Largando as rodinhas na grama, o menino corre, reanimado com a nova
possibilidade de ver a irmã pedalando sozinha.
Agenor, que há poucos instantes me proibira de interferir, me olha
encolhendo os ombros e apertando os lábios, tentando se justificar pela
intervenção que acabara de fazer.
Após explicar para a irmã com gestos exagerados o que aprendera, o garoto
retoma seu lugar agarrado ao banco. Falando muito ele correu atrás da bicicleta
por alguns minutos, até largar novamente a menina, que saiu cambaleante
tentando aplicar a nova lição.
Quando se descobre a regra, fica muito mais fácil. A menina pedalava com
o medo a lhe arregalar os olhos, sem acreditar que havia conseguido enfim
vencer a implacável força da gravidade.
Eufórico o menino gritava, ainda orientando sua irmã, contorcendo seu
corpo magro como se pudesse, mesmo à distância, ajudar a equilibrar a
bicicleta.
Ao perceber que a irmã não cairia mais, exultante e com a voz aguda de
quem ainda não passara pela puberdade, o garoto grita, e dando um soco no ar
gira num pé só.
A alegria da vitória das crianças era contagiante. Emocionado presenciei
a iluminada e tocante cena. A menina largando a subjugada bicicleta e correndo
para o irmão, que estava ajoelhado na grama com os braços abertos, prontos para
aconchegá-la no abraço dos vencedores.
Com a liberdade conquistada pela menina, mais a emoção de ver a união dos
dois sendo reforçada naquele abraço, somada ao sentimento de vitória do garoto,
foi como se o mundo girasse mais devagar, enquanto durou aquele afago
carinhoso.
Depois de lançar um olhar de cumplicidade e gratidão para Agenor, o
garoto apanhou as rodinhas à nossa frente e as jogou no cesto de lixo do
parque, como quem se livra de um par de algemas, que tirava a liberdade da
irmã. Esta radical e convicta atitude evidenciou com clareza, que daquele
menino cresceria um grande homem.
─ Quanto você
acha que vale o que o menino está sentindo agora? ─ perguntou
Agenor, enquanto os dois irmãos se afastavam pedalando.
Olhei para o velho sem responder, tentando antecipar onde ele queria
chegar. Percebendo meu silêncio ele continuou a falar:
─ Quando você
persiste lutando até conseguir vencer, a recompensa é a sensação de poder, que
lhe fará ousar desafios maiores, obtendo mais força, que o motivará a sonhar
ainda mais alto... ─ Agenor fazia gestos com a mão, estimulando-me a imaginar a continuidade
do seu raciocínio. ─ Este sentimento de autoconfiança acaba sempre desencadeando uma sequência
de eventos positivos.
Estava ainda absorvendo o que o velho acabara de dizer, quando ele tornou
a perguntar levantando-se:
─ Você seria
capaz de tirar este sentimento daquele garoto?
Nada respondi. Agora compreendia os seus motivos para não me emprestar
dinheiro.
─ A dificuldade
da batalha enaltecerá sua vitória, você ficará mais forte e autoconfiante ─ falou Agenor
esticando a mão, ajudando-me a levantar. ─ O que estou lhe oferecendo vale muito mais
que dinheiro. Pode mudar sua vida, se estiver disposto a enfrentar a luta.
Enquanto caminhávamos devagar e em silêncio pelo parque, fiquei
imaginando aonde Agenor poderia ter aprendido a manipular desse jeito as
situações à sua volta.
Naqueles poucos minutos em que ficamos sentados ali na grama, ele
conseguiu “tocar” no destino daquele menino com uma única frase. E ainda
aproveitou para deixar até transparente de tão claro as suas razões para não me
emprestar dinheiro.
Eu ainda não sabia “quem” era Agenor, mas podia sentir que era alguém incrivelmente
especial.
Capítulo 14
Por que Agenor invadira aquele prédio? E se alguém nos
pegasse ali?
Seguindo
as orientações de Agenor, e tentando aplicar o conhecimento adquirido nos
livros, trabalhei durante semanas contando apenas com o equipamento disponível:
Uma pesada máquina fotográfica russa, que apesar de não dispor de recursos
automáticos, era eficiente e com uma boa qualidade de fotos.
Plantei cuidadosamente as sementes, distribuindo propaganda fotocopiada.
Visitei os cartórios e igrejas da vizinhança, na expectativa de encontrar
casamentos e batizados agendados, tentando arranjar possíveis futuros clientes.
Reguei persistente, barganhando, oferecendo vantagens, baixando o preço,
até que aos poucos os resultados começaram a florescer. Mas os problemas,
contratempos e obstáculos, como ervas daninhas, cresciam mais que os lucros.
Agenor indagara sobre meus progressos, enquanto jantávamos num
restaurante vegetariano próximo ao centro da cidade.
Descambei a reclamar da falta de equipamentos adequados e da concorrência
desesperada, que achatavam a margem de lucro. O esforço e a correria não eram
compensados pelo retorno financeiro. Acusei o rapaz do cartório de receber
propinas ao indicar clientes ao meu concorrente. Reclamei do protecionismo do
padre, que sempre indicava uma fotógrafa amiga sua, para fazer as fotos dos
casamentos e batizados da igreja.
Agenor saboreava tranquilamente a sobremesa, indiferente às lamentações
indignadas que me desanimaram a ponto de perder o apetite.
─ Que
mediocridade! ─ murmurou o velho balançando a cabeça desaprovando minha atitude.
─ Medíocre? Eu? ─ relutei. O
desânimo me deixara frágil, e o seu comentário me magoara.
─ É medíocre
quem se acostumou a ver somente crises em lugar de oportunidades ─ replicou
Agenor. ─ Você se economiza e não quer se comprometer. Não acredita na sua
capacidade de vencer obstáculos. Medíocre é quem ocupa o tempo falando mal dos
outros, é quem só vê os erros, as desgraças e as doenças. Você tem medo do
sucesso. É também um sinal claro de mediocridade colocar nos outros a culpa
pelo seu fracasso.
─ Não precisa me
atacar desse jeito.
─ É medíocre
também quem não aceita crítica ─ arrematou o velho, desferindo o golpe de
misericórdia em quem já estava vencido. Ressentido e magoado, calei.
─ Você pode
ficar aí encolhido, ofendido e desalentado. Ou se levantar otimista e decidido a se
comprometer realmente com seus planos. Consciente de que o seu sucesso depende
só de você, e não da bondade dos outros. Acredite. Esteja disposto a melhorar,
aprender e crescer. Tenha entusiasmo pelo que faz.
O discurso inflamado do velho, apesar de coerente, não conseguiu me
elevar do marasmo em que mergulhei. Permaneci cabisbaixo e calado. A noite
pareceu tornar-se ainda mais fria e escura que antes.
Enquanto andávamos, na saída do
restaurante, notei uma brusca mudança no comportamento de Agenor. Preocupado e
atento, ele olhava em volta o tempo todo. O carro estava estacionado quase em
frente ao prédio, mas o velho pegou um caminho diferente dando a volta na
quadra.
Agenor às vezes me assustava. Não sabia quase nada a seu respeito. Não
compreendia suas razões para querer me ajudar.
Ao contornarmos uma esquina, o velho agarrando meu braço me forçou a
correr com ele até uma construção inacabada, cercada por grandes tábuas.
Segurando com as duas mãos uma das tábuas e usando o pé como apoio, ele
conseguiu abrir um espaço por onde entramos.
A rápida corrida fez meu coração disparar e a respiração ficar ofegante.
Antes que eu pudesse tomar fôlego para perguntar alguma coisa, Agenor com um
sinal enérgico me mandara calar.
Estávamos num prédio
A luz do luar, apesar de fraca, permitiu que eu percebesse tratar-se de
uma estrutura com dois blocos interligados. Um enorme esqueleto de concreto com
cinco andares, com vigas, colunas, lajes e escadas, mas ainda desprovido de
paredes.
Agenor, depois de caminhar cuidadosamente embrenhando-se através da
semiescuridão, subiu pelas escadas sinalizando para que eu o seguisse.
Fiquei paralisado vendo o velho sumir para o andar superior. Agora
percebi que não fora a corrida que disparou meu coração, foi o medo. A
respiração tornou-se ainda mais difícil. Por que Agenor invadira aquele prédio?
E se alguém nos pegasse ali? Empurrado pela curiosidade o segui.
O medo aguça os sentidos. Os sons dos meus passos ecoavam pelas sombras,
despertando vultos assustadores em minha imaginação. Eu podia ouvir cada grão
de areia esmagado pelos meus sapatos. O coração batia feito um bumbo dentro da
minha cabeça.
Encontrei o velho a me esperar no terceiro andar.
─ Como você
chegou até aí? ─ perguntei a Agenor que estava no outro bloco, construído a uns oito
metros do edifício em que eu estava. As duas estruturas eram interligadas por
vigas de concreto com um palmo de largura.
─ Venha, é fácil
─ falou Agenor apontando para a viga.
Agarrado a uma das colunas, olhei atentamente para todos os lados,
tentando descobrir como o velho conseguira atravessar. Não pude crer que ele
tivesse passado para o outro lado se equilibrando naquela viga. Estávamos a
mais de dez metros do chão.
─ Vamos, se eu consegui
você também consegue ─ insistiu Agenor.
Sem largar a coluna, coloquei um pé na viga, mas fiquei tonto só de olhar
para baixo. Insisti procurando a melhor forma. Avaliei com cuidado, mas a
imagem de uma queda não me saía da cabeça. A vertigem colou firmemente minha
mão na coluna. Finalmente desisti, dei um passo atrás e desafiei Agenor:
─ Eu não o vi
atravessar. Você pode ter chegado até aí por outro caminho, e agora está
tentando me enganar.
Agenor ficou parado e pensativo por alguns instantes.
Não consegui ver daquela distância com a iluminação precária, mas tive a
certeza de que o velho mordia seu lábio inferior, como sempre fazia antes de
dar uma bronca.
De repente, Agenor agarrou a coluna a seu lado e com gestos exagerados me
imitou, fingindo tentar atravessar sem conseguir, como se a coluna o estivesse
segurando. Mesmo nervoso não contive o riso de suas palhaçadas.
Com um sorriso largo, Agenor finalmente enfiou as mãos nos bolsos e
atravessou a viga, com o vento a balançar seu casaco. Caminhou com a
tranquilidade de quem passeia na calçada.
Meu riso, que evoluíra à gargalhada, graças ao seu desempenho naquela
mímica perfeita, desapareceu instantaneamente. Boquiaberto e incrédulo, vi
Agenor atravessar aquela viga tão facilmente que fiquei envergonhado.
─ Sente-se aqui,
vamos esperar ─ falou ele, sentando-se no chão, encostado à coluna.
─ Esperar o quê?
─ O seu medo
passar ─ respondeu ele sorrindo.
Capítulo 15
Meu pai colocou em minha mão uma pequena cruz de prata.
Ficamos calados por alguns minutos sentados
naquela construção inacabada, sentindo o vento gelado da madrugada. Tentei
imaginar o que estaria ele tentando me ensinar. Seus métodos eram sempre muito
estranhos.
─ Marcelo,
aproveite o tempo que temos para falar de seu pai ─ falou Agenor.
Ele já havia me perguntado sobre meu pai em outra ocasião, e eu mudara de
assunto. Mesmo não achando conveniente mexer naquela ferida, mantida aberta por
tristes e persistentes lembranças, resolvi falar:
─ Meu pai
desperdiçou sua vida rezando para um Deus que nunca lhe ajudou.
─ É por isso que
você se diz ateu?
─ Prefiro
acreditar nas coisas que eu possa ver e entender.
─ A realidade
assume, por vezes, proporções tão duras e amargas, que nos agarramos a
devaneios e fantasias para torná-la mais coerente e suportável ─ falou o velho.
─ Não é devaneio
crer somente no que pode ser comprovado.
─ A terra sempre foi redonda,
mesmo quando não podíamos comprovar.
─ Mas foi a sua “religião” que
queimou os primeiros homens que descobriram que a terra era redonda.
─ Quem disse que eu sou
religioso?
Não consegui responder.
Na verdade, eu mal sabia “quem” era Agenor. Talvez tenha imaginado que ele era
uma pessoa religiosa pela sua disposição em me ajudar.
Agenor ficou um longo momento olhando para o vazio escuro daquela madrugada
fria. Seu semblante transparecia uma profunda angústia que nada combinava com o
seu comportamento sempre equilibrado, apesar de misterioso.
─ Falávamos
sobre seu pai ─ falou finalmente Agenor, tentando recomeçar a conversa.
─ Falar de meu
pai sempre me entristece. Eu ainda era um menino quando tudo aconteceu. Já se
passaram tantos anos e eu não consigo esquecer.
─ Não adianta
tentar esquecer, é necessário aceitar. Compreender é o único remédio capaz de
aliviar a dor da perda que traumatiza. Só com a mente serena será possível
desfrutar da saudade prazerosa dos momentos de felicidade, que você viveu junto
com seu pai ─ falou Agenor.
Talvez o velho tivesse razão. Eu precisava realmente fechar aquele buraco
em meu peito. O silêncio da noite me inspirou a falar:
─ Sinto falta de meu pai. Era um homem simples. Não tinha posses, nem
tampouco cultura. Mas era justo e honesto. Assumia a responsabilidade pelo que
acontecia à sua volta. O respeito a Deus antes de qualquer coisa, sempre
norteou sua vida.
Mas eis que Deus o desamparou quando ele mais precisava. Com os filhos
ainda pequenos, ele caiu enfermo e nunca mais levantou. Uma estranha e
implacável doença atacou seus pulmões, prendendo-o a uma cama pelo resto de
seus dias. Viu minha mãe gastar o pouco que tinha em busca da cura que nunca
existiu. A ajuda dos médicos acabou junto com o dinheiro. Travou sua batalha
final em casa, ao lado da família, que ele não podia mais prover o sustento,
onde aguardou resignado, a morte certa e infalível vir lhe buscar.
A angústia da espera teve seu ápice numa noite em que fui acordado por
minha irmãzinha aos prantos.
─ Marcelo. Papai está muito mal e mandou te chamar ─ disse ela soluçando.
Vi mamãe ajoelhada ao lado da cama de meu pai moribundo, segurando a
máscara de oxigênio, que junto com os tubos e o cilindro, fora a cruz que
carregara nos últimos meses. Ele, num esforço como se a mão lhe pesasse cem
quilos, acariciava o rosto dela, secando-lhe as lágrimas.
Juntei-me a eles sentando na cama. Ao percebermos que papai iria tentar
falar algo, fizemos silêncio. Minha mãe afastou a máscara que segurava junto ao
rosto dele.
─ Filho, agora é com você. Cuide de sua mãe e irmã.
As palavras vieram separadas pelo visível sofrimento ao respirar. A
frase, formada assim aos poucos, lançou uma enorme responsabilidade sobre meus
ombros. Peso demais para um menino de doze anos.
─ Deus o ajudará ─ disse papai, abrindo minha mão e
colocando nela uma pequena cruz de prata que sempre o acompanhou.
─ Não pai... ─ foi só o que consegui dizer. Um
choro convulsivo atropelou o resto da frase.
─ Não chore filho, isso só faz aumentar meu padecimento ─ falou meu sofrido pai com muito esforço.
Apertei com todas as minhas forças, aquela cruz na palma da mão, tentando
segurar o choro.
─ Pelo amor de Deus, chega ─ diz meu pai empurrando a máscara
de oxigênio, que mamãe tentava recolocar em seu rosto.
Vendo meu pai decidido a desistir da vida, com seus olhos, apesar de
tristes e cansados, revelando toda sua lucidez e firmeza, não tive coragem de
lhe pedir que lutasse mais um pouco.
Aquela realidade escancarada em tão extremada atitude comprimiu meu
coração.
Mamãe, que já estava ajoelhada segurando a mão dele próxima a seus
lábios, começou a rezar murmurando.
Por mais que apertasse a pequena cruz na palma de minha mão, um gemido
intermitente conseguia escapar por entre meus dentes travados. Juntava-se ao
choro de minha irmã, à reza de mamãe e à sofrida respiração ofegante de meu
pai, formando uma triste sinfonia.
Não sei quanto tempo durou aquele tormento. Custaram-me marcas e
cicatrizes equivalentes a séculos torturantes. Depois de se debater contorcendo
todo seu corpo já magro, numa agonia desesperadora, meu pai deu seu último
suspiro.
Enquanto um frio arrepiante percorreu minha espinha, marcando na alma a
gravidade do momento, pude ver a vida abandonando seu corpo, esvaindo-se junto
com o pouco ar, que num último e desesperado esforço ele conseguira inalar.
Mamãe, debruçada sobre seu peito, chorava inconsolável. Minha pequena
irmã gritava desesperada, colocando a máscara de oxigênio no rosto inerte de
papai.
─ Acorda pai. Não vai dormir agora. Não nos deixe. Vamos, você consegue.
Você vai melhorar ─ dizia ela em meio a um choro que
dilacerava o coração de quem assistia.
O gemido que me escapava involuntário, aumentou até virar um berro
alucinante. Minha mão tremia com a força que fazia, descontando na cruz toda
minha amargura.
Num gesto de desespero arremessei, em meio ao meu grito, a pequena cruz
contra a parede. Numa violenta explosão de revolta, reneguei o Deus de meu pai,
que o arrancara da família sem anestesia, dessa forma tão sofrida.
─ Não chore, mana. Vou cuidar de você ─ falei abraçando minha irmãzinha,
enquanto mamãe juntava do chão a cruz de prata, torta e manchada com meu
sangue, oriundo da ferida aberta na palma de minha mão.
Enquanto narrava minhas recordações
a Agenor, as palavras se transformavam em névoa branca, provocada pelo vento
frio da madrugada, que circulava no meio das colunas daquela construção vazia e
inacabada.
A angústia me envolvera. Não consegui continuar falando. Minha voz
embargou. O choro daquela noite ainda doía em meu peito. A triste lembrança da
tragédia criou um redemoinho à minha volta. Fiquei tonto.
─ Vamos. Está
muito frio aqui. Precisamos nos esquentar ─ falou Agenor, levantando-se num salto e
puxando-me pela mão.
O velho começou a fazer uma estranha ginástica, pulando e batendo as mãos
nas pernas e depois acima da cabeça, com movimentos coordenados.
Mesmo com o velho insistindo para que eu o acompanhasse, fiquei
imobilizado.
Agenor estava patético. Aquela ginástica para afugentar o frio era
totalmente desproposital, fora de hora e sem sentido.
─ Em quinze anos
jamais contei essa história a ninguém. Hoje finalmente resolvi abrir meu
coração, e é assim que você reage? É só isso que tem para me dizer? ─ perguntei ao
velho desabafando minha mágoa e decepção.
O semblante de Agenor se transformou rapidamente. Com movimentos lentos
ele se aproximou tanto que o seu nariz quase tocou o meu.
─ Essa ferida
ainda está aberta ─ disse ele batendo em meu peito. ─ A sua realidade se tornou insuportável. Por
isso você se apega a fantasias e prefere colocar a culpa em Deus.
─ Claro! De que
adiantou meu pai ser tão devoto a Deus durante toda sua vida? Que morte mais
estúpida ele ganhou. O que mais me entristece é a certeza de que ele precipitou
o próprio fim, pois sabia que não tínhamos mais dinheiro para lhe comprar os
cilindros de oxigênio que o mantinham atado à vida por aquelas mangueiras. Que
Deus é esse? ─ perguntei irritado. Meu tom de voz se alterou sem que eu percebesse. A
revolta esboçada naquele discurso devolveu minhas forças.
─ Isso! Assim
mesmo! Perfeito ─ comemorou o velho me dando tapinhas nos braços.
Só então percebi a manobra de Agenor. Quando se levantou para fazer
aquela estranha e ridícula ginástica, o que ele queria na verdade era me
arrancar daquele redemoinho de recordações e tristezas, que me tontearam
consumindo minhas energias.
Muito mais tarde percebi que Agenor tinha razão: Negar Deus era meu
escudo.
─ Venha. Vamos
dominar o seu medo ─ disse ele com pressa em mudar de assunto.
Capítulo 16
Os nossos medos tornam a realidade cada vez mais perigosa.
Atrás das escadas, no andar em que
estávamos, existia uma viga nas mesmas dimensões daquela que eu não conseguira
atravessar. Só que nessa, a laje pré-moldada já estava encaixada. A diferença
entre a viga e o chão, não era maior que dez centímetros.
Agenor me fez caminhar sobre essa viga, de uma coluna a outra por dez
vezes, enquanto ele contava em voz alta.
─ Pronto! Agora
você pode atravessar ─ falou ele ao retornarmos para a viga suspensa.
─ Claro que não!
Aqui é diferente ─ falei já me agarrando à coluna, com a vertigem a me tontear.
─ A única
diferença está aqui ─ falou o velho encostando seu dedo em minha testa ─ Lá você
acreditou ser capaz de atravessar e conseguiu. Tenha fé e conseguirá aqui
também.
─ Fé é conversa
de religião.
─ Tem razão. Algumas
pessoas conseguem até milagres através da fé. Mas você não precisa de tudo
isso, é só se apegar com o seu raciocínio lógico: se lá na outra viga você conseguiu
passar dez vezes sem pisar na laje, significa que seu risco de cair aqui é
menor que dez por cento.
─ Lá atrás não
tem nenhum perigo. Passaria cem vezes se fosse necessário.
─ Ótimo! Você
vai repetir em voz alta: “O risco é menor que um por cento”. Fale quantas vezes
for preciso, até se convencer e atravessar ─ ordenou Agenor.
─ Isso é
ridículo.
─ Não importa.
Faça! ─ insistiu ele com voz áspera ─ repita comigo: O risco é menor que um por cento...
O risco é menor que um por cento...
Não quis deixá-lo falando sozinho e, mesmo embaraçado, pronunciei as
palavras.
Formamos um estranho coro.
Aquela frase repetida assim se assemelhava a uma oração. Lembrei da
facilidade com que atravessei a outra viga lá nos fundos, que não oferecia
perigo por estar rente ao chão. A imagem de Agenor atravessando calmamente e
com as mãos nos bolsos, ainda era forte em minha mente. Ele tinha razão, não
existia diferença entre as duas vigas.
As palavras que repetíamos em voz alta, tornavam-se cada vez mais fortes
em sua lógica. O desconforto foi cessando e, aos poucos, me acalmei. A coluna
do outro lado já não parecia tão distante. Respirei fundo tentando aspirar coragem
do ar frio da madrugada e, finalmente, resolvi arriscar.
Ao dar o primeiro passo meu coração disparou, senti um nó apertando meu
estômago.
─ Isso! Vamos,
você consegue, é fácil ─ incentivava o velho.
Empurrado por suas palavras e apoiado no cálculo que ele me fizera
repetir, atravessei finalmente aquela viga.
Sem a elegância de Agenor é claro. Muito pelo contrário, arrastava um pé
de cada vez, andando meio de lado, com os braços abertos a me equilibrar.
Meu medo transformara-se em um ser quase palpável, que parecia pretender
me derrubar. Murmurando incessantemente a frase de Agenor, eu tentava apagar da
mente as terríveis visões de uma possível queda.
Agarrei afinal a coluna do outro lado com as mãos trêmulas e suadas,
apesar do frio daquela madrugada.
Não tive tempo para comemorar minha vitória. Vi Agenor atravessando a
viga, imitando meus movimentos. Arrastava os pés, balançando os braços numa
caricatura circense. Só que em seus gestos exagerados, o palhaço refletido era
eu.
Agenor, com sua original representação, transformara-se num espelho vivo.
Pude observar naquela patética cena, meus medos, carências e fraquezas.
Os gestos do velho diziam mais que um incomensurável discurso. Sua
primorosa encenação permitiu observar-me despido de meus escudos.
Levei algum tempo para absorver todo o ensinamento contido naqueles
breves instantes, que ajudariam a mudar o meu destino.
─ Você precisa
aprender a enfrentar sempre os seus medos ─ comentou Agenor ao terminar a travessia.
─ Não exagere.
Não querer atravessar correndo riscos desnecessários, não me transforma num
covarde medroso.
─ Todos nós
temos medos. Mas só é covarde aquele que não os enfrenta ─ explicou
Agenor. ─ Temos medo da fome e da pobreza. Temos medo de amar sem sermos
correspondidos. Temos medo da dor e das doenças, de não sermos respeitados, de
sofrermos desilusões, de fracassarmos, da solidão e da morte.
─ Você faz
parecer que todos os problemas do mundo nascem do medo ─ comentei
enquanto seguíamos descendo as escadas, procurando na semi-escuridão o que
deveria ser a saída dos fundos daquela construção.
─ Não, Marcelo.
Durante muitos anos eu também achei que o medo fosse a origem de todos os
problemas: O medo da pobreza nos tornando avarentos, o medo de amar sem ser
correspondido esfriando nossos corações, o medo do fracasso inibindo uns, enquanto
o medo de não ser respeitado transforma outros tantos em prepotentes orgulhosos.
Naquela época eu ainda não
conseguia avaliar o alcance do impressionante conhecimento de Agenor. Um
verdadeiro filósofo, buscando respostas para todos os dilemas humanos. Ele
ensinava com explicações simples e experiências diretas, atingindo não só o meu
cérebro, mas também o meu coração.
─ O medo é o
fruto que nasce da dúvida. Uma desconfiança gera insegurança, que pode
se tornar coletiva e causar até guerras. A dúvida semeia o medo, que se enraíza
na mente e alimentado pela fértil imaginação gera frutos venenosos como o
ciúme, a inveja e o ódio entre outros que são os responsáveis pela discórdia,
que causa toda a desgraça humana.
─ Parece exagero valorizar tanto uma simples
dúvida.
─ Será que Deus
existe? Você pode destruir uma vida, se conseguir semear essa dúvida na mente
de uma pessoa religiosa... Como o seu pai, por exemplo ─ falou Agenor
com um estranho brilho triste em seu olhar. Se eu não fosse tão despreparado,
teria percebido, naquele momento, a profundidade da sua tristeza.
─ Meu pai não
precisou questionar a existência de Deus para ter a sua vida destruída ─ falei com
amargura.
─ Não faça
nenhum movimento brusco ─ sussurrou o velho interrompendo nossa
caminhada, quando já estávamos próximos do portão da saída.
Segurando meu braço ele indicou com o olhar algo à nossa esquerda. Um
rapaz com olhos arregalados, trajando um uniforme de segurança, que apontava
uma arma com suas mãos trêmulas.
O que mais me afligiu não foi o susto que descompassou meu coração, e sim
o medo estampado no rosto do jovem guarda.
─ Como vocês
entraram aqui? O que querem? ─ perguntou o espantado rapaz.
Não soube o que fazer ou dizer. Tive receio até de respirar mais forte, e
o medo do guarda causar alguma tragédia. Ele estava visivelmente assustado e o
tremor de suas mãos poderia disparar a arma acidentalmente.
─ Boa noite
guarda. Talvez você possa nos ajudar ─ falou Agenor largando meu braço e tirando a
outra mão do bolso calmamente. ─ Nós entramos pelo outro lado fugindo de três
delinquentes que nos seguiam. Pretendíamos sair por aqui e chamar a polícia.
Achei que o velho estivesse mentindo, e fiquei preocupado com o final de
nossa aventura, quando o desconfiado segurança chamou a polícia pelo rádio.
Alguns minutos depois, cinco policiais em duas viaturas, que espalhavam
feixes de luzes colorindo a madrugada, prenderam três marginais que haviam
assaltado um casal naquela mesma noite. Na fuga, colidiram com o carro roubado
em um muro, a algumas quadras de onde estávamos. Perambulavam no escuro pelas
imediações à procura de outras vítimas. Agenor percebera a presença deles na
saída do restaurante, por isso mudou nosso caminho.
Lembrei-me de tê-los visto de relance na saída do restaurante. Uma
chamativa jaqueta vermelha com capuz, que um dos marginais usava, não consegue
passar despercebida, mesmo à noite. Mas, naquele momento, eu estava tão
contrariado com a discussão durante o jantar, que não dei atenção a três
pedestres bêbados.
As drogas e as bebidas alcoólicas são ingratas. No princípio encorajam
derrubando os escudos psicológicos, mas depois cobram um alto preço: a lucidez.
A mesma embriaguez que no começo da noite transformara os três impiedosos
mal amados com uma coragem bestial, agora lhes traía reduzindo seus reflexos e
facilitando o trabalho dos policiais.
Movimentos bruscos, cassetetes, armas em punho, gritos, mãos na cabeça, algemas
e outras tantas truculências, tudo avermelhado pelas luzes das viaturas.
Quando visto pela televisão, a energia do trabalho da polícia é criticada
como uso excessivo da força, mas visto assim ao vivo, parece mais o medo comum
e normal em qualquer homem, comandando os gestos exagerados dos policiais que tentam
demarcar território e se defender como qualquer outro animal.
Alvoroçado e prestativo, o jovem
vigilante estava com o peito estufado pelo orgulho de ter cumprido o seu dever.
Calado e cabisbaixo eu não me atrevi a fazer nenhum comentário. Não
saberia dizer o que me causava mais vergonha, se não ter percebido antes
absolutamente nada do que aconteceu, ou ter acreditado que Agenor pudesse
mentir.
─ Os nossos
medos tornam a realidade cada vez mais perigosa ─ falou Agenor, quando a confusão acabou.
Capítulo 17
Quem é você afinal?
Após
muitos encontros em praças e parques de Curitiba, uma forte e inesperada chuva
convenceu finalmente Agenor a convidar-me para conhecer o seu apartamento.
Enquanto
o porteiro anuncia minha chegada a Agenor pelo interfone, eu, deslocado naquele
saguão luxuoso, tento limpar o barro dos meus sapatos que ofendiam o imaculado
mármore, comum nos prédios daquele bairro nobre.
Agenor me recebe com sua costumeira simpatia. Percebi assombrado que o
imenso apartamento parecia ainda maior pela escassez de móveis. Um enorme
crucifixo ocupava com destaque o meio da parede da enorme sala. A discrepante
decoração me deixou sem palavras. A pouca mobília simples e rústica
transfigurava a sala.
Uma enorme estante guardava diversos livros. A maioria era sobre
filosofia, psicologia, misticismo e religião.
─ Singular o seu
apartamento. Sinto-me entrando num mosteiro.
─ O apartamento
não é meu ─ diz o velho ─ mas minha família insiste em que eu more aqui. Mantenho essa decoração
simples para não esquecer o que realmente é importante.
Ensaiei algumas perguntas com o intento de revelar seus indecifráveis
mistérios: Você mora sozinho? Você é ou foi casado? Você tem filhos? Mas o
silêncio sorridente do velho não sucumbiu às minhas diligências.
─ Minha família
é rica, mas eu prefiro viver com austeridade ─ fala por fim Agenor. E como se com esse
comentário respondesse minhas perguntas, muda de assunto sem saciar a minha
curiosidade.
Estirados num monte de almofadas,
conversamos até o final da tarde, ouvindo a chuva fustigar os vidros das
enormes janelas. Os relâmpagos, vez por outra, iluminavam a ampla sala.
Discutimos a evolução dos meus negócios a partir de alguns gráficos que
desenhei seguindo os seus conselhos. Agenor comentou que minha visão do mundo
estava mudando, ao ver as últimas fotos que tirei. Mas passamos a maior parte
do tempo rindo, enquanto contava ao velho as trapalhadas do rapaz que eu
contratara para me ajudar com a iluminação em minhas fotografias.
Quando o barulho da chuva diminuiu,
Agenor ligou um aparelho de som portátil, de onde se ouvia uma música
instrumental suave.
─ Quem é você? ─ perguntou-me o
velho.
Em outras épocas eu lhe teria dito meu nome simplesmente, mas conhecendo
Agenor há quase um ano, preferi ficar
Durante todos aqueles meses
Mas o que realmente me impressionava em Agenor eram suas estranhas lições,
compreendidas não só com o raciocínio intelectual, mas sim absorvidas pelo meu
corpo todo. Com seu jeito misterioso e seus métodos próprios, o velho
conseguia, aos poucos, me transformar em outra pessoa.
Agenor pediu para concentrar minha atenção em sua voz e seguir o seu
comando. A inusitada situação me deixou acanhado. Deitado naquela enorme sala
com pouca luz, eu vacilei alguns instantes, mas minha curiosidade acabou me
convencendo.
─ Esqueça o
resto de seu corpo e se concentre apenas em seus pés ─ orientava-me o
velho. ─ Imagine suas formas... Sinta seus dedos... Visualize cada detalhe.
Relaxe-os o máximo possível, como se você os desligasse do resto de seu
corpo... Pergunte a si mesmo: Você é seu pé?... Agora imagine suas pernas...
A voz suave, quase sussurrada de Agenor me conduziu a um profundo
relaxamento. Mas minha mente ficava cada vez mais agitada. Era impossível me
imaginar sendo meu pé ou perna. Conseguia seguir suas instruções e visualizar
meu estômago trabalhando alheio a minha vontade, ou o meu coração como uma
bomba perfeita enviando vida para todas as extremidades do meu corpo, mas meus
pensamentos disparavam atordoados, cada vez que o velho me perguntava: Você é o
seu pulmão? Você é o seu braço?
Agenor deve ter levado pelo menos meia hora falando de todas as partes do
meu corpo. Quando ele chegou à cabeça, pedindo-me para relaxar os músculos de
minha face, meu corpo todo já estava inerte.
─ Quem é você? ─ perguntou
novamente o velho.
Minha mente procurava inquieta a resposta àquela cruciante questão.
Pensar da maneira como Agenor sugeriu me deixou num embaraçoso impasse: Todo
meu corpo parecia uma série de acessórios, e com certeza apodreceriam quando eu
morresse. Mas se “eu” não era o meu corpo, o que seria então?
A excitação que crescia à medida que eu não encontrava a resposta, me
deixou tonto.
─ Imagine uma
luz envolvendo todo o seu corpo ─ falou Agenor.
Consegui imaginar e até sentir com clareza o que o velho sugeriu. Eu, em
forma de luz viajando como passageiro no meu próprio corpo.
Ampliando a incoerência daquela situação, me sinto balançar e girar para
todos os lados, mesmo sabendo que meu corpo estava imóvel no chão daquele
apartamento. Tal suposto movimento me causou náuseas.
─ Quem é você? ─ insistiu
Agenor.
Apesar da tontura que me provocava ânsia, eu não queria mexer um músculo
sequer, com receio de quebrar aquele encantamento.
Experimentava a fantástica
sensação de estar fora do meu corpo físico quando ouvi assustado, Agenor
perguntando aos gritos e me sacudindo pelos ombros:
─ Quem é você,
afinal?
Sobressaltado, abri meus olhos, mas não compreendi instantaneamente o que
vi: a menos de um palmo de distância um rosto aparentemente estranho, me
olhando assustado. A imagem estava embaçada, talvez por eu ter ficado tanto
tempo com os olhos fechados.
Meu coração descompassado me avisava de algum perigo iminente. Quem
estaria ali tão próximo a meu rosto?
Aos poucos a silhueta desfigurada tomou forma. Admirado constatei,
atrasado, que o estranho assustador era simplesmente meu rosto amedrontado,
refletido no espelho que Agenor segurava à minha frente.
O velho desmoronava aos poucos minha dúbia realidade, e ainda tinha o
requinte de mostrar meu assombro refletido.
Afrontado pelo meu próprio olhar, atordoado e com os reflexos lentos,
demorei a perceber que Agenor ria zombando vitorioso.
─ Marcelo, eu te
apresento este completo desconhecido ─ falou o velho ainda a rir, me apontando o
espelho.
Tentei falar, mas não consegui coordenar meus pensamentos.
─ É melhor não
falar nada ─ disse Agenor percebendo o meu dilema. ─ Se tentar converter em palavras a experiência
que acabou de viver, toda a força emotiva que você conquistou se esvairá.
Agenor se retirou por alguns minutos. Meu olhar tentou acompanhá-lo, mas
o magnetismo da cruz no meio da sala me entorpeceu.
Sozinho olhando o crucifixo na parede daquela sala, onde a luz do final
da tarde já perdia a batalha para as sombras da noite, tentei controlar um
tremor convulsivo que estremecia meu corpo todo. Não entendia o que tinha
acontecido. Talvez o velho tivesse me hipnotizado.
Todas as coisas em que eu sempre acreditei, foram questionadas de forma
contundente pelo astuto Agenor. O pavor de ver meu mundo racional desabar, se
emaranhava com a exultação de constatar que a realidade poderia ser muito mais
ampla do que jamais pude imaginar. A sensação de estar fora do meu corpo
físico, mesmo breve, me deixou desconcertado. Não conseguia desviar o olhar
daquela enorme cruz.
Meu esforço em tentar entender o episódio só servia para aumentar a
tremedeira. Vencido, desisti de pensar sobre o ocorrido. A calma voltou aos
poucos e o tremor cessou.
Depois de saborearmos um chá com biscoitos
que Agenor preparou, voltamos a conversar.
Ele me proibiu de falar sobre o acontecimento daquela tarde. Explicou que
mesmo os poetas não conseguem traduzir totalmente os sentimentos em palavras,
tanto que só é capaz de compreender inteiramente um poema, quem já tenha vivido
as emoções sobre as quais os versos falam. E que se eu tentasse converter em
palavras o que aconteceu comigo, com o tempo acreditaria mais na minha pobre
descrição vazia, do que na experiência real.
Com a mente quieta, ouvia as explicações do velho
Agenor falou que os cachorros e outros animais podem ser adestrados,
justamente por “reagirem” a estímulos externos. E que cabe ao verdadeiro homem
“agir” pela sua própria força de vontade ao invés de apenas reagir.
─ Você precisa
decidir o que quer da vida, se comprometer e ir à luta. Não fique esperando a
fome bater em sua porta ─ concluiu Agenor.
Reanimado comecei a falar questionando e tentando entender melhor o que
ele acabara de dizer, mas percebendo meu restabelecimento o velho mudou
bruscamente de assunto, voltando a falar sobre as peripécias do meu desastrado
ajudante. Após rirmos mais um pouco com as histórias que eu havia contado,
sobre meu recém contratado auxiliar, Agenor muda o tom de voz e com rispidez me
censura:
─ Você mal
conhece esse rapaz, tenha mais paciência.
─ Não havia
maldade nos comentários que eu fiz ─ tento me justificar.
─ Você tem que
perdoá-lo, dar tempo para ele crescer.
Fiquei irritado com as descabidas censuras de Agenor. Argumentei que me
considerava paciente com todas as pessoas à minha volta, e que acreditava no
potencial do rapaz, a quem eu daria o tempo necessário e ensinaria o que fosse
possível para torná-lo um bom fotógrafo. Desabafei enfim a minha mágoa pela
errônea interpretação que Agenor dera aos comentários inocentes que eu fizera
naquela tarde.
─ Você seria
capaz de perdoá-lo pelas falhas que ele comete? ─ perguntou o velho.
─ Claro! Ele não
tem a intenção de errar.
─ Você daria
mais uma chance ao seu auxiliar?
─ Ele é um bom
rapaz, justo, honesto e com vontade de aprender. Eu lhe darei quantas chances
forem necessárias, até o seu potencial florescer.
─ E quantas
vezes você seria capaz de perdoar, e quantas novas chances você daria a “este”
seu desconhecido? ─ perguntou Agenor, colocando na minha frente o espelho que ele usara
algumas horas antes.
Agenor conseguiu novamente. Eu, desarmado e sem ação, com a boca aberta,
mas sem palavras, fico imóvel a encarar meu próprio rosto refletido naquele
espelho.
─ Por quantas
vezes você foi impaciente e intransigente consigo mesmo durante toda sua vida? ─ perguntou-me o
velho.
Talvez a amargura tenha afetado minha vida muito mais do que eu
imaginava. Aprendi com meu pai a assumir a responsabilidade. Minha arrogância
sempre rejeitou a ajuda que os outros ofereciam. A teimosia e a falta de
humildade tornaram meu fardo quase insustentável.
─ Está na hora
de você se aceitar como é. Conceder-se o tempo necessário para seu próprio
crescimento. Seja mais amável, tolerante e paciente consigo mesmo, e,
principalmente, acredite no ser humano que você pode vir a se tornar ─ disse o velho.
Uma lágrima cintilava no olho refletido. Eu que achava a vida injusta,
percebo agora que sempre fui meu próprio carrasco.
─ Você precisa
aprender a se gostar, e deixar fluir o que tem de melhor em seu coração ─ sentenciou
Agenor. ─ Só assim estará preparado para aprender a amar os outros e ajudá-los
também a externar o que eles têm de melhor.
Quando Agenor tirou o espelho da minha frente, a cruz continuava lá atrás
pendurada, imóvel na parede a me observar.
Capítulo 18
Alegrias intensas e tristezas marcantes constituem a nossa
história.
Os
princípios e conceitos que constituíam o conhecimento transmitido pacientemente
por Agenor, mudaram aos poucos minha atitude e a maneira de enfrentar as
dificuldades. Mas, apesar de viver muito mais tranquilo, meus problemas continuavam
os mesmos.
Não obstante a aparente insatisfação com meu lento progresso, o
insistente Agenor, firme em seu propósito, dedicava algumas horas toda semana
para me ensinar.
Nunca me ocorreu que existisse uma razão especial para conversarmos
sempre em lugares diferentes, previamente escolhidos por ele, até o dia em que
o velho marcou nosso encontro no maior cemitério da zona norte da cidade.
Quando cheguei ao portão do cemitério, Agenor conversava com um pequeno
grupo de pessoas. Precisei esperar alguns minutos até que ele se despedisse do
grupo. Todos o tratavam com respeito exagerado.
Foi só quando ele veio em minha direção que reconheci uma mulher que
estava com o grupo, mas de costas para mim.
─ Mãe?
Ela virou-se sorrindo e caminhou
acompanhando Agenor até onde eu estava.
─ O que a senhora está fazendo
aqui?
─ Estou junto com o grupo de
orações lá da igreja.
─ Eu não sabia que a senhora
conhecia o Agenor.
─ Você tem muita sorte meu filho.
Minha mãe me deu um beijo no
rosto e depois se despediu de Agenor forma muito respeitosa, quase com
reverência, beirando a veneração.
Agenor percebe que minha mãe
colocou alguma coisa em suas mãos. Ele olhou discretamente e depois guardou o
objeto em seu bolso. Os dois trocam sorrisos de cumplicidade.
Aos olhos de minha mãe, Agenor era um homem comum. Mas o mistério que
fazia sobre sua vida pessoal me aguçava a curiosidade, transformando-o, em
minha imaginação, em uma interrogação ambulante.
─ Porquê um cemitério? Você veio
visitar alguém? ─ Perguntei enquanto caminhávamos entre os túmulos, logo depois
que Agenor se despediu do grupo.
─ Sim. Vim visitar você.
A sua resposta me causou um arrepio.
Ele soltou uma sonora gargalhada quando viu a minha expressão de medo.
─ Calma. Só escolhi um lugar
diferente para quebrar a sua mecanicidade.
─ Mecanicidade?
─ Sim! Você é muito mecânico.
Repete as coisas sempre do mesmo jeito. Virou uma máquina programada. Vive no “piloto
automático”. Sem consciência própria. Por isso sempre vamos a lugares
diferentes.
Sentados numa lápide, na parte mais alta do cemitério, conversamos
longamente.
O vento balançando as árvores, o canto dos pássaros, o cheiro das flores
e aquele mar de túmulos e cruzes à nossa frente, formavam realmente uma
paisagem fora da minha rotina.
─ Quantas vezes
você conseguiu lembrar do que combinamos? ─ perguntou Agenor apontando a fita vermelha em
meu pulso.
─ Não tive
dificuldades em lembrar várias vezes de me perguntar quem sou eu, mas tal
insólita atitude me pareceu sem finalidade ─ respondi, tentando arrancar mais informações
sobre aquele estranho comportamento.
Pensativo, Agenor me encarava mordendo seu lábio inferior. Eu já me
preparava para levar uma bronca, mas o velho manteve sua serenidade.
─ O que você
viveu naquela tarde no meu apartamento, não foi controlado e não pode ser
explicado pelo seu cérebro. Não adianta simplesmente perguntar, você tem
que “sentir” a mesma sensação daquele dia.
Agenor explicou que só vivemos realmente os momentos carregados de
emoções. Alegrias intensas e tristezas marcantes constituem a nossa história.
Na maior parte do tempo adormecemos e, reagindo numa rotina mecânica,
simplesmente sobrevivemos.
─ Tente lembrar
de algo marcante em seu passado ─ pediu-me o velho.
Lembrei de um acidente de moto, onde por muita sorte não me machuquei.
Mas Agenor não se contentou com um simples relato, queria saber detalhes.
Perguntou até as cores do capacete e das roupas que eu usava no momento da
colisão.
Apesar de o acidente ter ocorrido há mais de três anos, consegui lembrar
de todos os detalhes. O susto e o nervosismo permaneciam claros em minha mente.
Ainda conseguia ver o pavor nos olhos do motorista que me atropelou.
─ O que você fez
um dia antes do acidente? ─ perguntou-me Agenor.
Uma lacuna escura se abriu em minha memória. Por mais que me esforçasse
não conseguia lembrar nada da véspera do acidente.
─ E o que
aconteceu um dia depois? ─ insistiu perguntando Agenor.
Fechei os olhos tentando visualizar, mas não vislumbrei nenhum resquício
sequer de lembranças do dia posterior ao atropelamento.
─ Você pode
empreender esforços para acordar de seu sonambulismo mecânico ─ falou
solenemente Agenor ─ abrir seu coração, viver intensamente todos os momentos, se emocionar com
a vida abundante à sua volta, sentir arrepios ao receber um doce sorriso de uma
criança... Ou esperar ser atropelado novamente para ter o que lembrar.
Capítulo 19
Seguindo a intuição, rasguei a receita da felicidade.
Agenor sempre achava um jeito de
sacudir minhas ideias. Às vezes, a conversa até parecia ter uma direção mais
amena, com uma didática comum. Como no dia em que conversávamos no Jardim
Botânico, disputando espaço com os turistas e suas câmeras fotográficas, e eu
reclamei da dificuldade para se viver de forma tranquila.
─ Construa a sua
vida sobre pilares ─ falou Agenor.
Ele explicou que para viver tranquilo é necessário equilíbrio. Sugeriu
considerar a vida como uma construção, sustentada por quatro pilares: amor,
família, trabalho e religião. O sonho seria o quinto pilar, que além de estepe
serviria também para impulsionar a pessoa.
Esclareceu que amor deveria ser a grande paixão de nossa vida, uma mulher
que inspire todo nosso romantismo. Trabalho tem que ser algo feito com prazer.
Família são também os amigos, não só os parentes. Religião não é só frequentar
uma igreja, é necessário sentir Deus no coração. O sonho não deve ser uma
fantasia intangível, e sim algo concreto que sirva de motivação para a luta
diária, e assim que você consiga realizá-lo, deverá ser substituído por outro.
É importante ter sempre um objetivo na vida.
O velho exemplificou sua teoria me pedindo para imaginar uma pessoa que
centrasse sua existência sobre um único pilar. O apaixonado que perdesse sua
companheira cometeria uma loucura. O viciado em trabalho ficaria neurótico
quando desempregado. O religioso se tornaria um fanático insuportável. Quem
vive somente em função da família, quando ficar sozinho se sentirá rejeitado.
Contudo se você perder a grande paixão de sua vida, mas tiver seu trabalho,
seus amigos e um sonho para realizar, com Deus em seu coração, provavelmente
irá superar qualquer trauma.
Entusiasmado resolvi anotar o que parecia ser a receita da felicidade.
─ O único
problema é que se você tivesse essas informações antes de ser despedido daquele
seu emprego, não estaria aqui tentando se tornar uma pessoa melhor ─ falou Agenor.
Fiquei sem ação olhando para o pedaço de papel onde eu anotara o resumo da
teoria recém esplanada. O velho tinha razão, foi o desespero que me levou a
aceitar seu desafio.
Agenor explicou que todo ser humano é como um diamante bruto, precisa ser
lapidado. Por isso, de nada adianta se esconder num mosteiro, ou criar uma
sociedade alternativa no meio da selva ou numa ilha distante. É no contato
contínuo que nossos defeitos se esbarram e temos a oportunidade de melhorarmos.
Você pode passar a vida inteira condenando a violência, mas só quando sua
família for atingida é que saberá quanta raiva carrega em seu coração.
─ As pessoas à
nossa volta são nossos espelhos. Ao invés de criticá-las, deveríamos procurar
em nós mesmos os defeitos que elas refletem ─ discursava o velho. ─ Os pilares
equilibram, mas também podem servir como amortecedores, reduzindo o impacto dos
choques de consciência que redirecionam nossas vidas. Quedas violentas trazem
também a chance de nos superarmos evoluindo.
Olhei para o pedaço de papel e depois para o velho, tentando achar uma
solução para a confusão contraditória que Agenor, com seu discurso, estabeleceu
em minha mente.
─ Essa é a
melhor parte. Nós somos livres para escolher ─ falou Agenor dando uma gargalhada.
Seguindo a intuição, sem entender direito a razão, rasguei a receita da
felicidade.
Capítulo 20
O que
existe de melhor no ser humano está no sentimento e não no intelecto.
O demasiado interesse de Agenor
naquela fita vermelha em meu pulso me inquietava. A insistência veemente com
que ele sempre perguntava sobre esse assunto, tornava-o um mistério cada vez
maior.
Encontramo-nos na Praça Santos Andrade, que estava muito movimentada
naquela tarde de sábado. Conversamos longamente, inclusive sobre o sucesso da
exposição de fotos na agência bancária.
Discutíamos sobre o apego à matéria, quando Agenor tentava me convencer
que eu poderia viver melhor se valorizasse menos o dinheiro, o conforto
material e os prazeres do mundo.
─ Se você nunca
experimentou o amargo sabor do pânico desesperado de não poder saciar a fome de
seu filho, também não está preparado para falar de apego material ─ falei
indignado.
Agenor me olhou franzindo as sobrancelhas, assustado com meu rompante
exasperado.
─ Você já sentiu
vergonha de encarar o seu filho? ─ Perguntei tentando justificar o meu
aborrecimento.
Não considerava prudente afrontar o velho, afinal de contas foi seguindo
seus conselhos que eu conseguira chegar até ali. Meu progresso era lento, mas
real. Quando o encontrei eu estava desempregado e sem perspectiva de futuro, e
hoje possuía meu próprio estúdio fotográfico.
Minha situação financeira continuava a mesma, visto que a maior parte do
dinheiro que conseguia lucrar era consumida pelas despesas com o aluguel da
loja e com os salários do meu assistente e da secretária que contratei. Mas a
expectativa de um futuro melhor me mantinha entusiasmado.
Sempre ficava apreensivo quando Agenor mordia seu lábio inferior. Depois
de me olhar pensativo por alguns instantes, ele ordenou que eu o aguardasse e
se retirou.
Aflito, permaneci sentado sozinho no banco daquela praça, durante o breve
espaço de tempo em que o velho esteve ausente. Teria ele se ofendido com meus
comentários?
Em todos esses meses eu nunca o
afrontei, mas não podia ficar indiferente, já que para ele era muito fácil
falar sobre desapego à matéria, pois sempre foi rico. Não vivenciou a agonia da
miséria e o martírio da privação.
Agenor voltou momentos depois com um pacote nas mãos.
─ É desse que
você falou que mais gosta? ─ perguntou o velho entregando-me uma barra de
chocolate com frutas cristalizadas.
─ Abra! ─ falou ele
percebendo meu embaraço.
A visão daquele delicioso chocolate despertou meu apetite.
─ Agora jogue
fora ─ ordenou o velho.
Parei com a boca aberta quando já estava pronto para abocanhar o
presente. Olhei para Agenor sem nada entender. Não consegui fechar a boca, que
salivava com o desejo despertado pelo meu chocolate predileto.
─ Vamos, jogue
fora ─ insistiu Agenor me apontando um cesto de lixo à nossa direita.
Atordoado com a inesperada e incoerente imposição do velho, eu fiquei
parado e quieto.
─ O que existe
de melhor no ser humano está no sentimento e não no intelecto ─ explicou
Agenor. ─ Você precisa superar o apego com a matéria, para conhecer seus
sentimentos mais nobres.
─ Eu não consigo
entender a razão para esse desperdício ─ falei.
─ Para você se
conhecer melhor não adianta usar somente seu raciocínio. Jogue o chocolate no
lixo, e observe o seu sentimento. É em situações extremas que manifestamos o
que realmente somos ─ falou Agenor.
Mesmo contrariado, levantei e caminhei até o cesto de lixo. Um enorme
desconforto me impedia de jogar o chocolate fora. Agenor assistia meu impasse,
sentado no banco da praça, sem falar nada. Se fosse uma outra coisa qualquer
talvez conseguisse, mas desperdiçar comida era contra os meus princípios.
Finalmente desisti. Atravessando a rua entreguei o chocolate a um mendigo,
que estava sentado na marquise enrolado a um cobertor.
─ Deus lhe
abençoe!
O
largo sorriso de gratidão do mendigo conseguiu dissipar o constrangimento
criado pela minha derrota em não conseguir fazer o que Agenor me pediu.
─ Esse é um ótimo jeito para
começar ─ falou o velho, quando sentei ao seu lado no banco da praça.
Tudo que Agenor me ensinou, apesar de seu método peculiar, sempre era
coerente e lógico. Mas nas últimas semanas sua excentricidade extrapolou os
limites do aceitável. Perguntava sobre o que eu sonhava durante a noite, sempre
querendo saber se eu não tivera experiências estranhas. E aquela bizarra fita
vermelha, que ele amarrou em meu pulso, a me lembrar que eu deveria cumprir
suas extravagantes e malucas orientações.
Foi naquele dia que presenciamos a
desesperada e inusitada luta do mendigo contra o seu agressor. Aquela incrível sequência
de emoções e acontecimentos, consolidaram todas as tentativas de Agenor de
mudar o meu comportamento frente aos desafios da vida.
Depois da nossa conversa e da experiência que tive no mirante, quando meu
grito ecoou no lago, mudei de atitude. A confiança em minhas possibilidades
transformou definitivamente minha vida.
Foi uma verdadeira catarse.
Mas surpreso ouvi Agenor dizer que foi somente uma coincidência. Que ele
não sabia que aquilo iria acontecer naquela tarde, e que eu deveria continuar
fazendo as estranhas coisas que ele me pediu, até o final de semana seguinte,
quando iríamos voltar ao Salto dos Macacos.
Capítulo 21
O que Agenor quis dizer com “dois desafios”?
O
dia já estava para nascer, mas a sombra da noite ainda não havia se dissipado
quando partimos com destino ao Salto dos Macacos, onde tudo havia começado.
Menos
de uma hora depois, Agenor estacionava o carro em um dos recantos da charmosa
Estrada da Graciosa, para apreciarmos o nascer do sol.
A Graciosa é uma rodovia secular,
com o seu calçamento de pedras, construída no caminho que era usado pelos
índios, que liga o planalto onde está localizada a cidade de Curitiba, a
novecentos metros do nível do mar, descendo vertiginosa até o litoral, numa
sequência incrível de curvas e panoramas maravilhosos, com churrasqueiras,
sanitários, quiosques para venda de produtos típicos e mirantes descortinando
paisagens espetaculares.
Um cenário perfeito para contar ao velho as boas novas: durante a semana
que passou, um empresário que visitou a exposição de fotos na agência bancária,
se interessou pelo meu trabalho e me contratou para fazer as fotos das
instalações de um hotel em Curitiba, que havia sido totalmente reformado.
Eu ainda estava sob o efeito daquela sensação de poder que senti, com o
grito que dei no mirante do Passaúna, enquanto negociava o contrato. Por isso
cobrei o preço certo, valorizando o meu trabalho.
O hotel fazia parte de uma grande rede. Os dirigentes da rede gostaram
tanto das fotos que o contrato foi estendido para todo o país. Eu passaria
meses viajando e fazendo muito mais dinheiro do que imaginei ser possível em
toda a minha vida.
Enquanto contava meu sucesso a Agenor, aproveitava a máquina fotográfica
de meus sonhos, que acabara de comprar, para fazer fotos daquele belíssimo
cenário. Foi só quando enfoquei o rosto de Agenor pela minha objetiva, que
percebi seus olhos marejados brilhando ao sol que raiava amarelando a paisagem.
Eu, que até então falava e fotografava sem parar, calei abaixando a
câmera devagar. Fiquei surpreso com a emoção estampada nos olhos de Agenor.
─ Parabéns! Você
venceu. Cruzou aquela linha riscada no chão. Fez a sua caminhada. E venceu o
primeiro dos dois desafios ─ falou o velho visivelmente comovido.
A empolgação pelo sucesso, e a euforia por saber que não passaria mais
privações financeiras, me fizeram esquecer por instantes que o mérito pela
minha vitória era de Agenor.
─ Devo tudo a
você ─ falei agradecendo.
Uma inquietação agitou novamente meus pensamentos. Por que ele me ajudava?
O que eu teria feito para merecer tanto empenho e dedicação? O que ele quis
dizer com “dois desafios”?
Capítulo 22
Hoje o seu despertador terá que funcionar!
Descemos a Serra do Mar pelas
intermináveis curvas da Estrada da Graciosa. Atravessamos a ponte metálica em
Porto de Cima, e seguimos uma pequena estrada que margeava o rio, até o ponto
em que faríamos a travessia. Agenor estacionou seu carro, como da outra vez, na
sombra da mesma enorme árvore.
Eu estava preocupado. Nunca atravessei o rio com tanto frio. Já era quase
final do outono, a água deveria estar gelada.
Agenor voltou a falar sobre a fita vermelha em meu pulso, enquanto
apanhávamos as mochilas, depois que estacionou o carro.
─ Hoje seu
despertador terá que funcionar ─ falou o velho de forma misteriosa.
Resolvemos lanchar antes de atravessar o rio, e para minha surpresa o
velho me proibiu de tomar qualquer tipo de líquido durante o dia.
─ Cada vez que
você sentir sede, olhe para a fita em seu pulso, pergunte a si mesmo “quem sou eu”,
e dê um pulo como se fosse tentar sair voando ─ instruiu Agenor.
─ Eu não consigo
entender onde isso poderá me levar ─ falei com a intenção de extrair alguma
explicação do velho.
─ Você precisa
quebrar sua mecanicidade, e descobrir que a realidade não é somente o que pensa
─ falou Agenor.
─ Morrer de sede
não fazia parte de meus planos ─ reclamei.
─ Precisamos
fazer isso hoje, por que nem a fita está resistindo à sua teimosia ─ falou o velho
se referindo ao precário estado da fita vermelha em meu pulso. Desbotada pelo
tempo e se desfiando, parecia que iria se arrebentar a qualquer instante.
Agenor explicou que enquanto dormimos, nossa mente fica livre e repete
nos sonhos o que fazemos quando estamos acordados. Como eu era muito mecânico,
apegado à rotina, ele precisava primeiro me acordar durante o dia, para depois
conseguir despertar minha consciência durante o sono.
Ele acreditava que se eu repetisse muitas vezes durante o dia o que me
pediu, acabaria despertando no meio de meu sonho. Mas como nada aconteceu nos
últimos meses, Agenor resolveu que deveríamos vir ao meu lugar preferido, e
adicionar um forte desejo como um novo ingrediente à sua receita. Após um dia
inteiro sem água, minha sede deveria ser grande o suficiente para me acordar.
Depois de nos abastecermos com sanduíches, que desceram com dificuldade
pela minha garganta seca, atravessamos o rio, por um caminho que eu não
conhecia, que ficava a quinhentos metros abaixo do local onde eu sempre
atravessava. Ali o rio bifurcava se dividindo em dois, formando uma pequena
ilha no meio.
A água estava realmente muita gelada, mas o desafio foi dividido em duas
etapas. Atravessamos o rio sem dificuldades e molhamos somente nossas pernas.
─ Por que
tivemos todo aquele trabalho para atravessar o rio, da última vez que estivemos
aqui, se você conhecia este caminho muito mais seguro? ─ perguntei
aborrecido.
─ Você pagaria
para andar em uma montanha russa que fosse reta? ─ perguntou Agenor.
Respondi com um largo sorriso, entendendo o sentido de sua pergunta.
─ A vida sem
fortes emoções não teria a menor graça. Quem iria ao cinema assistir um filme
onde tudo desse certo, do começo ao fim? ─ perguntou Agenor, também sorrindo.
Capítulo 23
A vida é manhosa e não vai lhe pagar o que você pede, e
sim o quanto você acha que vale.
O percurso até a cachoeira foi
tranquilo apesar de cansativo. Caminhamos sem pressa apreciando o passeio.
Pequenas nuvens de neblina no meio das árvores, rasgadas pelos raios de sol
teimosos em furar o bloqueio da mata fechada, formando belíssimos feixes de luz
a iluminar enormes teias de aranhas com gotas de orvalho brilhante, que serviam
como pano de fundo para o espetáculo proporcionado por alvoroçadas e coloridas
borboletas, com graciosos beija-flores, vez por outra roubando a cena em breves
voos, esbanjando técnica e perfeição.
A sede cumpriu à risca os planos de Agenor, forçando-me a olhar para a
fita vermelha várias vezes durante o percurso. Perguntar quem eu era me causava
uma bizarra sensação. Sentia-me deslocado ali no meio do nada cercado pela
floresta, longe da civilização, com um amigo em quem aprendi a confiar
plenamente, mesmo sem sequer saber seu sobrenome. Mas o que mais me
desconcertava era ter que dar aqueles ridículos pulinhos.
Apesar do frio, o dia estava ensolarado e com um céu profundamente azul,
tornando ainda mais fantástico o espetáculo daquelas águas e sua eterna luta
contra as rochas. Desta vez não houve disputa para ficar com a plataforma. Quem
mais seria excêntrico o bastante para se aventurar naquela floresta com o frio
que fazia?
Enquanto armávamos a barraca, eu, animado com a nova perspectiva
financeira, voltei a falar sobre o rentável contrato assinado durante a semana
que passou.
─ Tantos meses
de luta e a solução surgiu de onde eu menos esperava. Meu mundo mudou depois da
experiência que tive com o mendigo naquela tarde ─ comentei.
─ O mundo
continua o mesmo. Sua atitude é que mudou.
Agenor esclareceu que precisamos ter a postura correta frente à vida. Se
você estiver desesperado, com a família passando fome e for tentar vender o seu
carro a um comprador experiente, ele perceberá seu desespero, e o que vai lhe
pagar não será o que você pediu, e sim o mínimo que achar que você aceitará.
─ A experiência
daquela tarde mudou sua atitude e lhe devolveu algo que você nem lembrava que
um dia chegou a possuir: postura ─ falou o velho. ─ A vida é manhosa, e não vai lhe pagar o que
você pede, e sim o quanto você acha que vale.
─ Isso criou um
círculo vicioso. Quanto mais desesperado eu ficava, menos a vida me dava ─ falei
compreendendo o raciocínio de Agenor.
─ Exatamente!
Mas finalmente você venceu, e negociou assumindo a atitude correta. Tranquilo e
consciente, você cobrou da vida o que realmente vale o seu trabalho. A postura
certa permitiu que você recebesse o que sempre mereceu, mas nunca soube exigir ─ concluiu
Agenor.
Capítulo 24
Um tribunal interno se instaurou.
A minha sede aumentou muito com o
passar do dia. Olhar o tempo todo para aquela água transparente e abundante,
sem poder beber nenhum gole era uma tarefa árdua.
Todos os lados para onde eu me virasse, só enxergava água. Mesmo com os
olhos fechados, o barulho insistente e contínuo não me deixava esquecer a sede
torturante. Nos meses em que andei com aquela fita vermelha em meu pulso, nunca
lembrei tantas vezes de olhar para ela perguntando quem eu era, pulando
desajeitado logo em seguida.
No meio da tarde caminhei até uma das piscinas que a água formava no meio
das rochas, e ajoelhado lavava meu rosto tentando amenizar a minha sede.
A sensação daquela água fresca escorrendo em meu rosto era uma tentação
irresistível. Com a cabeça voltada para trás, passava lentamente a língua em
meus lábios, me torturando.
Abaixei-me novamente olhando para a água cristalina. O pensamento de
roubar um pequeno gole me ocorreu.
Percebi um estranho diálogo em meu cérebro. Um tribunal interno se
instaurou enquanto eu brincava com as mãos na água.
De um lado meus pensamentos me alertavam: Você não pode trair a confiança
de Agenor. Se você conseguiu aguentar até agora, tente suportar mais um pouco.
Enquanto em outro ponto de meu cérebro as justificativas me incitavam: um
gole apenas não irá fazer mal algum. Ficar o dia todo sem beber nada, pode ser
perigoso para a saúde.
─ Nós sempre
sabemos distinguir o certo do errado ─ falou Agenor aparecendo de repente e me
assustando. ─ Você pode se esconder e enganar a todos, mas por mais que se justifique, em
seu íntimo sempre saberá quando agiu errado. E mesmo que consiga lesar os outros,
no final é sempre você o maior prejudicado.
Capítulo 25
O velho cultivou um assombroso mistério em torno dessa
experiência.
Quando o sol se escondeu, a escuridão
da noite não conseguiu abraçar totalmente a floresta, porque a lua refletia sua
luz transformando o cenário com um toque mágico.
Agenor tirou a fita de meu pulso, e a amarrou em um copo com água, que
colocou sobre uma pedra a alguns metros de nossa barraca.
Depois, usando um galho de árvore como vassoura, limpou o caminho entre o
copo e a barraca.
Sentado em uma pedra com as pernas e os braços cruzados tentando me
proteger do frio, fiquei calado observando os movimentos calculados do velho,
preparando cuidadoso todos os detalhes de algo que prometia ser muito
importante.
Ansioso, aguardava o desfecho de todo o esforço em tentar seguir, mesmo
sem entender, as estranhas orientações de Agenor durante todos aqueles meses.
Enigmático e cauteloso, o velho cultivou um assombroso mistério em torno
dessa experiência. Sua insistência e preocupação fizeram com que a fita
vermelha adquirisse uma importância exagerada.
Agenor misturou um pouco de sal ao resto de água no cantil, e depois de
agitar bem, ordenou que eu tomasse.
O gosto ruim da água salgada tornou a minha exorbitante sede insuportável.
─ Prepare-se
para dormir ─ falou o velho depois de terminar seus preparativos.
Tentei argumentar que ainda era cedo e eu estava sem sono, mas Agenor
insistiu, e explicou que eu teria que deitar como se estivesse pronto para
dormir, fechar os olhos e depois de alguns minutos, tornar a levantar, caminhar
até o copo com água, e quando visse a fita vermelha amarrada nele, eu deveria
perguntar “quem sou eu”, e depois dar um pulo, voltar a deitar e repetir tudo
novamente.
─ Você não deve
simplesmente perguntar, tem que sentir a mesma sensação daquela tarde em meu
apartamento, quando se viu no espelho ─ enfatizou Agenor.
─ Quantas vezes
eu terei que fazer isso?
─ Quantas forem
necessárias. E como você disse que está sem sono, vai dar tempo de fazer pelo menos
umas vinte vezes.
Como em tudo que Agenor fazia sempre havia um propósito, resolvi não
questionar e seguir as suas estranhas ordens.
Nas primeiras vezes, meu nervosismo e agitação atrapalharam um pouco, mas
acabei me acalmando. Tirando a sede quase insuportável, e o constrangimento do
pulo, o resto do plano correu bem. Já na terceira vez que saí da barraca Agenor
havia desaparecido. Não sei por quantas vezes repeti aquele trajeto, mas finalmente
o cansaço venceu meu excitamento e relaxando acabei dormindo.
Capítulo 26
A repetição exacerbada a que Agenor me submeteu surtiu
efeito.
A forte sede não me deixou dormir
por muito tempo. Levantei de madrugada e fui tomar a água que Agenor deixou
sobre a pedra. Ao ver a fita vermelha amarrada no copo, por força do hábito,
perguntei novamente quem eu era.
Um arrepio avassalador estremeceu todo o meu ser. Notei estupefato e com
um assombro maravilhoso, que eu estava fora do meu corpo físico.
Não se tratava de um simples sonho. Era uma sensação muito mais ampla e
abrangente. Eu estava totalmente consciente, sabia meu nome e o que fazia.
Sentia meu corpo deitado na barraca e ao mesmo tempo em pé sobre a plataforma.
Tinha pleno domínio da situação e podia decidir o que fazer. Eufórico e
descontrolado, eu gritava minha felicidade ao conferir de perto e de forma
incontestável, que o mundo era muito mais que a matéria que eu conhecia.
A repetição exacerbada a que Agenor me submeteu surtiu efeito. Quando
finalmente tentei pular, explodi de contentamento, e ultrapassando todos os
limites possíveis da alegria que eu conhecia, saí voando.
Não era um simples sonhar que se está voando, e sim sentir solidamente
todas as sensações de um voo real. Eu escolhia para onde queria ir e a que
velocidade desejava voar.
Mas minha euforia não me permitiu voar por muito tempo. A situação fugiu
ao meu controle. Em meio aos voos rasantes por sobre a floresta enluarada, meus
gritos aumentaram até perceber que na barraca eu gemia. A sensação de meu corpo
físico deitado inerte aumentou, e quando menos esperava, acordei.
Imóvel por alguns instantes eu tentei voltar para aquela estranha
situação. Eu queria ver meu corpo físico enquanto estava fora dele. Mas minha
excitação e a alegria descontrolada haviam me despertado. Depois que a
experiência terminou, eu resolvi levantar e ir até o copo sobre a pedra, para
tomar água e acabar com aquela terrível sede.
Finalmente com o copo na mão, bebo a água em fartos goles. Sentindo um
horrível gosto de sal, cuspo desesperado a água fora. Irritado com a brincadeira
de mau gosto de Agenor, vou até a barraca para reclamar.
Ao entrar na barraca, eu vejo Agenor sentado com as pernas cruzadas
olhando para alguém deitado a seu lado.
Demorei alguns segundos para perceber que eu, parado na porta da barraca,
olhava para o meu próprio corpo deitado ao lado do velho.
Um grito alucinado e involuntário me arremessou de volta ao meu corpo.
Acordei “novamente”. O suor que molhava meu rosto apesar do frio da madrugada,
e um tremor incontrolável indicavam que agora eu estava realmente desperto.
─ Já sei! Você
sonhou que estava acordado, e quando acordou descobriu que estava dormindo ─ falou o velho
dando uma longa gargalhada, enquanto me entregava o cantil com água fresca.
Esvaziei o cantil de uma única vez, acabando com a angustiante sede.
─ O que
aconteceu? ─ perguntei quase sem controlar um tremor intenso.
─ Você se tornou
o “ator” durante alguns minutos ─ respondeu Agenor.
Segundo a visão de Agenor, a consciência, livre do corpo físico, é como
um ator sem representar, é ele mesmo. Contudo, quando a consciência está presa
ao corpo se torna o personagem, com suas máscaras, fantasias e maquiagens.
Quando estamos acordados conseguimos disfarçar nossos defeitos.
Dissimulados, nós não dizemos o que pensamos, nos controlamos refreando nossos
impulsos e desejos. Mas separados do corpo, nos tornamos o que realmente somos.
─ Existem atores
virtuosos e completos desempenhando papéis simplórios, e também atores medíocres
e despreparados interpretando personagens poderosos ─ falou Agenor.
De acordo com ele, existe o “ser” por trás das pessoas. Conhecemos
somente a ponta visível do que realmente somos. Para exemplificar, Agenor me
pediu para tentar lembrar de alguém que eu conhecesse que, mesmo humilde e
tendo pouca instrução, fosse uma pessoa agradável, verdadeira e simpática, e
por outro lado existem os que, com todo o conhecimento e poder que o dinheiro
pode comprar, não conseguem se tornar pessoas melhores, são intratáveis,
arrogantes e mesquinhas.
─ O ator
sobreviverá a essa vida, melhor ou pior do que quando nascemos, mas o
personagem com certeza irá morrer um dia ─ falou o velho ─ por isso use somente o tempo necessário com
as coisas materiais, elas ficarão quando o personagem morrer. O que realmente
importa é você se conhecer e se tornar uma pessoa melhor.
Encolhido no canto da barraca, com os braços e pernas cruzados tentando
controlar o tremor em meu corpo, olhava para o vulto sem conseguir perceber a
expressão no rosto do velho no escuro da madrugada. Tentei continuar a
conversar, mas Agenor me proibiu de falar. Não consegui dormir. Fui sentar do
lado de fora da barraca, para esperar o dia amanhecer.
Capítulo 27
A experiência desta noite foi o segundo desafio?
Quando Agenor se levantou, me encontrou
sentado perto do precipício na parte leste do local onde estávamos acampados.
Ele se acomodou ao meu lado e ficamos em silêncio a contemplar a paisagem.
O trem da manhã contornava os morros à nossa frente. Mal conseguíamos
ouvir o seu apito, com o barulho das águas, que depois de caírem pelo Salto dos
Macacos, escorriam pela rampa de pedra, passavam por quatro piscinas naturais
encravadas nas rochas, formando pequenos saltos e corredeiras. E depois de toda
essa maratona, despencavam pelo precipício à nossa direita, caindo por mais de
trinta metros formando o majestoso Salto do Redondo.
─ Jogue isso
fora! ─ ordenou Agenor se referindo à fita vermelha que eu segurava pensativo em
minhas mãos. ─ Você já se acostumou com ela, não serve mais como despertador.
─ Mas ela
representa um marco em minha vida! ─ argumentei.
─ Cuidado para
não confundir a fita com o que ela representa ─ falou o velho. ─ Ou logo você irá colocá-la em um altar e
acabará rezando por ela.
Agenor riu da minha expressão de espanto, e depois explicou que as
pessoas fazem uso de imagens, estátuas e amuletos, para reforçar a sua fé, e
com o tempo, depois de muito reverenciá-los, acabam esquecendo o que eles
representam.
─ Por que eu não
consegui controlar a situação ontem à noite? ─ perguntei ainda olhando para a desbotada fita
em minhas mãos.
─ Nós forçamos a
sua entrada em um mundo para o qual você ainda não estava preparado.
Agenor explicou que a euforia me fez perder o controle, a sede confundiu
minha percepção e finalmente a irritação me descontrolou, por isso, distraído,
acabei me assustando quando vi meu próprio corpo.
─ Naquele mundo
você não pode mentir nem camuflar ou mascarar suas emoções. Por isso precisa dessa
vida e do corpo físico para dominar o seu ego, e depois de compreender, tentar
eliminar os seus defeitos ─ explicou Agenor.
Consternado por um sentimento de impotência me calei.
─ As pessoas
vivem baseadas simplesmente na fé. Você teve uma oportunidade única de
constatar pessoalmente, a possibilidade de a consciência existir fora do corpo.
Use os poucos minutos que durou sua experiência para desviar sua vida na
direção certa.
─ E qual é a
direção certa?
Agenor olhou firme em meus olhos, e depois de um longo silêncio
respondeu:
─ Você já sabe o
caminho. Conversamos sobre isso em todos os nossos encontros. Procure
conhecer seus sentimentos, descubra os seus defeitos, aprenda o máximo que
puder, tente ser uma pessoa melhor.
Agenor explicou que o homem
alcançou enormes avanços intelectuais e tecnológicos, mas não evoluiu como ser
humano na mesma proporção. O desenvolvimento conquistado aproximou o homem dele
mesmo e o afastou de Deus. Apesar de todo o progresso, continuamos os mesmos
bárbaros de sempre.
─ São muitas
informações e às vezes me sinto perdido ─ reclamei.
─ Siga a voz de
sua consciência.
─ Isso parece
meio... abstrato.
Agenor tornou a olhar em meus olhos, procurando algo.
─ Se isso lhe
parece abstrato, o que afinal é real para você?
─ Minha frágil
realidade foi questionada muitas vezes. Os fragmentos que sobraram não se
sustentam sozinhos. Já não sei mais o que é verdade.
─ A verdade acaba sendo individual. Cada um só
consegue ver a sua própria verdade ─ falou Agenor, distraindo-se a olhar o horizonte.
Joguei a fita na água que passava apressada à nossa direita, despencando
precipício abaixo. Misturando-se à espuma branca, ela sumiu em meio ao barulho
da cachoeira deixando uma incômoda tristeza em seu lugar.
─ A experiência
desta noite foi o segundo desafio? ─ perguntei, me referindo ao comentário que
Agenor fizera no começo de nossa viagem.
─ Não! Ainda não
─ respondeu o misterioso Agenor.
Capítulo 28
Se eu não conheço toda a verdade, devo tentar seguir quem
está mais próximo dela.
Desmontar o acampamento, desarmar a
barraca e arrumar todas as coisas em seu lugar, teve um simbolismo incrível, com
cada gesto sendo associado a conversa que tive com Agenor.
─ Como você sabia que eu iria acordar no meio do sonho? ─ Perguntei,
enquanto tirávamos a lona de nylon da cobertura da barraca.
─ Eu não sabia... Tinha esperança
─ respondeu o velho ajoelhado e enrolando o tecido.
─ Você é meio bruxo. Parece que
sempre prevê as coisas ─ falei desamarrando os tirantes que estavam presos em
pedras, que serviam como apoio, já que era impossível cravar na rocha os
ferrinhos, normalmente usados para prender a barraca.
─ Já disse que eu não tinha certeza
se funcionaria ─ disse o velho que continuava ajoelhado, agora enrolando o
tecido da parte de baixo da barraca.
─ Como você sabia que iria
acontecer aquilo tudo com o mendigo, naquele dia lá na praça? ─ Perguntei
enquanto desmontava as hastes flexíveis que serviam para sustentar a barraca.
─ Eu não sabia. Eu precisava despertar
o sentimento certo em você. O evento do mendigo foi uma oportunidade.
Simplesmente aproveitei.
─ Quer dizer que foi pura sorte? ─
Questionei, enquanto guardava todas as nossas coisas em sacos plásticos para
não molhar durante a travessia do rio.
─ Sorte é quando você está
preparado para as oportunidades que aparecem ─ Falou Agenor enquanto amarrava a
embalagem onde guardou todas as partes da barraca.
─ Mas o que aconteceu comigo
ontem a noite não foi por acaso. Você vem preparando isso a meses. Desde aquela
tarde lá no seu apartamento. A fita vermelha, os pulinhos e toda aquela
bruxaria de ontem à noite.
Agenor sorri balançando a cabeça.
─ Não foi bruxaria. A sua “vontade”
ainda é muito pequena. Tudo o que fizemos esse tempo todo foi aumentar a sua
força de vontade.
─ Bruxaria ou não, eu continuo
não entendo ─ falei ao mesmo tempo em que prendia as fivelas da mochila.
─ Várias religiões estimulam o
jejum ou outras formas de aumentar a força de vontade. O celibato da igreja
católica é para aumentar a vontade dos padres e feiras. Os mestres do tantrismo
usam a energia do sexo para aumentar a força de vontade.
─ Você usou a minha sede ontem à
noite... ─ comentei enquanto amarrava meu colchonete na mochila.
─ Isso! O jejum demoraria muito
para fazer efeito. E a energia sexual, nem pensar. É muito poderosa e complexa.
A sede, no seu caso, funcionou bem.
Depois de desarmarmos a barraca e arrumarmos todas as coisas, conversamos
sentados na plataforma, usando as mochilas como encosto.
─ O que move o mundo é a força de
vontade. A diferença entre os que agem e os que só reagem, está na força de
vontade. Mas a vontade também pode ser aumentada com sentimentos negativos como
a ganância, o ódio ou a vingança... Por isso, “paz na terra aos homens de boa
vontade”.
─ Já que você falou em religião e
citou a bíblia, o que é Deus para você?
Agenor se virou me olhando espantado. Um sorriso iluminou seu rosto, como
se ele tivesse ganhado um prêmio. Aguardava suas brincadeiras e ironias, como
sempre fazia quando falávamos sobre esse assunto e eu mostrava minha descrença,
mas o velho ficou radiante com minha pergunta.
─ Pai ─ respondeu ele, com naturalidade.
A simplicidade de sua resposta me frustrou. Eu esperava do velho uma
explicação complexa e detalhada, mais condizente com todo o seu conhecimento.
Fiquei calado contemplando a água que passava barulhenta e incansável.
─ O seu pai lhe
deixou cair várias vezes quando você, ainda criança, estava aprendendo a andar ─ falou enfim
Agenor. ─ Se você já soubesse falar, reclamaria perguntando: Pai, por que você não
me segurou? Mas como ainda não sabia se expressar, você simplesmente chorou.
Ouvindo Agenor falar, tentando descrever como poderia ter sido o momento
em que meu pai me ensinou a andar, voltei a sentir aquela saudade melancólica
que tanto me perturbava.
Lembrei do que Agenor falou alguns meses antes sobre superar o trauma
para poder recordar os bons momentos vividos com meu pai. Mas minha única
lembrança era a agonia da espera de sua morte.
─ Estou certo ─ continuou a
falar Agenor ─ de que seu pai tentou explicar a necessidade dos tombos, mas você,
naquele momento, não conseguiu entender. Ele, provavelmente, deve ter lhe
aconchegado em seus braços, esperando que você superasse o medo de cair, para
lhe ajudar a tentar novamente. E de tanto insistir, você acabou aprendendo a
andar. Posso até imaginar a emoção de seu pai, ao ver você dar os primeiros
passos.
Mesmo que eu tentasse não conseguiria lembrar de meu pai me ensinando a
andar. Mas recordei da emoção que tive, quando meu filho deu seus primeiros
passos. Um doce sorriso iluminando seu rostinho, onde dois olhinhos arregalados
se destacavam. Passos incertos e cambaleantes, com os pequenos braços
esticados, e demonstrando confiança, atirou-se em meu colo buscando abrigo
seguro. Meu filhinho me abraçando eufórico, na alegria de conquistar mais uma
etapa, e eu com a felicidade a transbordar por meus olhos marejados.
─ Deus dotou o
homem de consciência, e em sua infinita bondade nos concedeu o livre arbítrio ─ falou Agenor. ─ E mesmo quando
cometemos erros atrozes e hediondos, Ele não nos priva de nossa liberdade.
Caímos seguidas vezes, tentando andar com nossas próprias pernas. Por não
entendermos seus desígnios, muitas vezes nos revoltamos: Pai, por que me
abandonastes? Mesmo sem percebermos, enquanto choramos desconsolados, Deus nos
aconchega em seu colo, até recuperarmos nossas forças e tentarmos novamente.
Uma sensação angustiante de abandono e desamparo aumentou a saudade que
eu sentia de meu pai.
─ Se tivéssemos
apenas uma pequena parte da confiança que Deus sempre depositou no homem,
acreditaríamos mais em nós mesmos e nas nossas possibilidades, e certamente nos
tornaríamos pessoas melhores. ─ Depois desse comentário, Agenor calou-se, e o
seu silêncio reforçou ainda mais o que ele acabara de falar.
Tentei fazer outras perguntas para continuar a conversa, mas ele se
recusou a responder.
─ Descubra a sua
própria verdade ─ disse ele.
─ Eu pensei que
a verdade fosse única ─ argumentei.
─ A verdade é uma
só, mas nós somos pequenos demais para entendê-la em sua plenitude.
Agenor explicou que a verdade é como um enorme quebra-cabeça,
gesticulando, com os braços para cima, movendo peças imaginárias. Cada um de
nós a enxerga conforme os pedaços que conseguiu juntar. Usamos a teoria e a fé
para completar as partes que faltam.
─ Eu sempre usei
a teoria, mas foi você que me ensinou a usar a fé. Se eu não conheço toda a
verdade, devo tentar seguir quem está mais próximo dela ─ comentei.
─ Como assim? ─ perguntou
Agenor, baixando os braços e franzindo as sobrancelhas enquanto me encarava.
Expliquei-lhe que quando o conheci, minhas debilitadas teorias não me
ajudavam muito. E que mesmo não entendendo tudo o que ele dizia, eu resolvi
segui-lo, porque acreditei no seu conhecimento e experiência.
A fisionomia do velho mudou rapidamente. Alguma coisa que eu falei o deixou
melancólico. Calado, ele ficou a olhar para o nada.
─ Minha atitude
não lhe parece um bom exemplo de fé? ─ perguntei.
Agenor me encarou, com seus olhos refletindo um inexplicável padecimento,
em seguida se levantou em silêncio e entrou na floresta, subindo a encosta do
morro.
Ele não deveria ter ido longe porque deixou sua mochila na plataforma.
Depois de alguns angustiantes minutos de espera resolvi ir atrás dele. Subi por
uma pequena, mas íngreme trilha que dava acesso à parte de cima do salto.
A rápida corrida me deixou ofegante
ao chegar. Eu nunca havia subido até lá. A água cristalina, antes de despencar
por mais de cinqüenta metros formando o Salto dos Macacos, se dividia
contornando uma enorme pedra que ficava no meio do rio, próximo à beirada da
cachoeira.
Encontrei Agenor sobre essa pedra com os braços abertos e as mãos
voltadas para o céu a rezar.
Não sei se foi a beleza e a força daquela cena, ou a vertigem causada
pela altura, mas fiquei maravilhado e comovido com o que vi.
Criei coragem e atravessei o pequeno trecho escorregadio que me separava
da pedra, onde o velho sentou após terminar sua oração.
Sentei a seu lado sentindo-me um simples grão de areia naquela imensidão
verde à nossa frente.
Agenor esticou a sua mão para me cumprimentar. Mas, ao invés do aperto
tradicional, ele deu um tapinha em minha mão e depois o toque com a mão fechada,
como ele me viu fazendo com o Índio e os amigos.
O velho abriu um sorriso sereno com um brilho de gratidão. Não entendi o
que estava acontecendo, mas meu peito se encheu de uma emoção morna e
inexplicável.
Estávamos no topo daquele mundo. E mesmo sabendo que eu era apenas uma
parte infinitamente pequena daquela belíssima paisagem, estava tranqüilo e
radiante de felicidade.
Não me atrevi a quebrar com palavras o encanto mágico daquele momento.
Capítulo 29
Você está pronto para vencer o seu segundo desafio?
Agenor
ficou muito arredio nos meses seguintes. Durante todo o inverno, enquanto eu viajava
a trabalho, consegui falar com ele apenas pelo telefone.
O
meu conhecimento não era suficiente para explicar o que Agenor fez comigo para
provocar aquela fantástica experiência no Salto dos Macacos. Depois de procurar
respostas em muitos livros, passei a acreditar que ele deve ter juntado
ensinamentos de diferentes segmentos místicos e religiosos, para quebrar minha
mecanicidade e desmoronar os meus conceitos sobre o que é real, me arremessando
a um estado alterado de consciência.
Todos
os livros que li serviram apenas para aumentar ainda mais o mistério:
Quem
seria Agenor afinal?
Mesmo
com toda a minha insistência, foi só no começo da primavera que consegui
convencer o velho a marcar um novo encontro.
Chegando ao endereço que Agenor me deu, estacionei meu carro novo,
comprado com o dinheiro que já não era mais problema em minha vida.
Desorientado, constatei que se
tratava de uma igreja. Olhei em volta e não encontrei o velho, apesar de ter
visto o seu carro parado bem em frente às escadarias, quando dei a volta
procurando um lugar para estacionar.
─ Tá bem cuidado, tio ─ gritou um jovem rapaz de roupas simples, que
estava há alguns metros, cuidando dos carros estacionados.
Caminhei até o carro de
Agenor pensando em como a minha vida tinha mudado. A pouco tempo atrás eu me
vestia de forma parecida com o jovem que cuidava dos carros em busca de uns trocados.
E hoje eu estava com os cabelos cortados, a barba feita e com roupas alinhadas
e confortáveis.
Encostado no carro de Agenor, enquanto esperava, acompanhei o voo de um
pombo e acabei fixando o olhar na cruz no alto da torre.
Depois de um longo e rigoroso inverno chuvoso, uma manhã ensolarada de
primavera como essa, parecia uma dádiva celestial que combinava com aquela bela
igreja.
─ Bom dia! Você
é o Marcelo? ─ ouvi de repente.
Duas freiras baixinhas e risonhas me olhavam esperando uma confirmação.
─ Sim! Sou eu.
Estou aguardando um amigo ─ respondi retribuindo o sorriso.
─ Nós lhe
devemos toda a nossa gratidão! ─ falou a menor delas, segurando minha mão
entre as suas, e inclinando a cabeça para o lado, o que valorizava ainda mais o
doce sorriso e o olhar brilhante daquele simpático rosto enrugado.
Desconcertado, olhei para a outra freira a seu lado tentando entender o
que acontecia.
─ Agenor nos
contou que você salvou a vida dele ─ disse ela.
─ Deve haver um
mal entendido, Agenor é que salvou a minha vida ─ falei tentando esclarecer a situação.
─ Venha! Você
está atrasado.
Fui arrastado, gentil e lentamente pela freirinha, que insistia em não
soltar a minha mão. Subimos a enorme escadaria. Enquanto uma das freirinhas
tentava me explicar a história de Agenor, a outra largava frases desconexas
que, apesar de esclarecedoras, aumentavam ainda mais a minha curiosidade.
─ A mente brilhante de Agenor o
fez progredir rapidamente.
─ Sentíamos muito a sua falta...
─ Todos ficavam maravilhados ao
ouvir as suas palavras.
─ Mas ele sempre mandava
notícias...
─ Nossa cidade acabou ficando
pequena para a grandeza de suas idéias.
─ Tenho uma coleção de cartões
postais...
─ Ele andou pelo mundo todo.
─ Cartões da América... Da
África... Da Europa...
─ Um dia a sua religião já não
era o suficiente.
─ Eu tenho uma foto dele ao lado
do Papa...
─ Agenor abandonou tudo e saiu
atrás de mais conhecimento.
─ Ganhei lindas fotos da Cordilheira
dos Andes... Himalaia... Índia... Tibet...
─ Sumia durante anos, buscando
aprender sempre.
─ Ele me contava em suas cartas
sobre mosteiros... Peregrinações... Ordens místicas...
─ Até que um conflito com sua fé abalou Agenor.
─ Ele desistiu de tudo...
Subindo a escadaria, fiquei
perplexo e meio tonto, tentando processar em meu cérebro tudo o que acabara de
ouvir.
─ Mas felizmente
você conseguiu trazer ele de volta para nós ─ falou por fim a freirinha, baixando o tom de voz enquanto entrávamos na
igreja.
Uma belíssima música era cantada em coro pela igreja lotada. O sol forte
da manhã turvara meus olhos. Eu vislumbrei pessoas embaçadas em pé cantando,
enquanto caminhava no corredor central puxado pela mão da freira.
Quando minha visão se acostumou com a iluminação do ambiente, e comecei a
enxergar com mais clareza, minhas pernas afrouxaram quase sem conseguir
sustentar o meu peso.
A freirinha, notando o que acontecia, largou minha mão e, depois de me
olhar por alguns instantes, seguiu em frente me deixando no meio da igreja.
Não pude acreditar no que vi. No altar, com os braços abertos e as mãos
voltadas para cima, o padre vestido de branco era Agenor.
A acústica da igreja transformou a música em pura energia, que envolveu
todo o meu ser. Meu peito apertado vibrava com as notas cantadas por todas
aquelas pessoas. Entorpecido pela emoção, tive a sensação de flutuar.
A imagem do padre Agenor no altar, mesclou-se em minha mente com a
lembrança dele rezando sobre a pedra no Salto dos Macacos.
Essa associação desencadeou a visualização de uma série de imagens em
minha memória, que começou com meu pai em seu leito de morte, colocando a
pequena cruz de prata em minha mão, e eu revoltado com o seu sofrimento a joguei
longe.
Lembrei de Agenor sentado na plataforma de pedra, na primeira vez que o
vi. Depois recordei sua mão estendida me oferecendo ajuda para cruzar a linha
que ele riscou no chão, e eu tornando a atravessar o rio para abraçá-lo.
Enquanto a missa continuava, eu paralisado em pé no meio do corredor
rememorava imagens: a cruz na parede do apartamento de Agenor, meu espanto
refletido no espelho, a fita vermelha em meu pulso, seu passeio sobre a viga
suspensa naquela madrugada, seus olhos brilhantes na emoção da minha vitória, o
meu vôo fora do corpo físico e suas sábias teorias.
Lembrei também de Agenor perguntando entristecido: “Será que Deus existe?
Você pode destruir uma vida, se conseguir semear essa dúvida na mente de uma
pessoa religiosa”.
Compreendi, aos poucos, que Agenor quando me encontrou, também andava
perdido e descrente.
Mesmo impossibilitado, pela forte emoção, de acompanhar os rituais da
missa, consegui ouvir parte do sermão. O padre Agenor falou que há dois mil
anos atrás era muito difícil para o homem viver sem saber no que acreditar. Mas
depois de Jesus Cristo não precisaríamos mais discutir qual o caminho certo,
bastaria seguirmos a luz de seus ensinamentos, aprendendo a amar.
─ Que a dúvida
jamais invada minha mente. Que eu tenha sempre a certeza de que o Senhor é meu
pastor e nada me faltará. Que o medo não encontre moradia em meu coração,
porque eu tudo posso
Permaneci o tempo todo parado no meio do corredor. Não participei da
missa, mas as rezas e cânticos me deixaram em completo estado de êxtase. Eu era
ainda um menino na última vez que entrara em uma igreja, e agora me sentia uma
criança novamente.
Depois da benção final as pessoas ainda demoraram a sair. Felizes,
queriam cumprimentar o padre Agenor pelo seu regresso. Aos poucos a igreja se esvaziou
e o silêncio imperou.
Com um gesto de sua mão, que fez balançar sua batina branca, Agenor pediu
que eu me aproximasse.
Apesar de me sentir muito leve, meus pés tiveram dificuldades em me levar
até o altar onde ele estava.
Conforme me aproximava, a sua imagem parecia mais majestosa e
resplandecente naquela roupa branca. A luz do sol que entrava por um dos
vitrais da igreja, refletia exatamente onde ele estava. Seu brilho se tornou
ainda mais intenso.
Quando finalmente me aproximei, mal conseguia respirar. Um choro de
alegria estava entalado em minha garganta. O sorriso no rosto dele nunca esteve
tão radiante.
─ Quando Deus o
colocou no meu caminho, lá no salto, como uma ovelha desgarrada, Ele sabia que
o meu instinto de pastor falaria mais alto e eu tentaria reconduzi-lo ao
rebanho ─ falou o padre Agenor com voz suave.
Os quase quatro meses de afastamento deixaram uma saudade dolorida em meu
peito. Ouvir novamente a sua voz me inspirava a abraçá-lo, mas a vestimenta que
ele usava impunha respeito, e desconcertado eu não soube o que fazer.
─ No começo, eu
pensei que estaria lhe ajudando a se encontrar, mas quando você disse que me
seguia por pura fé, um clarão divino me mostrou os verdadeiros planos de Deus.
“Se eu não conheço toda a verdade, devo tentar seguir quem está mais próximo
dela” ─ falou ele olhando para a cruz no altar.
Eu, que sempre fui tão grato a Agenor, por tudo que ele fez por mim, mal
podia crer que algo que eu falei tivesse força para influenciar a sua vida.
─ Por que você
não me falou que era padre?
─ Comecei como um padre. Mas um
dia achei que era pouco. Busquei muito mais. Aprendi muito mais. Porém, cheguei
a um ponto em que nada mais fazia sentido...
─ E eu, estabanado, dizendo justo
para você que a religião era apenas uma muleta ─ comentei
envergonhado.
─ Mas foi você, Marcelo, que me fez
perceber que a religião, a vontade de me “religar” com Deus, é que me motivou a
tentar crescer como ser humano. Você conhece outra forma para despertar as
pessoas?
─ Não sei... É que parece que
todas as guerras sempre tem a religião no meio... Mas quem sou eu para criticar
e chamar de muleta a religião dos que se organizam tentando melhorar o mundo?
Se eu mesmo não tento melhorar nem a mim mesmo...
─ Um dia conseguiremos andar com
nossas próprias pernas. Uma alma pura não precisa de livros de regras e códigos
de ética... Muletas... Mas, por enquanto, ainda precisamos da religião que
serve como um freio para a maldade humana. Contudo, precisamos de uma religião
que indique o caminho para o crescimento individual, e não as que manipulam as
pessoas com fanatismo cego.
─ Nossa! Que vergonha. Como fui
petulante... Esse tempo todo me achando o protagonista... Mas sou apenas um
coadjuvante... Essa história é a sua história.
─ Voltei para a igreja porque
como um padre eu posso ajudar muito mais. E, afinal, não importam as vestes,
crenças ou rituais, e sim a maneira como se vive. Não somos nem melhores, nem
piores do que os outros. Todos nós temos uma função nessa enorme engrenagem que
é o universo. Apesar de todo o meu esforço, foi um mendigo que lhe ajudou a
recuperar a sua autoestima.
─ Talvez eu tenha menosprezado o
valor da religião...
─ Não Marcelo! Buscar Deus não é
só religião, não é só decorar regras e impor rituais. Buscar Deus é tentar encontrar
a perfeição. É tentar melhorar como pessoa. É descobrir qual é o nosso limite de
compreensão e ir um pouco além, ampliando ao máximo a nossa consciência.
─ Então toda aquela história de “ganhar
dinheiro” era apenas uma isca?
Agenor gesticulou, abrindo os
braços, encolhendo os ombros e sorrindo.
─ Agora estou entendendo as suas
manobras. Todos aqueles livros que você me emprestou, sobre pensamento positivo
e de como conquistar o sucesso, falavam basicamente a mesma coisa: Se eu
crescesse como ser humano, a tranquilidade financeira viria como uma simples consequência.
─ E agora? Você está pronto para vencer o seu segundo desafio? ─ Perguntou o
padre Agenor, pegando meu braço e colocando algo em minha mão.
Quando olhei para o que ele me deu, não consegui mais segurar o choro que
por tanto tempo esteve preso em minha garganta.
─ Está na hora de você preencher
aquele vazio que sente no seu peito.
Um forte arrepio percorreu todo o meu corpo. Lembrei do olhar de
cumplicidade entre minha mãe e Agenor.
Finalmente voltou para as minhas mãos, a pequena cruz de prata que meu pai
tentara me dar em seus últimos momentos de vida.
─ Você está
pronto? ─ Agenor tornou a perguntar, olhando fixo em meus olhos.
Não consegui mais me conter. E como resposta à sua pergunta eu o abracei.
As sofridas lembranças de meu pai me fizeram apertar aquele abraço. As
lágrimas, desta vez, eram mornas de alívio e felicidade. Senti que finalmente
um longo inverno em minha vida chegava ao fim. A revolta e a amargura daqueles
anos todos não faziam mais sentido. Depois de tudo que Agenor me fizera ver, eu
não poderia mais viver negando Deus.
Entendi finalmente a origem da minha melancolia: A angustiante falta e a
estranha saudade que corroíam o meu peito eram, na verdade, o vazio deixado
pela ausência de Deus em meu coração.
Aliviado olho para a cruz no altar: “Se eu não conheço toda a verdade,
devo tentar seguir quem está mais próximo dela”. Aspirando o ar profundamente,
tento encher os meus pulmões com a extasiante energia que pairava na igreja,
expirando em seguida, expelindo toda a amargura que ocupou durante tempo demais
o meu coração.
Epílogo
A frase certa.
Um novo Marcelo desceu as escadarias da igreja naquele dia. Deu uma
enorme gorjeta ao rapaz que se ofereceu para cuidar do seu carro, que aguardava
em frente à igreja, encostado no carro de Agenor, ocupando o mesmo lugar em que
Marcelo estava há poucos instantes.
Marcelo atravessou a rua e foi até o seu carro, que estava estacionado do
outro lado da rua, nas sombras das árvores de uma pequena praça.
Abriu os vidros do carro e ligou o som. Ficou ali por alguns instantes e
a letra da música “Quase Sem Querer”, que tocava em seu carro e expressava todo
o seu sentimento, invadiu a paisagem com a rua agora quase deserta.
Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente:
Sou tão tranquilo e tão contente
Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém
Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira,
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo
Já não me preocupo
se eu não sei por que
Às vezes, o que eu vejo,
quase ninguém vê
E eu sei que você sabe,
quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você
Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos!
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?
Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto
Já não me preocupo se eu não
sei por que
Às vezes, o que eu vejo,
quase ninguém vê
E eu sei que você sabe,
quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.
O jovem, encostado no carro de Agenor, cantarolou a música, mas não prestou
atenção ao que a letra dizia.
O barulho característico do alarme do carro sendo desligado desperta o rapaz,
que percebe a chegada do seu último cliente, o padre Agenor, agora sem a sua
túnica, descendo as escadarias da igreja.
A rua quase deserta, as árvores da pracinha, a igreja com a sua
escadaria, o céu azul, a cruz no alto da torre, com os pombos voando ao redor,
tudo isso servia como um pano de fundo para uma outra história que estava
apenas começando.
Alguém que tivesse a sensibilidade de observar, mesmo de longe, poderia
sentir a emoção impregnando o ar, com a letra da música ainda ecoando na mente.
Alguém atento teria percebido que Agenor ficou um tempo conversando com o jovem
rapaz que cuidava dos carros.
Mesmo de longe seria possível perceber que Agenor pegou um giz do bolso, riscou
uma linha na calçada, deu dois passos para trás, bateu as mãos para tirar o pó
do giz e ofereceu a mão ao jovem.
E mesmo que você não pudesse ver a expressão do rapaz, tenho certeza que
ficaria na torcida: Vai! Dê esse passo! Cruze a linha! Comece a sua história!
Somos todos sócios nessa sociedade, muitas vezes injusta, mas que está em
constante construção. Todos nós desempenhamos um importante papel neste enredo,
nesta trama, que existe exclusivamente para que cada um possa evoluir e ampliar
a própria consciência.
Em muitos momentos você se sente um Marcelo, precisando muito de um
Agenor. Mas pode ter certeza que muitas outras vezes, você é que é o Agenor de alguém.
O Agenor que você precisa, ou a mensagem que você precisa, nem sempre
será alguém misterioso que irá surgir em sua vida.
Fique atento. O Agenor, ou a resposta que você precisa, as vezes você
encontra na letra de uma música, em uma peça de teatro, ou na história contada
em algum livro que está bem ali, só esperando que você leia.
Cada um desempenha um papel nesta engrenagem que é o universo. Não fico totalmente
confortável quando sou chamado de escritor. Mas gosto muito da expressão “contador
de histórias”. É que eu sou um privilegiado por ter um mestre que me contou
qual a minha missão nesta vida.
A minha missão é:
Dizer a frase certa. Para a pessoa certa. No momento certo.
O meu sincero desejo é que você tenha encontrado nesta história, pelo
menos uma frase, que seja a frase certa para você neste momento de sua vida.
Contatos com o autor:
instagram.com/silviokurzlop
facebook.com/MudandoOAmanha/
www.youtube.com/c/SilvioKurzlop
skurzlop@gmail.com
ATENÇÃO!
Este aviso é para aqueles que têm o
estranho hábito de ler a última página antes de ler o livro.
O ritmo dramático foi cuidadosamente
estabelecido para que a leitura seja fluente e agradável.
Descobrir antecipadamente o final da história comprometerá o prazer da
leitura.
Recicle o
amanhã de um amigo.
Dê um livro de
presente.

